choripán

duas estranhas
na primeira noite
normal do ano
das quais não recordo
se quer os nomes
as quais foram embora
enquanto dormia
das quais me lembro bem
os contornos
das quais ainda tenho
um pouco do cheiro
as quais não me roubaram
por honestidade ou
cortesia? não sei
no fim
o que ficou além
do desejo
de repetir a noite
foram duas calcinhas
ao lado do caderno
onde constava: choripán
e um coração muito bem
desenhado.

escorrendo

o cachorro fareja meu ódio
e meu desprezo
escorrendo lenta e diretamente
da sacada do quarto 103
para a calçada

uma boa fungada
com o pescoço bem disposto
narinas bem abertas
são segundos
antes que atravesse a rua
desatinado, e seja despedaçado
por um caminhão carregado
em toneladas de momentos
jamais esquecidos

foi a última vez para ele
eu lamento novamente e continuo
escorrendo aos montes, morrendo
aos poucos.

ovo negro

de quanto azar preciso
para ter um pouco de sorte?
perguntei para o gato
aqui do meu lado
que não sabe sua idade
mas é muito peludo e ronrona
em várias línguas diferentes,
perguntei para o cachorro
que no ano passado
não votou em branco
nem vendeu seu voto
só enterrou seus ossos,
para o frango
que preparei no almoço,
para o porteiro
que não guarda portas,
para o Alce, porque o encontrei
no caminho, para o guarda-chuvas
que já não vem guardando
nada. e por hora
estou convencido: éter
é eterno.