Passado envelhecido ( XIX )

Essa mulher era um pouco mais velha, bruta mulher, perfumada, peitos erguidos, cintura fina, bunda larga, rosto esbelto, uma presa caçada todo dia, com longos cabelos loiros e mamilos duros, que machucariam a gengiva de qualquer um, e beijava mal pra burro.
O ambiente do bar estava insatisfatório, os poucos presentes eram alguns traficantes, putas caras, músicos conversando sobre seus ídolos do passado, “Jim Morrison foi foda, um poeta, comeu todo mundo, acho que minha mãe daria pra ele”, “Bom mesmo era o Hendrix, toco duas dele, acabou com Jimmy Page e Eric Clapton”, “Porra, eu amo vocês dois, vamos montar uma banda?”, eu soluçando um abominável salame, e essa loira, abandonada, pinta de puta, olhar de puta, pedindo cerveja com outras garrafas pela metade ainda.
Lembro-me de sentar em sua mesa após uma troca de olhares minuciosa, uma prova concreta de algo incerto. Era um sábado de 2011, por volta da meia-noite .
– Posso me sentar? Perguntei
– Fique a vontade.
Puxei a cadeira, pousei minha garrafa. Enchi meu copo e o dela.
– Percebi que você estava gostando de me olhar – continuei.
– Que coisa, percebi o mesmo de ti.
– É, eu gosto de olhar às vezes.
– Acha que eu tenho cara de puta?
– Tem
– Sério? Ainda bem. Mas não sou puta.
– Ainda bem, porque to falido.
Brindamos, demos um gole juntos, eu sequei o copo, pra ela faltou pouco. Enchi de novo.
– Você é charmoso sabia? Tem toda essa barba mal feita. Esse cabelo desajeitado. É alto e magro, mas seus olhos compensam a falta de músculos.
– O que posso dizer? Deus só economizou na coragem.
– Se te falta coragem, como sentou aqui?
– Pensei que fosse puta.
– Mas não tem grana, dá pra ver na cara.
– Iria mentir que sou um piloto de avião. Mas vamos ao que interessa. Esse bar já deu o que tinha. Que tal irmos lá em casa ouvir um som decente e beber um punhado? Se bobear, tem até sanduíches de frango na geladeira.
– Onde você mora?
– Vinte minutos a pé.
– Eu moro aqui do lado. Pode ser na minha casa?
– Tem cerveja lá?
– Tem umas três. Compramos mais umas aqui.
Ela se vestia muito bem, com um vestido verde limão, saltos altos, ficava quase da minha altura. Caminhamos por cinco minutos. Subimos uma escada estreita, que dava direto na porta.
– Por favor, não ligue pra bagunça
– Nem poderia – respondi.
Sentamos em um sofá marrom de três lugares, ela cruzou as pernas, bebia e fumava, eu abri as pernas e me escorrei no sofá, falando o mínimo.
– Então você realmente acha que tenho cara de puta? Perguntou e tragou o cigarro.
– Completamente. Todo seu jeito é de puta. Vai me dizer agora que é puta?
– Quanto você pagaria por mim hoje?
– Hoje nada. Mas se me pegasse ontem, uns R$ 18,00.
– Hahaha.
Cheguei mais perto dela, cheirei seus cabelos, seu pescoço, e subi cheirando, suas orelhas, suas bochechas, até que a beijei com certa violência. Aí não pude evitar o desapontamento inconsciente, mesmo alterado. Como uma mulher daquela idade, quase seus 30 anos não sabia movimentar os lábios o mínimo que fosse? Ela era boa demais de corpo, já devia ter beijado mais de quinhentos homens, e como não tinha adquirido qualquer habilidade? Segui na luta pra encontrar sua língua, em vão, não sei onde à escondia. Parei de beijar, encarei seus olhos e disse:
– Cadê sua língua?
– Tá aqui! Mostrou como se eu fosse o Zé gotinha
– Então porque não coloca ela dentro da minha boca?
– Eu coloco
Pensei que eu pudesse estar bêbado, e não sentisse nada. Tentei de novo, enfiando a minha língua tão fundo que temi a fazer vomitar. Um mulherão daqueles, mas com um beijo de peixe-espada. Já que o beijo não era o dos melhores, descartei qualquer preliminar e fui puxando suas roupas rapidamente. Isso ela fazia com maestria, em menos de quinze segundos estava pelada. Tirei minha roupa também, demorei uns dois minutos porque meu cinto enroscou numa almofada. Começamos no sofá mesmo, “Fode tua puta, vai”, “Vou te pagar a base de pepino no rabo”, “Fode tua puta, vai”. Depois de quatro minutos fomos até a cozinha, ela se pendurou na geladeira, coloquei-a de costas, pra evitar qualquer beijo. Acabamos gozando na cama e por lá ficamos um tempo. Ela quis trocar umas carícias, ficar abraçados.
– Eu te trouxe aqui, mas não queria dar pra ti.
– Queria o quê?
– Tomar umas, dar uns beijos apenas.
– E por que mudou de ideia?
– Nunca pensei que você beijasse tão bem, me fez querer.
– Que bom que quis.
Meu beijo não era nada daquilo que ela falava, era normal, para algumas mulheres até abaixo do esperado. O sexo poderia ter sido sofrível, eu suporto um sexo mequetrefe, até porque sou especialista em não satisfazer algumas mulheres, sem contar que o sexo pode ser melhorado com a insistência e prática das próximas vezes, já o beijo fica difícil, nunca melhora. Perdi um pouco da vontade de ficar, mas ficaria pela bunda.
– Ramon, me conte algo a mais sobre você
– Já viu o tamanho do meu amigo, o que precisa mais?
– Aaaaaa….pros homens tudo é pênis e vagina. Fique sabendo que as mulheres se interessam por tantas coisas mais, você nem imagina.
– Bem, nesse caso é conveniente que as mulheres conversem entre elas essas coisas, não?!
– Aaaa, me conte algo….
Seu telefone tocou, era perto das duas da madrugada.
– Alô…O que?….Onde está?…To indo aí, me espera!
Largou o aparelho.
– Vou ter que sair, minha prima me ligou chorando, tá desesperada em casa sozinha.
– O que houve?
– Não sei.
– Posso te esperar aqui?
– Não. Pode voltar amanhã?
Despedi-me com um selinho na testa, peguei uma garrafa na geladeira pra caminhada e agradeci a Deus por existirem mulheres que se contentam com pouca coisa. Prometi voltar no dia seguinte e foi o que fiz. Sabia que renovado nem ligaria pra beijo nenhum, desde que tivesse umas geladas e dois bicos de tetas disponíveis. Duas horas da tarde apareci lá.
– Pensei que não viria
– Tem outro aí?
– Não, não, pode entrar
Mais um beijinho na testa
– Trouxe umas cervejas, vou colocar gelar.
– Eu comprei umas e as que sobraram de ontem já estão geladas. Abre uma pra nós.
– Claro
Foi sentar no sofá.
Na noite anterior nem tinha reparado, sua casa era enorme. Não lembrava no que trabalhava, mas certamente havia me dito. Embora lembrasse de estar metendo nela apoiada no sanitário, se precisasse ir ao banheiro, teria que perguntar onde ficava.
A geladeira estava cheia de porcarias e restos de bolos, de presunto defumado e de queijo fatiado, algumas frutas, uns tomates congelados, cenouras grossas demais para salada, e uns potinhos embaçados, não dava pra distinguir o que eles escondiam. Um sanduíche até que cairia bem, mas peguei uma cerveja e fui para a sala sentar no sofá. No corredor tinha muitas portas, não entendia porque uma mulher sozinha precisava de tudo aquilo.
Ela não transparecia a idade que tinha, não naquele momento, aparentava uns 24. A maquiagem a deixava com uma cara mais velha. Enchi os copos e olhei pro seu decote prensado.
– Belas mamas – eu disse.
– Você apertou forte ontem, estão doendo.
– Não é sempre que consigo uns pra apertar, então aproveito os que aparecem.
– Eu não consigo ficar um mês sem sexo, fico maluca
– Eu sou como uma rematrícula de universidade, a cada seis meses. O que aconteceu com sua prima ontem?
– Nada não, só frescura. Vem aqui me dar um beijo
– Claro
Cheguei perto e dei-lhe um beijo murcho, pra combinar com o dela.
– Ontem você não me beijava assim Ramooon.
Ela lembrava meu nome. Eu só sabia que o dela começava com B ou D.
– Preciso ter bebido mais para beijar daquela forma. Vamos beber
– Me dá aquele beijo de ontem, que me fez pegar fogo e me dar inteira pra você
– A cerveja vai esquentar
– Me beija agora!
Larguei a cerveja e beijei com tanta força que a menstruação podia ter descido na hora.
– Ai que delicia.
Fiquei excitado com sua cara de puta. Tirei seus peitos pra fora e comecei chupar. Tirei o pau pelo zíper e mandei chupar. Abocanhou só a cabeça e ficou por ali quase imóvel, eu que tive de mexer sua cabeça pra baixo e pra cima. Sabia que da sua boca não podia esperar nada de mais. Sem língua pra mim, de qualquer forma.
Tirou a roupa, dessa vez em uns dez segundos cravados. Nem tirei nada, só abaixei as calças até os tornozelos e permaneci sentado.
– Quero sentar de costas, olhando pro espelho
– Senta então.
Seu traseiro aumentava consideravelmente de tamanho quando ela descia com as pernas afastadas.
Foi uma foda rápida, mas bem intensa. Com a bunda ela mandava bem, rebolava certinho. Nem tentei atrasar a porra, ela se contentava com pouco mesmo.
– Gostou Ramooon? Perguntou ainda comigo dentro
– É bom gozar
– Depois te faço gozar mais.
Lançou-se pelada no sofá. Ergui as calças, a cerveja havia esquentado, fui trocar por uma gelada e voltei.
– Ramon, seu beijo é o melhor que já provei
– Antes de mim beijava o que? Lâmpadas?
– É sério, você me deixa louca
– Olha só, meu beijo é normal, não tem nada de mais. Talvez seja os tamanhos de nossas bocas que combinem.
– Pode ser. Uma vez fiquei com um cara que beijava muito mal. Acabei dando pra ele, fiquei com pena. Me arrependi. Depois que ele gozou, me mandou embora da casa dele. Falei: “Nem precisa me mandar, teu pinto é mais frouxo que teu beijo”. Me chamou de vadia, na saída risquei o carro dele com minha chave, da porta até o pneu.
– Que violenta, ainda bem que deixei minha bicicleta em casa. Quer cerveja?
– Quero, mas antes um beijinho
– Preciso ir ao banheiro, já volto.
Sai andando procurando o banheiro. Era no final do corredor, última porta. Alguns chicletes chupados coloriam a pia, verdes, vermelhos e amarelos.
Voltei e ela tinha colocado a calcinha. Aquela visão me balançava.
– Cadê meu beijo?
Dei um beijo e sentei.
– E então, por que uma casa tão grande se mora sozinha?
– Eu gosto de espaço. De ter vários lugares para dormir. Às vezes eu me imagino em um castelo, como naqueles filmes, eu sou uma rainha, que só come e dorme.
Passei a garrafa em seus mamilos, ergui sua calcinha e dei uma lambida na pomba.
– Sinto lhe dizer, mas está fodendo com um bobo da corte.
– Tudo bem. Já fodi com príncipes pouco valentes. Tem vezes que sinto solidão, mas em um lugar menor também sentiria.
– Entendi.
Silêncio. Dei mais um gole.
– Faz tempo que mora aqui?
– Você fez essa pergunta três vezes ontem.
– Só confirmando.
– Aposto que nem meu nome lembra.
– Começa com B ou D.
– Você é fogo mesmo. Vou no banheiro.
Saiu rebolando, com a calcinha puxada mais para a nádega direita, coisa linda. Procurei alguma xícara com nome, ou um quadro, mas não achei.
Quando ela voltou, parecia mesmo uma rainha recém saída do trono.
– Que tal irmos pra cama? Sugeri
– Vamos
Fodemos pra valer dessa vez. Puxava seus cabelos loiros até o começo da bunda e galopava naquela égua.
– AI QUE PAU GOSTOSO, AI QUE PAU GOSTOSO.
E eu me sentindo o mais heroico dos reis, como se estivesse em um campo de batalha, duelando e ao mesmo tempo comendo minha égua guerreira. Quando gozei, pensei que tinha estourado algo por dentro do meu caralho.
– Me beija.
Dei-lhe um beijo totalmente satisfeito. Dormimos umas duas horas, só acordamos por conta do seu telefone.
– Alô – atendeu.
– Sim….Vou ficar em casa….Tá bom….Pode vir..
Desligou.
– Ramon, minha prima está vindo aqui, melhor você ir pra casa.
– Por quê?
– Não quero que ela te veja.
– Por quê?
– Porque temos assuntos sérios pra discutir.
– E a cerveja que sobrou?
– Pode levar se quiser.
Coloquei todas em uma sacola e fui saindo.
– Vem aqui se despedir.
Fui até ela, enfiei o dedo o mais fundo naquele rabo e soquei a língua num poço de nada.
Pensava: seria B de beijo ou D de desgosto?
Dois dias depois recebi uma ligação.
– Oi Ramon, tudo bem?
– Tudo e você?
– Tudo bem. Estou aqui em São Paulo, vim resolver uns problemas familiares. Vou aproveitar pra ficar com minha mãe um tempo. Voltarei daqui uns vinte dias, e a primeira coisa que quero fazer é te beijar por horas.
– Tudo bem então. Nos falamos.
– Ah. E meu nome é Bruna, seu perturbado dos infernos.
– Viu só, estava em dúvida se era com B de boneca ou D de delícia. Ainda chegaria lá.
– Hahaha. Tá bom. Beijos molhados. Me espera.
– Espero ansioso.

“Beijos humildes e um toque no reto”

Por favor Deus

Por favor Deus
Mate-a depois de mim
Carregue-a como um anjo, para dentro da sua fortaleza, onde apenas os justos caminham
Por favor Deus
Aprenda amar como ela
Castigue todos os homens do mundo como ela fez comigo
Os desacreditados necessitam reviver a eternidade
Por favor Deus, sente-se ao seu lado
Guarde sua alma
Onde as pessoas simplesmente boas não possam vê-la
E tatue nas costas seu nome
Pois a luta que lhe deu
Nem você venceria

Beijo grego

Começa um novo ano
E você pode estar deitado na areia da praia
Masturbando-se em um banheiro de pizzaria
Bêbado em uma cancha de bocha
Enfiando o dedo no rabo da modelo capa da Vogue
Sentado embaixo da ponte, chorando, rezando ou cortejando um sapo
Deitada ao lado do seu amor colegial, banal, conjugal, apoteótico
Chupando o pau do artilheiro da série C
Contando mentiras, vantagens, verdades, ou deleitando o vestido amarrotado da rainha do baile
Acenando para alguém que nunca viu
Suspensa nas costas do guarda-vidas transferido por méritos
Abraçando familiares enquanto peida loucamente
Começa um novo ano
E as promessas, e os desejos,  e a aflição, e a monotonia
E os gritos, os baratos, o sono, a realeza, a confirmação
Há algo que sempre nos relembra
Há algo que permeia todos nossos dias
Que dificilmente nos damos conta
Que nos define em passado, presente e futuro:
O gosto na boca
Ao acordar, ao dormir, ao cantar, ao silenciar
O gosto na boca que não muda
O gosto que sinto
Enquanto escrevo esse poema
Quando tiro os sapatos
Quando quebro um copo
Quando conto uma piada
Quando transo, bebo, fumo, corto as unhas
Quando por ocasião, revivo, repito, refaço
O gosto na boca é minha identidade
Preservado no gargarejo
De todo santo dia

Passado envelhecido ( XVIII )

“Ramon?”
“Só um minuto”
Quase sempre adivinho o valor, ou é R$ 418,00 ou R$ 420,00 ou R$ 425,00
Abri a gaveta de um guarda-roupa que não é meu
Como de costume peguei a caixa da fita cassete do filme “A vida de Brian”
Retirei R$ 430,00, ainda ficaram R$ 220,00 dentro, boa parte em cigarros
Fechei a caixinha, lembrei de uma passagem do filme
Mas não consigo mais rir. Fui até a porta, que também não é minha.
– Quanto? Perguntei.
– Ramon, deu R$ 435,00 esse mês.
– Como assim?
– Como assim o que?
– Nunca paguei tanto.
– Esse mês vai pagar.
– O que aumentou?
– Ramon, o aluguel é R$ 350,00, certo?
– Certo.
– Mais R$ 20,00 da internet, certo?
– Nunca funciona.
– R$ 28,00 da água.
– Sempre falta.
– R$ 37,00 da luz. Total de R$ 435,00. Aqui está o recibo, quer ver?
– Não. Aqui tem R$ 430,00. Vou pegar mais.
Saí andando, uma pia, uma mesa, dois bancos brancos
Um fogão branco imundo – minha culpa – uma geladeira
Nada na cozinha é meu, nada parece ser meu nesse lugar, o ar anda pesado
Minhas pernas, sim, minhas, às vezes tremem, balançam ao me levantar
É a pressão alta penso, a do sangue e a do planeta
A gravidade dos homens não deixa quase ninguém voar
Logo enterrará uma parte dos nossos pés e viveremos no mesmo lugar para sempre
– Aqui está, mais cinco reais, dá uma puta das boas – falei.
– Ô se dá – respondeu e saiu.
Tranquei a porta
A geladeira pode não ser minha, mas mantém gélidos uma garrafa plástica de vinho
Dois tomates, duas maçãs, três pepinos, um pacote de mortadela de péssima qualidade
Dois ovos que não chocarão nunca
Uma farinha branca que uso pra engrossar o caldo do feijão
Um pimentão cortado pela metade, dentes de alho que largaram da dentadura faz tempo,
O pacote de arroz de cinco quilos recém aberto e três bifes congelados
O banheiro está com um limo negro nas paredes
Parece uma obra de arte daquelas que ninguém entende, pincelada com água e preguiça
Meu quarto fede cigarro e meias molhadas
Fico sentado em um colchão no chão, o colchão também não é meu
Não me adapto mais a camas
Tenho uma de solteiro aqui ao lado, está com uma coberta sobre o estribo
E por cima dela em torno de quarenta livros esparramados
Um travesseiro, algumas roupas e uma sacola plástica
O vento mexe uma cortina dura pela janela
Ouço Frank, bebo vinho
Endureço a poeira

Homem sardinha

Saiu para comprar aftas e nunca mais voltou
É procurado pela polícia
Assassinos oferecem recompensa
Sua amante exige pensão pelos cães
Que sequer lamberam seus ossos
Nos postes sua foto parece enlatada
Cruzada com fios de luz
Nos postes recebe troféus e autógrafos
Vangloria-se com as rosas apimentadas
Petrificado e platinado
Como bosta de cobra
Homem sardinha
Saiu para comprar fiapos de manga e nunca mais voltou
Na última vez que o viram estava invisível
Com um tubarão nas costas
E um riso entre as pernas
Perdeu-se por prateleiras de algodão
Sem notícias o coral canta sua volta em Dó maior
Desafinados como quedas de abacate
Sobre um vidro blindado que quebra
Fora de Si sem Mi
Sol enluarado à noite
Ré caiu de cara
Fá enganou-se, era fé e foi
Lá perdeu o ônibus
Dó teve pena
Homem abacate
Saiu para comprar sardinha e nunca mais voltou
Pendurou-se em caroços vencidos
Chocou o mundo
E um ovo
Sabor peixe

Passado envelhecido ( XVII )

Há dois meses eu tinha terminado um relacionamento de brigas, injustiças, abstrato e basicamente resumido a sexo, bebida e fragmentos gentis, um treco estranho, lindo por vezes, mas que devia chegar ao fim, antes que eu ou ela morresse de fome, ou sufocados, um pelo outro, matutando nós mesmos, os esquisitos da praça de alimentação, que não sabem o que comer, mas sabem o que cagar. Depois da turbulência me isolei um tanto em casa, pensando demais no alcance e nas frequências das pequenas coisas limitadas. A ansiedade me revirava o estômago, precisava de algo, um problema qualquer sem solução. Variava em ideias e tempo perdido. Naquele dia recebi uma ligação das boas.
– Alo – atendi.
– E aí seu verme!
– Verme é o que tem na bunda.
– Não vai desligar na minha cara de novo!
– Quem é? Perguntei.
– É o Peter! O que está fazendo?
– Nada e você?
– Te ligando. Lembra-se de mim hoje? Semana passada te liguei e você disse que não conhecia nenhum Peter, e depois não atendeu mais o telefone.
– Claro que eu sei quem é você. Naquele dia estava ocupado. Azucrinou-me com as ligações né, seu doente.
– Foi mal cara, precisava de um favor.
O Peter eu considerava um monte, era do tipo religioso devoto, sua vida tinha mudado muito depois da entrega, já tinha me convidado algumas vezes pra ir até sua igreja, mas sempre neguei, claro, mesmo sempre acreditando em algum tipo de Deus, eu não estava botando muita fé nele, em Deus. Embora preso em toda sua filosofia divina, Peter ainda andava papando uma mulher casada, disse-me que alguns mandamentos divinos não podiam ser levados totalmente a sério, principalmente esse, da cobiça e da luxúria, da coceirinha pra traçar a mulher do próximo. Pecador ou não, aproveitava, o poderoso aparentemente nem ligava, continuava enchendo-o de indulgência, volúpia e amor próprio.
– O que você quer? Indaguei ao telefone.
– Quero te levar pra igreja hoje!
– Enlouqueceu?
– Porra cara, se permita hoje, quem sabe consiga alguma mulher depois da missa.
– Quer me levar pra igreja trepar? Eu posso trepar a qualquer hora seu pederasta preocupado. Vai pro inferno!
Na verdade as coisas estavam mesmo difíceis. Depois da relação suicida, tinha achado uma branquinha de cabelos verdes, baixinha, olhos claros, que transparecia a tradicional violência juvenil. Valquíria seu nome, fomos beber e fumar sua erva num lugar barulhento. Uma espécie de festival mal organizado rolava por lá, com bandas também desorganizadas. Não tínhamos nada de íntimo, mal falávamos, ela pro seu lado, eu pro meu, nada melhor pensei.  Depois a trouxe pra casa, sem muita dificuldade, seu sexo devia ferver, eu nunca soube. Deitamos na cama e fui chupar seu veneno. Buceta pequena, depilada, cheirinho de coisa nova, como abrir um vinho dos bons, odor de vitória. Gozou com minha língua dura de trago entre suas pernas, e com meu dedão enterrado no seu cuzinho apertado, um cu de fato, protegido e firme. Na minha vez de gozar, meu pequeno pau blasé cochilava prazerosamente, nem ligava pra coisa gozada e aberta, como os portões de um castelo invadido por uma tropa romana de saliva, bem em frente. Meu estado de embriaguez mórbido acabara me punindo, mas não era hora de desistir. “Me chupa tarada” falei, “Eu não” respondeu. “Estou em apuros Valquíria, faça algo logo”. Deitada de costas pra cima já, começou procurar meu pau sem olhar, tive que coloca-lo em sua mão. Puxava meu couro como se fosse queimada a cada vez, friamente, bruscamente, nada incentivador. “Devagar merda!” gritei, com certa dor já. Deu mais umas puxadas, aí arranquei-lhe o pau da sua mão, deitei e dormi. Acordei de pau duro, ela já tinha ido embora, pra sempre, como o sarampo. Depois de mais uma semana sem sair de casa, uma outra mulher me ligou. Recém mudada pra cá, queria chupar uma pica com outro clima. Fui escolhido. Clara provinha de Porto Alegre, a conheci na rodoviária. Seus cabelos eram coisa nova pela cidade, destrambelhados e encaracolados, difícil de se ver por aí, quase todas as mulheres daqui ocupam-se com seus cabelos, mais do que com seus maridos ou qualquer outra coisa. Seu corpo era dos bons, não posso dizer que era feia, muito menos bonita, um meio termo médio. Ao contrário de Valquíria, nosso clima foi amigável nesse contato de conhecimentos. Fluía um flerte na casa, mas de fato, não tinha certeza que queria me dar. Deixei-a ir ao banheiro para atacar na saída da porta, depois de uma secada tudo estaria equilibrado, recomposto, a sensação de novo, ela não teria tempo pra negar minha investida. Agarrei-a pela bunda e dei-lhe um beijo dolorido até os dentes. Sufoquei, um clinch de boxe, sua respiração trafegava por todo corpo, suspirava, podia senti-la dentro dos meus pulmões. Apertei suas nádegas, uma contra a outra, trancadas num estado de ópio, não podiam fugir, nem queriam. “Vou te foder nas nádegas”, sussurrei, “Hoje não” ela respondeu. Fomos nos beijando até a cama, seu cabelo era dos grandes, espantados, assustados, tirei suas tetas pra fora, tinha um piercing no mamilo esquerdo, lambi pra enferrujar. Siririquei aquela buceta magistralmente, mas ela, como todas as mulheres, não sabia nada de punheta. Se aquela coisa de preliminares sempre foi importante, eu já não sabia, porque ela gemeu alto e chegou ao orgasmo em poucos minutos, no máximo dois. “Olha o que faz comigo”, ela disse. “Quero ver o que você faz comigo”, respondi. Enquanto me chupava, com a bunda bem perto da minha cara, desvencilhei meu tabaco da sua boca, agarrei-a com toda força pra joga-la em cima de mim. “Você não vai me comer hoje!”, “Vou sim!” respondi, “Não vai não, se quiser gozar, vai ter que ser na minha boca”. Lá estava eu, novamente em problemas e suicídios. Há um tempinho atrás fodia todo dia, e agora, a cada tentativa, novos obstáculos, mas o que eu sabia das mulheres? Sei tanto quanto sei da Arábia Saudita. Todas com novas barganhas, e sou péssimo negociador. Eu era o problema, pensei, nunca mais iria transar, porque eu era o infinito palerma sem emoções. Tentei jogar suas pernas novamente, como uma bola de basquete pra cima do meu propósito. Ela me empurrou com uma força medonha, minha cabeça afundou no travesseiro. Agarrou meu pau e lambia só com a ponta da língua. “Goza na minha boca logo!”, “Sua trapaceira dos infernos, chupa essa merda”. Com tudo terminado naquela boca gaúcha, toda minha vontade se resumia em ela ir embora, e foi o que fez, ela sumiu pra sempre, como um feto abortado. Falhei nos colhões e na paciência com essas cordeiras assustadas.
Voltando ao telefonema.
– Calma cara – o Peter respondeu – não é nada disso, mas estou preocupado com teu espírito, tá degradado, você não fala quase nada, vamos consertar isso na missa de hoje.
Se tinha uma coisa que eu pensava da igreja, era que não conseguiria ouvir um padre apoiado em suas crenças salvadoras, sempre baseado em passagens milagrosas, como se pudéssemos transportar as maravilhas do “ser supremo” para a atualidade. Delírios. E tem outra coisa, se Deus desse tanto valor pra sua palavra, não teria deixado o homem escrever, porque o homem distorce e parabeniza. Minhas lembranças de ir até a igreja eram distantes, antigas, de catedral lotada. Era sempre um silencio lá dentro, só alguns burburinhos, pessoas se olhando, querendo demonstrar mais fé que as outras. Gostava de observar a hora da hóstia. Uma fila enorme, um cântico alto, o padre no centro, distribuindo moedas de pão. Já tinha ouvido que ninguém podia mordê-la. Eu nem era crismado ainda, portanto não podia saciar o cofre do estômago, salvo algumas vezes que distribuíam pãezinhos benzidos. Minha mãe sempre foi devota, ajoelhava ao meu lado e fechava os olhos. As vezes eu imitava, ficava de joelhos e imaginava o que eu tinha que dizer naquela hora. Eu só pensava em perder o cabaço, mas não parecia justo pedir a Deus conseguir transar, ele já tinha me dado um pau, uma boca e um bilhão de mulheres comíveis no mundo.
– Está bem Peter. Vou à igreja com você.
Poderia ser um problema, e era o que eu precisava.
– Tá bem Ramon, passo aí as quatro te pegar.
– Beleza Peter, beleza.
Tentei lembrar algumas orações ao desligar o telefone, fiquei eufórico. Seria o mais enlouquecido lá dentro, rezaria como um fiel, eles teriam inveja da minha fé, eu, um barbudo ermitão, dando lições ao padre sobre crença. Aleluia! Aleluia! Sou um fanático, um possuído, dai-me forças senhor, e eu acabo com eles. Vamos cantar putedo! As virgens comigo na primeira voz! E os leprosos da angustia na segunda! Cordeiras, rameiras, eu lhes prometo o suor eterno! Mandai hóstias padre! Mandai o vinho padre! O sangue de Cristo embebeda! Literalmente! Em doses altas afaga, e até dá uns privilégios submersos na inquietação banal de nossas vidas papelistas e carbônicas!!
Como pretendia estar embriagado por outros meios, eu nada tinha a temer.Abri uma garrafa de vinho, era 13:00. Permaneci sentado, estático, tal qual uma barata envenenada, ou um boi morto, ou um ser humano morto, centrifugando meu mundo parado, como uma massa de modelar humana, moldada sem ambição.
O telefone tocou novamente, era Patrícia e sua voz corrosiva.
– E aí rabugento.
– Fala chupeta, beleza? Perguntei.
– Beleza. Vai fazer o que hoje?
– Vou à missa, e você?
– Na missa? Fazer o que na missa?
– Sei lá. Comprar uma bicicleta.
– Aposto que foi o Peter que te convenceu!
– Sim, foi ele.
– Ah! Ele é um homem bom, devia andar mais com ele. Por que ele nunca me chama pra ir com ele?
– Não sei
– Eu sei onde é a igreja dele. É aqui perto da minha casa. Acho que vou dar uma passada lá então depois. Que horas é a missa?
– As quatro ele vai passar aqui.
– Tá bem, te ligo.
– Certo
A Patrícia mantinha contato comigo apenas porque era louquinha pelo Peter, mas ele, por algum motivo não via nada de interessante nela. Em certa ocasião já tinha me dito que fora estuprada com nove anos, por dois caras. Eu, como um blasé sórdido que sou na maior parte do tempo, não senti nada ao ouvi-la, tampouco suas palavras demonstraram tristeza, acho que ela se agarrava àquilo, ao podre, afinal, podia acreditar que nada de pior pudesse acontecer em sua vida, era uma garantia, o estupro.
Voltei pro vinho, o sangue fermentado, queria ficar quente, salpicar um tremendo reboco de fantasias de uma vida melhor. Deus me apoiaria. Sairia da igreja renovado, faria uma suruba com nove mulheres, perderia meus medos, o símbolo seria revelado só para mim, flutuaria por entre as estátuas dos santos, que rezam na mesma posição há milênios, com seus cajados e ovelhas bem pintados, Santo Antônio não iria me casar, nem São Brás me afogar. Nada, nada, nada, só mais um gole, por favor.
Terminei a garrafa, dava tempo pra mais umas latas de cerveja. Pensava em como o Peter estava se preparando pra missa. E a Patrícia? Casaria com aquele religioso se pudesse. Eu bem que queria algo com ela, mas já me tirara as esperanças.
As quatro horas eu já soltava um fedor de álcool pelas narinas, e a fumaça dos cigarros tinha colado pela roupa, mas tudo bem, eu não comia a mulher de ninguém nesse tempo, não roubava, não matava, ligava pra minha mãe uma vez por semana, ela sempre atendia dizendo “Tá vivo?”, e eu respondia “Infelizmente”, e ela suspirava comovida, guardava os domingos e toda a semana pra mim, enfim, minha cruz era de papel rabiscado com o jogo dos velhos preparados pra morte.
Ouvi uma buzina, abri a porta, o carro estava lá, me esperando, um Fiesta acabado, era ele.
– TÔ INDO! Gritei sabendo que ele não me ouviria.
Minhas pernas estavam fortes, queriam andar. Fechei a porta da casa e desci as escadas, entrei no carro.
– Há quanto tempo! Ele disse, vestido com seu sorriso bondoso.
Estendi a mão, cumprimentei-o, meu cheiro anunciava o descontrole.
– Tá indo pra igreja bêbado?
– Sim – respondi.
– Isso é pecado!
– Quem disse?
– Meu Deus, só fique quieto lá dentro.
– Vamos logo, antes que eu esqueça algum mandamento e te mate.
Partimos, ele me perguntava coisas que eu não queria responder, então também fui na ferida.
– Escuta aqui Peter, adivinha quem me ligou hoje perguntando sobre você?
– Quem?
– A Patrícia
– Ah…
Trocou a marcha com desdém.
– O que ela tem de inaceitável pra você? Continuei.
Mais marcha, mais velocidade, mas nada incrível.
– Nada cara, só não sinto vontade por ela.
– Porra, mas ela é louca por você. Só come pra deixa-la feliz.
– Eu não sou desse tipo. Eu tenho que gostar das mulheres pra meter. Ela não me atrai.
Paramos no sinal, um vômito subiu junto com um refluxo gástrico. Consegui segurar.
– Você é um bom homem Peter – conclui o assunto.
Ele tinha seus princípios.
Seguimos até a igreja sem falar nada, acho que eu o aborreci. Pudera, a Patrícia era morena por todo lado, um marrom bico de teta por todo corpo, pernas, braços, cabeça, foi o máximo que consegui ver, seu cabelo era curto, sua cintura precipitava uma bundinha exata pro seu tamanho, as pernas compridas, eu criaria meus próprios princípios por ela.
– Chegamos – ele disse. E estacionou do outro lado da rua de onde ficava a catedral. – Fecha o vidro!
Girei a manivela dura. Que carro fodido. Ele trancou sua porta, olhou até a ponta superior da igreja, eu também, pescoços dobrados pra cima, parecia não ter fim.
– O que achou da igreja? Perguntou
– Alta – respondi.
– Tem que ver lá dentro. Esses caras que constroem são artistas. Vamos entrar que já deve estar começando.
Atravessamos a rua, uns outros perdidos estavam na escada de entrada, tentando achar o fim da igreja também. Passamos por eles, um som acolhedor já se escutava. Peter fez o sinal da cruz ao passar pela porta, fiz também. Por dentro parecia mais alta do que de fora. O teto era sublime, com grandes vidros coloridos, intercalando as cores amarelo e roxo. As estátuas estavam lá, presas, obrigadas a terem fé, alimentadas por almas tão paradas quanto elas. Tinha Jesus neném, Jesus adulto, Jesus pregado. Na face de uns pude notar uma inveja de Jesus, queriam ser ele, queriam fazer milagres, não suportavam a ideia de que não foram os escolhidos, por isso rezavam, tomariam o lugar dele se conseguissem, levariam pregos até no rabo pela imortalidade. Toda minha euforia desapareceu. Aqueles cães sarnentos sacudindo o rabinho. Minha crença, em qualquer coisa, não valia a pena compartilhar.
Sentamos em um banco, bem perto da porta. O altar estava lívido, não dava pra negar que era um ambiente de paz. Queria fugir, bastava. Eles padeciam em suas fés, não eram mais deles. A religião tinha capturado suas essências, eles poderiam sair da igreja e matar por um cacho de bananas. O cálice no altar não era novo, o sino não era novo, os próprios bancos que sustentavam bundas famintas não eram, nada era, tudo coisa velha, tudo me dava nojo. Por sorte meu telefone tocou quando cantavam e recebiam o padre.
– Vou atender o telefone – falei pro Peter.
– Por que não desligou isso aí?
– Pode ser Maria Madalena. Já volto.
Fez uma cara de desaprovação. Cão sarnento. Saí pra fora, era a Patrícia.
– Tá na igreja? Perguntou
– Estou caindo fora já. Onde está?
– Aqui na escadaria do prédio onde moro. Não vou aí. O Peter não quer me ver.
– Como eu chego aí?
Explicou-me, mas tive que ligar umas duas vezes pedindo informação das esquinas pra chegar lá. Quando cheguei, sua cara não era nada boa, ela deve ter pensado o mesmo da minha. Dei-lhe um beijo na bochecha, sentei ao seu lado nas escadas. Queria estuprá-la.
– Por que o Peter não me quer? Indagou.
– Não sei. Mas eu te quero.
– Mas você eu não quero.
– Então se foda.
– É por isso que não te quero.
Tentei lhe dar um beijo, só queria sentir o sabor dos seus lábios adubados com a dor, mas ela se protegeu com seus braços longos e iniciou uma gritaria: “Para com isso nojento! Eu vou te bater! Sai! Sai!”. Desisti depois que ela conseguiu se erguer e afastar-se, como se eu fosse um vírus mortal.
– Sabe de uma coisa – falei – o Peter não te quer porque ele tem princípios, coisa que não tenho. Sabe quem mais tem princípios? Os estupradores!
Em poucas horas já consegui algumas sensações. O vento mudou de cor, o barulho da cidade inteira se encolheu entre nós dois. Não sentia remorso de ter falado aquilo, afinal, eu não tinha dito “bons princípios”. Ela colocou as duas mãos no rosto, que nada mais tinha de marrom bico de teta. Fiquei olhando. Passou as mãos delicadamente por seus cabelos sedosos e sentou-se ao meu lado, bem próxima, começando um beijo louco e doce, doce, doce. Era meu milagre, essa era a fórmula, cinco minutos de missa pra conseguir uma mulher. Me sugava, me arrancava todas as forças pela boca, um beijo na lua, fadado ao apocalipse. O doce foi ficando salgado, e mais salgado, ela chorava, as lágrimas de sal grosso entrelaçavam nossas línguas. Puro ódio, fiquei desconfortável ao perceber. Tirou seus lábios dos meus, olhou-me como se eu fosse o assassino do seu pai, da sua mãe, da sua infância, dos seus sonhos desequilibrados. Cuspiu-me na cara.
– Porca! Resmunguei secando o rosto. Volumoso e espeço, um cuspe profissional.
Ela ria, lacrimejava e passava a manga da blusa em alguns pontos encharcados.
– O Peter que se foda com seus princípios. O mundo que se foda com seus princípios! Disse como uma forma de sustentação.
– Certo Patrícia, agora já sei que beija mal. Vou indo.
– HAHAHA. Meu beijo te deixou de pau duro até agora. HAHAHA.
Ri com ela. Ainda queria estuprá-la.
– Tchau meu bem!
– Tchau profeta.
Levantei-me e fui à caça de um ônibus pra casa. Aquele quadrado de tijolos voltaria a ser meu mundo limitado, nele, as coisas eram tristemente afáveis.

Um último suicídio

O último banho, o último gole de café, o penúltimo cigarro, a última meia, o último ódio. Tudo dentro do liquidificador atormentado. Quanto mais caminhava, mais engolia ideias. Os latidos, as conversas, automóveis, aviões, alarmes, todos falando a mesma língua envenenada. Seu pedido era morrer, e seu desejo era matar. Fácil, um quebra-cabeça de duas peças. Tinha um lugar escolhido para o último cigarro. Era uma escada repartida por um corrimão, com degraus exaustos de aguentar calcanhares, mas com uma bela visão do inferno. A escada terminava no começo de uma rua morro abaixo, tendo um poste que selava essa união. A luz do poste piscava, estava entrando em curto, pronta para apagar, e apagou. Na escuridão, o vagalume de nicotina dava o tom, e a cortina de fumaça escondia os olhos dele das pessoas que subiam a escada. Passavam todos pelo outro lado do corrimão, e mesmo assim, ainda tragavam aquela fumaça com cheiro de morte atrasada. Ele ria, afinal não morreria de câncer. O cigarro virou cinza e filtro, sendo jogado na grama que crescia ao lado da escada. Pensou ele, que algum cachorro ainda mijaria naquele que foi sua última companhia e riu novamente. Sentia-se vazio, mesmo com o tanque cheio. Chegava o momento, justamente como havia imaginado. Era perfeito como um pesadelo. Estava realizado, seu último suicídio foi um sucesso, e sua última companhia não fora jamais mijada, apenas lambida.

Outra escada. Essa com degraus mais limpos e menos surrados, afinal, era um lugar sagrado. Uma santa, recheada de luzes e rodeada de vidros, com as velas acesas e apagadas pelo lado de fora, tornando aquela visão linda, de uma estátua intacta. Ele estava longe do santuário, preferiu sentar no primeiro degrau da escada que da acesso ao recinto de orações. Naquela hora, só ele mesmo estaria lá, eram 22:00 horas. Um cigarro, uma cerveja e uma cabeça latejante, por dentro e por fora. As casas que ficavam ali perto, brilhavam muito menos que a santa. Eram casas isoladas, flageladas. Alguns cães caminhavam pela redondeza, perdidos como ele, mas nenhum chegou perto. Provavelmente seu cigarro espantava-os, mas tudo bem, assim os pernilongos também iam embora. Se perguntava se mijar em um lugar sagrado era pecado. Se fosse, os cães iriam para o inferno com ele. Naquele momento, ele considerava os cães mais racionais e higiênicos. Depois de mijar, sentou no mesmo lugar e de costas para a santa começou a rezar. Alguns latidos o incomodavam, mas tentava se manter. Sabe aqueles momentos em que se pensa que morrer é a melhor herança? Percebeu que sua reza era falsa, não adiantava insistir, seus pedidos não eram fiéis. Os cães eram, e rezavam melhor que ele. Não importa pelo que rezavam, por ossos ou simpatia, já não importava pelo que ele tentava rezar. O vento o empurrou para dentro do carro, e com um latido despediu-se.

 

Contrapartida

O chacoalhar
Cantos
Vento, vento
Som dos gatos rolando
Nas telhas soltas
Em brigas noturnas
Uivos
Jovens de bigode
Leões de bolso
Cantos, uivos
Tenho cintos e discos
Posso abrir meu guarda-roupa agora
E encontrar três gerações de baratas
Sou um coito coitado
Um tipo ejaculado na boca do jacaré
Soluços e coceira
Prisões fazem homens chorar
A bebida também
E os crocodilos choram com água na boca
E as mulheres porque soluçam e se coçam
Mais que um bêbado na feira de pulgas
Todos riem, riem, riem
Riem do pobre doido das calças curtas
Que aqui e acolá, transborda em instantes viúvos
Quando a poeira vortex gruda em seu corpo úmido
Imagina o deserto repleto de criaturinhas deficientes
Feitas de suspiro
Aquela mancha pastosa transforma-se em tempestade
Todos riem, riem, riem
Famigerado pela fome alheia, ele suspeita
Trata piedade como troco pra cachorro
E dança tango de chinelo

Aquele filho afogou-se, em uma pegada de gato, em um dia de chuva

Acreditei nas flores da primavera
Que estendidas dificultavam meu andar
Temi as aranhas das plantas verdes
E das quinas das paredes
Que assustadas corriam ao meu lado
Desconsiderei as pedras cortantes
Estáticas em qualquer estação
E desse jeito plantei suas cicatrizes
Em meus pés desajeitados
O abacateiro quebrou o braço de minha mãe
Um tombo provisório
Sobre a casa de Bob, o cachorro
Que em dias ruins como aquele
Desatava a latir
Desafiei os subornos dos garrafões vazios
Terminei em terceiro lugar
Só porque, infelizmente
As girafas não nasciam em fornos
Atravessei, depois de um tempo
Uma nuvem pubiana de olhos castanhos
Singular, úmida e rigorosa
Ela até hoje me deve esperança
Desajeitado então
Instituí a derrota como vingança
Maltratei as colinas albinas
E tornei-me homem com uma puta incapaz de gozar
Ando dopado
Com soro fisiológico nas narinas
É isso aí, acertando meu adeus
Um adeus tão ensaiado e teatral
Mereço as palmas com uma mão só
Não duvidem
Vejo constantemente
Espelhos furados através da fumaça pueril
Imbróglios sorrateiros, guerra em perigo
Onde estarão os estornos?
Atrás do espelho?
Na frente?
Ou afiando a faca aqui ao lado?
Em um tesouro de gás
Fazem falta
A cor que crucifica em X
O beijo que acalma a lama
Os sintomas perpetuam incrédulos
Devagar, devagar, devagar
Corpo inóspito no lar dos anjos
Logrando fadigas
Mendigando suicídio
Estafa sexualmente transmissível em uma orgia de lobos
Um resultado de exame
Assinado

Passado envelhecido ( XVI )

Josie atendeu o telefone como sempre:
– Clínica Doutor Alfredo Astolfo dos Santos, bom dia.
– Quero falar com a Josie.
– Senhora Josie. Sou eu.
– Como queira. Sua mãe morreu.
– Quem fala?
– Me chamo Amarildo e matei sua mãe.
– Como é??
– Me chamo Amarildo e matei sua mãe
– Matou por quê?
– Não sei. Segui-a até em casa, comi sua bunda e a matei.
Amarildo desligou o telefone. Josie ligou para a casa de sua mãe.
– Alô – Amarildo atendeu.
– Quem é você? Josie pergunta.
– Me chamo Amarildo e matei sua mãe. Comi sua bunda, não sei por que fiz isso.
Josie desligou o telefone e ligou para a polícia.
– Bom dia – disse o Doutor Alfredo entrando no consultório.
– Mataram minha mãe! Mataram minha mãe! Gritava Josie ao telefone.
– Como assim Josie? Perguntava Alfredo.
– Mataram minha mãe! Mataram minha mãe! Gritou Josie para Alfredo.
Doutor Alfredo não disse mais nada enquanto Josie explicava a situação para a polícia. Largou sua maleta em uma cadeira e sentou em outra. Josie desligou o telefone e começou chorar, batendo a cabeça na mesa.
– O que aconteceu Josie? Quem matou sua mãe?
– Um tal de Amarildo. Preciso de folga hoje Doutor Alfredo. Estou saindo.
– Certamente Josie.
Josie correu por duas quadras até chegar em casa. Tinha um marido desempregado e queria que ele fosse junto até o local do homicídio. Abriu a porta em prantos, mas não conseguia falar, nem gritar. Ao fechar a porta da casa com dois meses de aluguel atrasados percebeu uma par de tamancos jogados bem perto da geladeira. Não eram seus, mas sabia de quem era. Sua vizinha só usava aquele. Caminhou em passos lentos até conseguir ouvir os sons do quarto. O desempregado estava trabalhando às 9:00, suando o pobrezinho. Josie sentiu náuseas e vertigens. Decidiu beber água. Abriu a geladeira com três prestações atrasadas e viu meia dúzia de latas em uma sacolinha, era cerveja. Pegou uma e sentou-se na mesa. Sua vizinha gemia alto, coisa que não compreendia, sabia o potencial de seu marido desempregado. Bebeu a lata, foi até o telefone e ligou para a casa de sua mãe.
– Alô – alguém atendeu.
– Quem fala? Josie perguntou, falando baixo, para não atrapalhar o amor.
– Aqui é o policial Fernando. Quer falar com quem?
– Com o Amarildo. Ele está?
– Senhora…..
– Senhorita.
– Qual seu nome senhorita?
– Josie.
– Foi você quem ligou para a polícia?
– Fui eu.
– Bom, senhorita Josie. Averiguamos a casa onde supostamente houve um homicídio e não encontramos nada.
– Minha mãe está aí?
– Não encontramos ninguém no local. Tivemos que arrombar a porta.
– Me desculpe policial, não estou entendendo. Um tal de Amarildo ligou-me no trabalho dizendo coisas e eu acreditei.
– Tem ideia de onde esteja sua mãe?
– Não.
– Daremos mais uma olhada no local.
Josie calçou os tamancos da vizinha e saiu procurar sua mãe, para depois encontrar Amarildo.