Passado envelhecido ( XV )

– Trouxe os documentos Renan?
– O que precisa?
– RG e CPF.
– Tenho aqui.
– Vamos entrar aqui em casa pra anotar. Amanhã já tenho o contrato pronto, aí se você puder passar aqui assinar…
– Sem problemas.
Sentamos em uma mesinha logo na sala, um em cada lado, sua mulher não estava por ali. Estendi meus documentos e fiquei observando pra ver sua reação. Renan ou Ramon? Ele ficaria perdidinho. Sua casa era bem cuidada, tudo branco também por dentro, algo me dizia que qualquer coisa do Alberto seria branca pra sempre. Algumas coisas simplesmente entram na cabeça e nunca saem, isso poderia ter acontecido com ele, e pra alguém casar com aquilo, certamente sua cabeça tinha um desvio desnaturado e apático, portanto, o branco na sua vida equilibrava a tragédia. Sua mulher sabia meu nome corretamente, eles não conversavam? Nem sequer algo do tipo “Esse Renan me pareceu gente fina”, “Que Renan? O nome dele é Ramon! E tem cara de que vende loteria”. Logo seus olhos pareciam não acreditar no que viam. Aproximou minha carteira de identidade dos olhos, me olhou e disse:
– Meu Deus Renan, tu já foi mais feio hahaha.
Que filho da puta! Pensei.
– E você certamente já foi mais bonito Alberto.
– Hahaha – ele ria. Mais bonito não, só mais magro. Depois que casei deslanchei.
– Dureza casar.
– Chegou a ver minha mulher né?! Hoje ela é um demônio, mas quando casei era quase uma princesa, cheinha, mas nem tanto. Tinha uma das melhores bundas do bairro. O casamento acabou com nós.
– Não achei ela tão feia assim.
Se concentrou no papel, na caneta e no meu documento. Ele estava mentindo, aquela mulher jamais tinha sido algo bom. Mas um homem sempre precisa justificar a mulher que tem. Foi aí que ele percebeu que algo de errado acontecia entre nós.
– Qual seu nome? Perguntou.
– Ramon Carlos.
– E por que me deixou te chamando de Renan, Ramon?
– Não sei Alberto, as coisas simplesmente aconteceram.
– Hahahahaha essa foi boa. Hahahaha…você é um bobalhão Renan!
– Ramon.
– Hahahaha, isso mesmo, Ramon, hahaha.
Continuou rindo baixo enquanto anotava meus dados e sussurrava “Ramon, essa foi boa, muito boa”. Após anotar o que tinha para anotar me devolveu os documentos e pediu pra passar assinar o contrato no dia seguinte.
Entrei pelo portão branco da casa, uma mulher vinha de bicicleta pelo trilho da frente numa velocidade enorme. Uma mulher de pele escura reluzente. Com o cabelo duro pra cima, nem o vento nem a chuva eram páreos pra ele. Não conseguia entender o porque de ela vir tão rápido, se eu não tivesse aberto o portão o que ela faria? Só escutei um “Sai, sai”, saí da frente e vi a bicicleta saindo portão a fora. Dei uma olhada, e era uma bela bunda apressada em cima do banco.
Tinha que ir ao mercado. Fiz uma lista do que comprar, achei exagerada e ao mesmo tempo singela: uma cabeça de repolho, três bifes, três garrafas de vinho, cinco cervejas, umas bolachas, duas batatas, dois pepinos, três maçãs, um sabonete, um xampu, uma escova de dente, uma pasta dental, um pacote de sal, vinagre e azeite. Chegando lá, peguei uma cestinha vermelha e comecei perambular pelo labirinto sem pressa. Pouco conhecia dele, as atendentes da padaria, os açougueiros, os que completavam o estoque, os caixas nada sabiam sobre mim. Pela primeira vez em dias, eu não tinha pressa, poderia andar por horas pelas prateleiras, comparar preços, ouvir a canção que rolava nos alto-falantes, recolher alguns produtos do chão, encaixá-los em seus lugares, talvez até ler as instruções dos inseticidas.
Cheguei ao caixa com todas as compras da lista, e mais uma lâmina de barbear e uma sopa de pacote.
– Boa noite senhor – ela disse.
– Boa noite.
– Tem o “Cartão Fidelidade”?
– Não.
– Vai pagar em dinheiro?
– Não. Vale-alimentação.
– Ok.
Começou passar os produtos e pesar o que precisava. Cada barulho da máquina me doía, o valor ia crescendo e não lembrava quanto ainda tinha no vale, nem que dia era, havia me esquecido de pegar os comprovantes das últimas compras. Mas tinha quase certeza que era em torno de R$ 60,00.
– Quer fazer o “Cartão Fidelidade” senhor? Perguntou-me enquanto passava os últimos produtos.
– Não – respondi.
PIP PIP…PIP PIP
– R$ 62,58 senhor. É vale-alimentação né?!
– É
Apertou umas teclas do seu teclado.
– Pode passar o cartão.
Passei, na tela dela apareceu: “Erro na leitura do cartão”.
– Passa de novo senhor.
“Erro na leitura do cartão”
– Tenta de novo senhor.
“Erro na leitura do cartão”
– Deixa eu tentar – ela disse.
Entreguei-lhe o cartão.
PIP PIP
– Agora deu – e ainda me deu um sorriso me colocando como o maior incompetente da terra.
– Maravilha – respondi.
– Pode digitar a senha senhor.
Digitei.
– O senhor não tem saldo suficiente pra essa compra.
– Aé?! Quanto eu tenho?
– Olha na telinha da máquina.
R$ 3,55 apareceu. Permaneci quieto olhando pra máquina.
– Qual valor apareceu senhor? Está conseguindo ver aí?
– Sim, sim. Só estou pensando o que vou levar e o que vou deixar com esse valor.
– Qual o valor que o senhor tem disponível?
– Relaxa aí, estou pensando.
– O senhor pode usar todo o valor do cartão e pagar o resto com dinheiro.
Na carteira não tinha nada. Deixei R$ 20,00 em casa pra comprar cigarros pros próximos dias, afinal, eu tinha o vale! Por que diabos não pedi o comprovante pra ver meu saldo na hora que comprei meu almoço do dia? Não sei.
– Que dia é hoje? Perguntei.
– Segunda – feira, dia 30.
– Quer saber, amanhã meu vale-alimentação recarrega – e recarregava mesmo – estou sem dinheiro aqui pra completar a compra, então da uma olhada pra mim quanto da no total esse pacote de sal com o repolho.
Calculou mentalmente olhando pra tela. Eu preferia nem olhar.
– R$ 2,29 senhor.
– Humm. E se eu levasse mais as maçãs?
– R$ 4,09 senhor.
– E se fossem só duas maçãs?
– Preciso pesar novamente então.
– Por favor.
– Mas qual o valor que o senhor pode gastar?
– Incontáveis R$ 3,55.
– R$ 13,55?
Parecíamos um casal de velhos querendo transar com roupas.
– Isso, R$ 13,55 eu tenho – respondi.
– Mas então o senhor pode levar todas as maçãs e mais algumas coisas.
– Mas agora só quero levar duas maçãs, o sal e o repolho.
– Tudo bem.
Chamou quem aparentemente era seu superior pra cancelar a venda, de vermelho também, pra novamente passar o que meu cartão aguentava. Esse tinha um cabelo que furaria uma bola de boliche. Fiquei olhando pra ambos, e nenhum gostava do novo morador do bairro. Mas no outro dia iria voltar e gastar R$ 100,00 reais, quem sabe até mais numa compra. Antes dela pesar as maçãs, escolhi as duas menores pra garantir.
PIP…PIP…PIP
– R$ 3,49 senhor, pode passar o cartão.
– Certo – falei –. Baratas as coisas aqui nesse mercado. Voltarei em breve, provavelmente amanhã.
Digitei a senha no aparelhinho que comprovou meus créditos no mercado. Peguei a sacola e fui saindo.
– O senhor não quer o seu comprovante? Ouvi.
– Não, não. Pode segurar pra ti.
Sabia meu saldo, R$ 0,06. Se ela olhou e viu que R$ 13,55 era no máximo o valor da minha mentira, nunca vou saber.

Passado envelhecido ( XIV )

Bob fez uma grande merda, ele não sabia, mas tinha feito. Tava com um longo sorriso por toda a parte, um sorriso de estuprador misógino, mas tinha feito uma grande merda. Bob tinha sorte, muita sorte, sua mulher era rica, com dois empregos, uma morena cheia de marcas, de surra mesmo, de paulada e socos frontais.
Todos que cruzavam com Bob ouviam: “Fiz um baita negócio cara”, “O que você fez Bob?”, “Eu comprei um terreno por R$ 20.000,00”, “Porra meu chapa, não se acham mais desses por aí”, “É  plano e gigante, vou fazer uma casinha e colocar mesas de sinuca”, “E de onde vai tirar dinheiro?”, “Minha mulher paga”, “Ah, claro, sua mulher”. Do outro lado do negócio estava o seu Alcindo, carinhosamente chamado de Tio Alcindo, pelo irmão, pela esposa, pelos amigos e por Bob também. Alcindo já pisava pela terra durante a segunda guerra mundial, seus cabelos grisalhos eram duros como o pasto, já tinha sobrevivido a um infarto, diabetes, câncer e um verme na cabeça. Um veterano nos negócios, e dessa vez foi mais que justo, foi solidário, “Bob, minhas terras não caberiam no Paraguai, então, por ter conhecido teu pai, vou fazer um preço impensável pra esse terreno. R$ 20.000,00 e é teu”, “Tio Alcindo, ele é meu”.
“Mônica, tens R$ 20.000,00 no banco?” “Tenho Bob, por que?”, “Lembra do Tio Alcindo? Quer apenas R$ 20.000,00 de um terreno, fechei negócio com ele. Tira do banco e me traz amanhã, ele quer em dinheiro à vista”, “Mas Bob…”, “Mas Bob nada. É minha mulher ou o quê?”, “Sim Bob, sou sua mulher”, “Não fique com essa cara de lagartixa, mais tarde tu ganha teu lanchinho”.
“Tá aqui tio Alcindo, R$ 20.000,00”, “Óóó Bob, você é um homem de palavra, seu pai ficaria orgulhoso”. Sem escritura, e sem um pingo de inteligência Bob foi pisar na terra, paga por sua mulher pungida como um controle remoto sem pilhas.
Os limites ficaram claros, depois da primeira propriedade ocupada por Alcindo, sua esposa, seus porcos elefantes, vinha o terreno de Chico, irmão do próprio Alcindo, um ano mais novo, que morava ali também há uns vinte anos, sozinho há dois, só fumando palheiro e batendo as botas “Que vida, que vida, me leve Deus”, “Pelo sagrado Senhor, o dia que minhas pregas pararem de funcionar eu me mato”. Inúmeras vezes antes de dormir tentava reanimar o pau, lembrando do perfume de uma xota castigada, que tinha conseguido em uma noite de bolero, quando ainda era viril, “Levanta coisa linda, levanta, levanta, levanta filho da puta”.
Depois do terreno do Chico, vinha o de Bob. “E então meu filho, o que vai fazer agora com esse terreno? Alguma plantação? Essa terra é boa ein, dá legumes dos bons!”, “Nada Tio Alcindo, vou fazer uma casa de jogos, uma entrada de concreto até aqui, e lotar de putas, quando puder”, “Ah meu caro, aqui é um lugar silencioso, te peço que não faça barulho, as coisas estão boas assim, estamos todos aqui só esperando a morte, devagar Bob”, “Tudo bem Tio, vou devagar”.
Certo arrependimento passava pela cabeça de Alcindo, ele fraquejou no negócio, o terreno valia mais de R$ 30.000,00. Mas a idade e as histórias com o pai de Bob fizeram ele abaixar a guarda, justamente com quem não podia.
Bob levou sua mulher conhecer o investimento. “Tio Alcindo, essa é minha mulher, Mônica! Trouxe ela dar uma olhada”, “Ah, tudo bem Bob, pode ir até lá, é seu agora”. Eles passaram por Chico batendo as botas e fumando palheiro. Caminhavam em silêncio sobre suas terras, mais do Bob do que de Mônica, que fingia ser só mais um bolo de terra pisado. “O que achou meu amor? É grande né. Nos demos bem nessa!”, “Ah, eu gostei sim Bob, dá pra cercar e criar alguns animais, ganhar algum dinheiro por aqui também”, “Por favor mulher! Você só pensa em dinheiro! Vamos construir uma casa pros nossos finais de semana! Já pensou, uma piscina aqui, com um gramadinho, uma churrasqueira, isso sim que é planejamento e investimento!”, “Mas Bob…”, “Mas Bob o quê?”, “Nada Bob, acho que é uma boa ideia”, “Essa semana já vou fazer um empréstimo no banco, e começar a construção. Quanto consegue pagar por mês?”, “Uns R$ 500,00 por mês até dá”, “Tudo bem, vamos pra casa”.
Passaram pelo Chico batendo as botas e fumando palheiro. “Até mais tio Alcindo”, “Até Bob”. Depois de dois dias o recém proprietário foi ao banco fazer empréstimo. O dinheiro seria depositado em três dias uteis. Já aproveitou e passou na construtora. “Fala Bob, meu querido, o que te traz aqui?”, “Opa Alfredo, vim aqui porque quero que você construa mais uma casa pra mim”, “Outra casa? O que aconteceu com aquela?”, “Tá em pé ainda, essa é outra, no meu novo terreno. Paguei R$ 20.000,00 de uma terra, acredita?”. Entraram no escritório, resolveram o orçamento e o prazo. Tudo andava como o lagarto sorrateiro planejava. “Môniquinha meu amor, amanhã eles começam a fazer a estrada de concreto pro nosso terreno, em menos de três meses o Alfredo me prometeu tudo pronto”, “Ah, que bom Bob!”. As máquinas começaram aparecer naquele pedaço de vida mórbido.
“Levanta, levanta, levanta seu pinto de uma figa. Eita, que barulheira é essa”. Chico saiu para a varanda, batendo as botas e fumando um palheiro. “E aí Chico!”, “Hei Bob, quero saber o que essas máquinas barulhentas estão fazendo por aqui?”, “Estamos fazendo uma estrada, pra depois construir minha casa ali no terreno”, “Que estrada? O que está fazendo com minha terra seu cabeçudo?”, “To melhorando, nem precisa agradecer”. Jogou o palheiro fora e foi falar com seu irmão. “Alcindo, viu o que esse pirralho tá fazendo por aqui?”, “Eu vi Chico, me arrependi de ter vendido aquele terreno”, “Não vai fazer nada? Essas máquinas estão acabando com nossos lotes”, “Acho que irei matá-lo”, “É uma boa ideia”. A estrada ficou concluída em cinco dias. “Meu velho, como deixou aquele malandrinho fazer essa estrada por cima da minha horta de repolhos? Fiquei triste tio Alcindo, muito triste”. Tudo acontecia muito rápido, as caçambas deixavam brita e areia, e sumiam. Os pedreiros bebiam cachaça embaixo do sol e da sombra, e colhiam todas as frutas que conseguiam dos velhos.
“Levanta, levanta, agora vai, ai meu Deus, levanta…”, “Cledir!!! Preciso de mais cimento!”, “…levanta pau véio, o cheiro, lembra do cheiro…”, “Cledir!! Manda uma bergamota aqui pra cima!”, “…bergamota?”, largou o pau mole, puxou as calças pra cima e saiu porta a fora, esqueceu até de bater as botas e acender um palheiro. “Escuta aqui Cledir! Se eu te ver mais uma vez com uma bergamota minha na mão, eu te dou um tiro”, “Hei velhinho, o Bob disse que a gente podia comer”, “Onde ele está?”, “Tá pelo centro da cidade, negociando”. Chico foi novamente até à casa do seu irmão. “Dolores, onde tá teu marido?”, “O Alcindo pegou a camionete e foi até o centro da cidade Chico”, “Ele levou a espingarda?”, “Não vi Chico”, “Vou esperar ele aqui Dolores”, “Ta bem, quer um pedaço de cuca?”. Batendo as botas cada vez mais forte, “Eu vou matar o desgraçado” ele pensava. A camionete entrou pelo portão. “O que faz aí Chico?”, “Te esperando. Matou ele?”, “Quem?”, “O Bob”, “Ainda não”, “ Tá esperando o que?”, “A casa ficar pronta”, “Meu Deus Alcindo, tu tá mais maluco que eu”, “Não tem escritura nenhuma, esse terreno é meu ainda”.
E a casa ficou pronta em dois meses, e tudo era lindo, foram convidados para a inauguração o Alfredo, o Chico, o Alcindo, a Dolores. “Que bela casa Bob!”, “Obrigado Tio Alcindo”. E os porcos elefantes rosnavam, as bergamotas caíam maduras, a cuca da Dolores já tinha acabado um mês antes, as botas do Chico perdiam a cor da sola, Alfredo ria com os elogios rasgados pra construção, Mônica rebolava sua bunda para o Alfredo que mais tarde a comeria apoiada na churrasqueira, e Bob queria mais, sempre mais, e logo ele teria mais, muito mais do que merecia.
E naquela noite o pau do Chico endureceu.

Passado envelhecido ( XIII )

Prédios altos do outro lado da rua estavam lacrados
Tinha ar-condicionado em todos apartamentos
Seus vidros mandavam reflexos capazes de cegar um homem na lua
Onde quer que ela estivesse
Segui em frente e comecei feder, ou talvez já estivesse fedendo
Mas comecei sentir ali, um cheiro de camiseta inundada
Consegui uma sombra ao lado de uma parede e parei em pé
Larguei a mochila no chão e acendi um cigarro
O clima era diferente, estava sozinho na rua
Por uma ou duas quadras nada de gente, nada de carros, nada de nada
Simplesmente Ramon, sua mochila e seu cheiro
O que eu mais queria era morar ali, o silêncio sempre me deixa anestesiado
Queria tirar as roupas naquele momento e tocar uma bronha longa
Gozar de uma vida silenciosa, mas não fiz isso, não sóbrio
De repente ouvi alguém cantando, vinha da minha esquerda
Mas não dava pra ver ninguém, só ouvir, e eu ouvia, e a música era boa
E seu canto era melodramático e afinado
Ele devia ter criado a letra e a melodia, e decidiu que todos  mereciam ouvir
Mas ninguém ouvia, somente Ramon azedo estava ali
Ramon com sua bronha interrompida, Ramon sem mulher, Ramon sem desodorante
Ramon incapaz de compor uma letra de música e sair cantando pelas ruas, não sóbrio
A letra era assim:
“Eu vou embora agora querida, eu vou embora querida, e você vai lamentar, pois ninguém te chupa como eu, aaaaaa queridaaaaa, e ninguém te chuta como euuuu, aaaa queridaaaa”
A canção vinha chegando mais perto, mas o cantor não, e logo o silêncio voltou.
Dei uns passos pra frente pra ver se via alguém, mas nada.
Talvez ele fosse o dono ideal pra minha quitinete
Escorrei-me na parede novamente e aproveitei sua sombra por dez minutos
Até que um homem saiu do beco e pegou a esquerda, vindo pra minha direção
Caminhava sonolento, ele tostava sem camiseta, estava resignado com tudo
Quando se aproximou parei-o, devia ter uns quarenta anos:
– Boa tarde, amigo – falei.
– Boa tarde.
– Por acaso o senhor não sabe onde posso achar uma quitinete pra alugar por aqui?
Ele coçou a cabeça, seus cabelos e caspas se mexiam, olhou para um lado, olhou para o outro, coçou mais a cabeça.
– Qualquer coisa – prossegui.
– Estou tentando me lembrar. Se não me engano tem uma tal de Sula que aluga quitinete por aqui, mas não lembro onde fica.
Novamente ouvia: “Eu vou embora agora querida, eu vou embora querida…”
– Já fui lá. Ela não tem mais. Sabe de outra?
– Não sei não.
– Tá bom, obrigado.
Ele foi em frente, pro mesmo lado da canção, pro mesmo lado do homem que ia embora e chupava e chutava mulheres como poucos.
Na minha frente do outro lado do asfalto, seguia uma rua achatada
Que fazia uma curva a direita bem longe, e ninguém fazia a curva
E ninguém achatava mais a rua, e ninguém chupava e chutava mulheres praquele lado
Foi então que vi uma mulher saindo de um caminho despercebido quando virei a cabeça
Um daqueles caminhos que você realmente duvida que alguém mora por lá
Fui até ela correndo, a mochila numa mão, um cigarro na boca
E com a outra mão fazendo sinal pra ela parar. Ela já ia seguindo pro sentido oposto, quando olhou pra mim e esperou.
– Que susto me deu. Quase saí correndo – ela disse.
– Do jeito que estou te alcançaria. Tudo bem com você?
– To bem.
– Escuta, você mora por aqui?
– Sim.
Coitada, ainda pensava em sair correndo, mas eu realmente a alcançaria
Ela era minha agora, e todas suas informações também
Tinha um anel de casada na mão esquerda, aparentava seus trinta e poucos anos
Um cabelo pintado de vermelho opaco, com um corpo realmente gostoso
Peitos estufados, olhos da cor da grama, uma cintura que minhas mãos abraçariam por frente, por trás, girariam, lançariam pra cima, e a colocariam delicadamente sobre o maracanã, e depois cravariam e afundariam sua pele até sangrar e gozar.
– Sabe onde tem uma quitinete pra alugar por aqui? Perguntei
– Entra por aqui de onde eu vim, vire a direita e vai até o fim da rua
– Tudo bem, obrigado
Que bunda gostosa. Passos apressados, o que deixa uma bunda boa melhor ainda. Uma bunda de mulher apressada é o que um homem precisa ver todo dia

Passado envelhecido ( XII )

Mais uns goles e estava pronto pra próxima. Sônia, uma mulher que me deu por três minutos e sumiu. Minha culpa, fiquei tão excitado que não fiz esforço algum pra segurar, deixando ela puta, com toda razão. Foi embora me chamando de precoce mestre, falei ainda pra esperar a próxima, mas ficou tão injuriada que me mandou apostar corrida com um pacote de macarrão instantâneo, gritei atrás dela que apostaria e ganharia facilmente. Eu já tinha dado algumas das piores fodas da história pra algumas mulheres, não era Sônia que iria me parar. Ainda tentei ligar alguns dias depois, mas não atendeu, e agora tentaria novamente. Disquei e nada. Disquei de novo, de novo, de novo e nada. Sequei um copo de vinho, se atendesse seria uma conversa delicada. Fiquei imaginando um pouco:
“Alô”
“Oi. Sônia?”
“Sim, quem fala?”
“Ramon, lembra?”
“Você fala muito rápido. Não entendi”
“R-a-m-o-n”
“Ah! O miojinho”

Mais um pouco:

“Oi”
“Oi Soninha, tudo bem?”
“Tudo. Eu te conheço?”
“É o Ramon”
“Ah! Não tive tempo de conhecer”

E a última vez:

“Alô”
“Sônia?”
“Sim! E você?”
“Aqui é o Ramon”
“E aí?! Batendo muitos recordes?”

Parei de imaginar e liguei de novo, dessa vez ela atendeu, o que me surpreendeu.
– Alô – ouvi.
– Oi. Sônia?!
– Isso. Quem está falando?”
Pensei seriamente em desligar. Falar meu nome traria muita decepção à conversa. Subitamente me veio a ideia de instigar ela mesma a falar, pra expulsar pelas cordas vocais o Ramon precoce mestre que existia dentro dela, talvez isso mudasse o rumo do nosso papo.
– Não lembra de mim? Perguntei.
– Não. Quem é você?
– Daquele dia do bar. Que saímos e fomos lá em casa, no São Pedro.
– Já fui na casa de muitos caras no São Pedro. Vai ter que ser mais específico.
– Naquela ruazinha escura e de morro íngreme.
– Não estou lembrada. O que você quer?
– Quero que você venha conhecer minha casa nova.
– Mas me fala seu nome. Quero saber com quem falo.
– Aquele alto e barbudo. Que não parava de tossir.
– Por que não me fala seu nome logo?
– Quero saber se fui inesquecível pra você.
– Pelo jeito não. A gente transou?
– Por horas.
– Bom, não estou lembrada. Vou desligar. Tchau.
– Espera aí!
– Diga.
– Aquela casa com um espelho na porta pelo lado de fora. Você olhou seu cabelo bastante tempo nele antes de entrar.
– Huummmm. Acho que estou lembrando. Aquela quitinete que tinha um sofá-cama no meio da sala e uma escada pro segundo andar?
– Isso, isso.
– Eu estava muito bêbada aquela noite. Não lembro seu nome. Pode me dizer?
– Começa com R.
– Pô cara! Tu é chato né. Vou desligar agora se não me disser teu nome.
– Sua besta bêbada. Meu nome é Ramon, o que quase gozou antes de endurecer o pau.
Ela desligou. Parei de ligar.
Olhei pro relógio, eram dez horas da noite, eu estava bêbado, e as páginas continuavam brancas. Escrevi uma frase em cada página pra finalizar o caderno, com muita dificuldade ainda. Lá estava Ramon, um dos piores escritores do mundo, bebendo e fumando como se fosse um dos bons.

Passado envelhecido ( XI )

Teve aquela mulher, por dois meses. Nenhuma reclamação. Suspeita. Intransigente. Míope. Abusada. Absurda. Artística. Minimalista. Subjetiva. Aleluia. Bestial. Concreta. Cozida. Passada. Maiúscula. Adorava tirar fotos sensuais minhas após uma trepada. Exigia “Faça uma pose erótica!”. Sensualidade pra mim significa mostrar o peito peludo e mastigar os lábios. Convencional. Sou assim. Vale lembrar que essa mulher é a mesma que tirou uma foto minha com o pênis mole entre duas fatias de pão. “X-Pica sem ovos” ela nomeou. Discordei. Estava mais pra cachorro quente sem molho. O que acha de X-Mico de carne? Perguntou-me. Prefiro Misto mole, respondi. Deve ter mais de cinquenta fotos constrangedoras nossas, a não ser que se desfez. Atual namorado, coisas desse tipo. Mãe intrometida. Remorso. Engano. Nostalgia. Desgosto. Capricho. Santidade. Miragens. Por que nos separamos? Peidei no quarto e recusei raspar o peito. Profético. Poético. Efervescência.
Foi mais uma noite de guerra e consolo. Como sempre saí ferido, mas sobrevivi. Aqueles tipos de guerra sempre foram o único momento do dia em que eu sabia quem era. Nada. Tudo. Acordei crucificado no colchão, com uma dor de cabeça de fora pra dentro. Sim, venci mais uma, pensei. Mas essa tinha sido árdua. Venci sim, entretanto lutei mais do que aguentava. Trincheiras e versos. Os saldos sobrepujaram a batalha. Levantei e consegui ir até o banheiro vomitar. Líquidos secos grudados na porcelana cinzenta. Aroma blindado. Vida em jogo. Tremedeira. Pressão baixa com um riso ilusório. Santo Deus, pensei. Dei descarga. Doença encanada esvaindo relaxadamente. Talvez fosse capaz de requentar uma sopa, mas essa ideia embrulhou o azedo da garganta. Um chá, tudo bem. Sentei na cadeira e apoiei os braços na mesa aguentando todo o peso da cabeça, que calculei ser vinte e quatro anos. Emagreci alguns anos quando parei de comer sintomas vagabundos. Regime e decadência. Um chá, tudo bem. A água fervia na panela enquanto desesperadamente eu controlava as náuseas e os erros absurdos. Só mais algumas guerras Deus, depois me entrego. “Boldo do Chile” escrito na caixinha, e dentro, somente um saquinho branco cheio de erva acoplado em um rabo fino de linha. Amarelo queimado ficou a água fervida dentro da xícara. De gole em gole fui sendo engolido pela minha energia arruinada. A dor pesava de fora pra dentro, assim como uma faca que só serra pra frente. Vomitei em cima da mesa e achei lindo meu corpo ainda transparecer perseverança. Pobre coitado, sofre mais que eu. O líquido amarelo queimado foi deslizando na mesa como uma arte moribunda. Assinei com a ponta dos dedos, como um artista imortal, misturando arte, vômito e dúvidas. Fui até o banheiro buscar um pano e retaliei minha arte, assim como Rembrandt fez com sua obra “A conspiração de Claudius Civilis”. Esgotamento taciturno. Deitei-me e pus-me a suar perigosamente. Inspirando sentia um ardor de caldeira, expirando era como ser feito de neve. Fiquei de lado observando as teias de aranha nas esquinas das paredes. Me cobri com uma coberta branca cheia de detalhes azuis e vermelhos. Que calor. Me descobri. Que frio. Que inferno. Que bagunça. Não via aranhas, somente teias. Fiz minha última oração, que mais parecia um hino, conversa afiada. Arrotei alto. Mais um riso ilusório. O dia era claro e quente. O dia era cinzento e frio. Tudo dependia da minha respiração ofegante. Dormi pra não morrer acordado, simplório demais. Ao acordar novamente, tirei os pregos das mãos e dos pés e corri vomitar mais no banheiro. Que ressaca dos diabos, pensei. Trincheiras e versos, chega disso. Abri a geladeira e comi uma sopa gelada. A cura! Que nada, mais um erro absurdo. Vomitei dentro da panela. Escritores não morrem assim, simplório demais. Tentei uma maçã com um copo d’água para estabilizar o veneno adocicado que corria por mim e deitei novamente. Orei mais um hino de conversa afiada, o que me pareceu insultos dramáticos. Dormi por mais três horas, e finalmente aquilo tudo se desmanchou como um algodão doce na boca. Agradeci ter fome, mesmo não tendo nada pra comer em casa. Bebi muita água e arrotei baixo. Bom sinal. Lavei a panela, joguei o pano vomitado no lixo, vesti-me e saí porta afora. O dia realmente era frio e cinzento, com indícios de chuva. O bairro estava duro e sonolento como sempre. Receptivo e simpático como uma gargalhada de hiena. Concordei em não reclamar de nada naquele dia, afinal estava no lucro, só precisava comer bem. Fui até o ponto de ônibus, onde sentei e acendi um cigarro. Sem demora, dois caras sentaram ao meu lado pedindo dinheiro pras suas passagens.
– Não tenho grana – falei.
– Só temos quatro reais. Trabalhamos a manhã inteira no jardim de uma velha, e depois terminamos a calçada do dono daquele bar ali – apontou e disse o que estava mais próximo de mim no banco.
– E não receberam nada?
– Só semana que vem – lamentou.
– Quer comprar um baseado? Perguntou o outro.
– Não tenho grana cara – respondi.
Esse vendedor era cabeludo, com o cabelo ondulado até os ombros. Muito magro e sem camiseta, parecia um picolé de sabugo. O outro usava boné e começou reclamar por ter nascido bonito e não rico. A vida de jeito nenhum contentava alguém, bonito ou rico? Eu só queria comer. Peso e consciência. Quase iniciei uma lamentação longa, mas eles de nada entenderiam. Não por serem ignorantes ou qualquer coisa desse tipo, e sim porque não ligavam pra nada além do meu dinheiro inexistente. A única coisa que carregava na carteira era um vale transporte e duas camisinhas.
– Que sede! Continuou o bonitão.
– Ressaca? Perguntei.
– Sim – ele disse. Tem cigarro pra gente?
– Tenho.
Repassei dois cigarros e esperávamos o ônibus em silêncio. Que fome, pensei. Do outro lado da rua, trabalhadores de uma empresa contratada pela prefeitura cortavam galhos de árvores que quase enroscavam nos fios dos postes. Bebiam água, muita água, naqueles galões de cinco litros. Do outro lado da rua também tinha um ponto de ônibus onde uma morena aguardava com as pernas grossas cruzadas, bem à mostra, com um shortinho jeans desbotado menor que um palmo. Que fome, pensei.
– Era melhor ter nascido rico do que bonito.
– Que fome – falei.
– Que sede.
– Vai lá pedir água pros caras que estão cortando árvores – disse o picolé de sabugo.
Atravessou a rua e foi beber água enquanto o ônibus apontava na reta com o sinal aberto no semáforo. Sede e livre arbítrio.
– Vai perder o ônibus, caralho! Gritou o cabeludo.
Bebia água enquanto olhava para as pernas da morena.
– Ele vai perder o ônibus – falei pro sabugo.
– Vai perder o ônibus, cacete! Gritou novamente.
A morena percebeu a gritaria e descruzou as pernas. Que fome, que pernas, que sede esse animal tem. Atravessou a rua correndo enquanto o busão parava lentamente com aqueles sons de ar do freio. De alguma forma mágica, eles conseguiram pagar as passagens com os supostos quatro reais que tinham. Fiquei em pé no corredor enquanto sentaram lado a lado. Durante o percurso, vagou uma poltrona colocada ao lado do espaço reservado para deficientes físicos, uma poltrona que é preciso abaixar pra sentar. Abaixei e sentei feliz da vida. Que fome. Alguns pontos adiante e nada de importante pra ressaltar nesse intervalo, um outro cabeludo entrou no ônibus, coçando o nariz como um cão pulguento coça as costas. Estava louco. Perceptível nos olhos, nos movimentos e na fala corrida dirigida ao cobrador. Devia ter seus cinquenta anos já, fios brancos no cabelo e na barba, paranoia antiga. Inconscientemente e dedutivamente tive a certeza que esse maluco conhecia os outros dois. Instinto e realidade. Cumprimentaram-se em bom som na parte traseira do coletivo, abraçaram-se como pequenos fragmentos contundentes íntimos e arcaides. Ouvi um pouco da conversa entre eles, mas tudo se resumia a nada, somente um covil de mantras. Que fome. Um ponto a frente e os dois desceram. Desembarcaram em frente uma rua repleta de traficantes. Como eu sei? Já fui lá. Outra história nada louvável, como essa. Logo a frente decidi ceder minha poltrona à uma mulher suada que entrou no ônibus acompanhada por um homem de óculos escuro. Nem sequer um obrigado de ambos. Muito menos um pãozinho com presunto. Em pé, agarrado nos ganchos eu fazia outra reza “Deus, faça com que ela tenha comida em casa”. Uma velha caindo aos pedaços passou pela roleta com dificuldade, com seus cabelos encaracolados e pintados de amarelo travesseiro, implorava um assento mediunicamente, aguardava uma boa vontade. Eu não tinha nada pra ela, estava esgotado, revigorando aos poucos. A mulher da minha antiga poltrona, percebendo a situação, resolveu procurar um pássaro pra conversar na janela. Estava confortável, cada um que procure suas boas vontades alheias. Singelo infortúnio, pensei. Subitamente, o maluco dos cinquenta e poucos anos gritou para a velha, para todos:
– SENHORA! SENHORA! AQUI! POR FAVOR, SENTE-SE NO MEU LUGAR.

Bati na porta da casa dela instantes e momentos inodoros depois, abriu após uns três minutos.
– Surpresa – eu disse.
– Não era pra você vir aqui hoje – me respondeu secamente.
– Por isso a surpresa.
– Entre.
Fui até a geladeira, comi dez fatias de presunto e cinco tomates cereja. Delícia. Abri uma cerveja e fui até o quarto onde ela arrumava os cabelos e a maquiagem. Sentei na cama.
– Pra quem disse que não viria aqui hoje está bem confortável.
Singelo infortúnio, pensei.
– Não é um dos meus melhores dias – confessei.
– Vou aproveitar e raspar teu peito então.
– Pirou?
– Se não deixar, é bom que se suma daqui.
– Besteira.
– Falo sério.
Soltei um peido alto. Bravura desertada. Fui empurrado pra fora, pra sempre. Consenti.

Romeu

O não-gostar é libido
É um caos controlável
É existir na existência, dever aos deuses
É a controvérsia do amor casual, que mal nos acostuma
Tem mais prestígio que um homem limpando a bunda na certidão de nascimento para mudar o nome
Torna-se raivoso, tão pouco contagioso e vingativo
Partiremos daqui logo, deixando sabonetes e talco nos sapatos
Partilhando mais chulé do que paixão
Combinando mais roupas que olhares
Morre-se de preto, desbota-se o corpo
Colam-se os olhos, a boca, as narinas e as pregas
O estilo fica pálido aos que olham para as flores que compraram
Nada tenho pra chorar, nem uma caixa d’agua
As pessoas boas racham lenha a vida toda e queimam
Seus pudores não são vaidosos e desrespeitosos
O não-gostar é instintivo e prematuro
E para que isso acabe, acendem-se algumas velas
Tornando as noites vagas e perfeitas

Romeu lê seu poema todas as noites antes de dormir, o único, pois não é poeta, odeia-os, principalmente Rimbaud. Gosta mesmo é de molhar bolachas doces dentro de leite quente misturado com conhaque, além de boas revistinhas de sacanagem pra acompanhar suas refeições noturnas. Trabalha como telemarketing durante os dias, de segunda a sexta, das 7:59 até 17:59, com intervalo de uma hora pra almoçar. Descobriu um restaurante há duas quadras de distância da empresa e frequenta sozinho, porque a comida é indigesta, mas o preço do buffet livre se sobressai perante os aspectos e receitas do lugar. Cada almoço é um dia a menos na terra, cada dia a menos na terra um consolo. A dicotomia do hipocondríaco. Romeu ainda guarda sonhos de infância, ter um Opala seis cilindros e amar uma mulher, nessa ordem. Quase amou uma mulher, quase roubou um Opala, nessa ordem.
Por ser um funcionário exemplar, acabou tornando-se íntimo de sua supervisora e isso agrada ambos. Sentam juntinhos das 7:50 até 7:59 e sussurram sobre qualquer coisa, ninguém sabe o que rola, sabem apenas que a supervisora Julieta tem um noivo, que por coincidência também chama-se Romeu. Mas nosso Romeu não está interessado, quer apenas uma figura de mulher para inserir nas revistinhas de sacanagem. Uma carinha safada com sussurros sacanas, Julieta é capaz disso e nada mais. O negócio de ser hipocondríaco começou aos dez anos, recorda perfeitamente o dia. Foi buscar sua bolinha de tênis sobre as hortas da mãe, onde pisoteou por todas alfaces possíveis. Sua genitora percebendo aquilo pela janela gritou com o ódio das pulgas famigeradas:
– Romeu! Da próxima vez que fizer isso terá câncer como seu avô!
Romeu desistiu das bolas de tênis. Passou a vida inteira pensando em câncer, e quando ouve que pensar em câncer atrai câncer, então pensa sem parar. Seu primeiro cancro foi na cabeça do pênis. Uma manchinha branca estava acabando com ele, quanta dor, urinar doía, usar cueca doía, coceiras insuportáveis e intermináveis. Deu-se por vencido. Trinta anos depois ainda continua investigando a tal mancha calcificada. O segundo tumor foi na bexiga, lá pelos onze anos. Foi até o banheiro tomar banho e urinou sangue pelo ralo. Não sentiu medo, apenas concordou com a cabeça várias vezes enquanto mijava. Milagrosamente foi curado a base de antibióticos e chás, porém mantem dúvidas quanto a isso, ainda carrega arrepios quando vai ao banheiro. O terceiro e pior câncer foi no ânus, aos treze. Muito sangue no papel higiênico. Foi a primeira vez que sentiu falta da merda. Mas Romeu é apenas mais um hipocondríaco suicida. Digamos que seja o David de Caravaggio segurando a própria cabeça ou os corvos de Van Gogh sem direção. Um palhaço com depressão, que gira do avesso e encontra o contrário.
Todos os dias Romeu busca um cenário dentro de suas criações imaginárias e muitas vezes sombrias. Ao suicidar as virtudes, consegue abrir a janela que separa o original do paralelo, e só dessa maneira vê a essência das almas mortas. Romeu nasceu dia 30 de fevereiro, quiçá arrepende-se disso.O exagero de tentar ser ímpar torna as coisas uma partida de xadrez complicada. Romeu sabe o que é, o tabuleiro estático vendo vidas capturadas, Rainhas e Reis ficando para trás e jogadores se divertindo com isso. Igualmente uma cruz no anzol sente-se uma isca da ingenuidade e só encontra tranquilidade embaixo dos pés quando deita. Vamos falar um pouquinho com ele:
– Boa noite, Romeu.
– Tamanha fúria resumida a dois longos dentes afiados. Reze para ser dentista ou um creme dental, pelo contrário, suas pernas não descansarão. É sempre um dia de fúria, as emoções saem do compasso e o menor detalhe causa estrago. Hoje sou apenas falsidade, a mesma que comprei, exijo verdade até das suas borboletas de estimação. Porcos!
– Relaxa aí. Estou lhe apresentando.
– Todos os dias analiso minhas atitudes como as revistinhas de sacanagem, mas ao contrário da minha cara relaxada e meus braços dormentes depois que folheio a revista, com minhas atitudes sou rude e me proíbo gozar. Os resultados são sempre os mesmos, apenas mudam as equações. Explorei os limites da minha essência e ativei meu poder de autodestruição, é complicado quando o pior se torna aceitável. Particularmente falando, prefiro ser um acomodado querendo ficar longe das burocracias do ser, do que um inconformado e precisar provar todo dia a sensação de estar perdido, esses só exercitam e sustentam aquilo que mais existe neles: Fé. Quantas vezes já presenciei a falta de fé involuntária, sempre por motivos superficiais. O que acho de vocês é o seguinte, são pessoas que saúdam quem mais mutilam suas vidas para depois ficarem remoendo a própria carcaça. Sentem-se exaustos, mas tudo bem, não quero ferir seus egos, seus orgulhos infiéis que os separam da realidade. São levados pela fantasia, carregados de insegurança e traídos pela bondade. São honestos demais para viverem suas vidas. Podem me achar um palhaço sem graça. Porcos! São ratos e reis encenando uma peça, sem ensaios, cheia de erros, propósitos, boas e más intenções. O POVO É COMO UMA PROSTITUTA QUE NOS DIAS DE FOLGA OCUPA-SE FODENDO DE GRAÇA!
– Já fui como você Romeu. Esse leite com conhaque está te estragando. Tire o leite.
– Chega de urinar sangue, chegou a hora de cuspir veneno e pisar em Golias e Gorilas. Aprendendo a chorar eu aprendi a sorrir, e hoje muito mais que isso, lutei com o tempo e fui esmagado ao ponto de não sentir mais o gosto salgado das lágrimas. Depois de cumprir meu dever, irei passear nas lembranças que me ajudam a recuperar os sentimentos de culpa, de ódio e de amor. Estou cansado de fugir das poucas coisas que me alegram. Ando rindo das mesmas piadas que um dia ainda quero ouvir, afastando a imortalidade em minha direção. Procuro não ser rigoroso, mas chega uma hora em que falar sozinho perde a graça. A evolução é uma arte que desconheço. Quando estou parado estou a mil por hora, sou quase um beija-flor jovem e rápido, mas com a carcaça de um urubu podre. Uma loucura interminável, um sentimento que foi guardado no silêncio das minhas decisões. Final de semana passado superei-me, dormi uma vida em 5 horas. Foi como uma roleta russa de palavras, onde a verdade mata, e a mentira preserva uma vida fraca como um suicídio. Suicídio vale a pena? Não sei, nunca sobrevivi a um, mas prefiro leite quente com conhaque. A vida não muda as perguntas, só mostra o quanto as respostas estavam equivocadas.
– Esqueça o leite Romeu.
– Gostaria de me virar do avesso e enxergar as cores do meu corpo misturado com os efeitos da minha alma formando um arco-íris preto e branco. Porque isso? Para apalpar o que destruo sem as mãos. Meu nome é Romeu, mas não se apaixonem por mim, suguem o máximo que puderem e eu serei grato por poder culpá-los das minhas culpas. Desisto. A palavra vale menos que um verme localizado em fezes humanas sangrentas no meio de uma calçada cheia de brita e buracos. Desisto. O dinheiro fede mais que uma caixa de gordura repleta de pelos caninos. Desisto. Vende-se a mãe, vende-se o pai, vende-se a honra, vende-se o intestino cheio. Muito bem, desisto de desistir, o limite nunca esteve mais próximo. Apoio. Venda o que tem de mais valioso, pise nas fezes humanas sangrentas que estão encima da sua cama, misture dinheiro com a gordura que se acumula no esgoto e engula. Sintam o prazer de perder e depois peçam minha ajuda. Mostrem-me o começo e eu acabarei com o infinito.
– Valeu Romeu. Até a próxima.
– Ainda não acab…..

Passado envelhecido ( X )

– Não gosto dos seus livros – ela afirma.
– Só escrevi um, e nem publicado foi. Você leu porque quis – eu afirmo.
– Já estou contando com esse que está escrevendo.
– Certo. Vai trepar ou não?
– Minha resposta vai definir o prosseguimento do conto?
– Não, direi que te comi de qualquer forma.
– Que sacanagem.
– Pois é, Fláv….
– Calado! Não quero meu nome nesse livro de bosta.
– Relaxa neném.
– Se pelo menos você soubesse me descrever, não me importo se usasse da paixão ou do ódio. Gostaria que minhas curvas e personalidade fossem expostas no papel com ardor ou coceira. Consegue me qualificar como Bukowski fazia com suas mulheres?
– Bukowski se deliciava nas pernas. E nós dois sabemos que suas pernas não são grande coisa.
– E não pode mentir como ele?
– Não. Nada que escrevo é mentira.
– Em seu primeiro livro não publicado a primeira frase é: “Essa é uma obra de ficção. Tudo nessas linhas são mentiras desorganizadas”. E há pouco não hesitou em afirmar que irá me comer nesse conto, sem comer.
– Ah, porra. Você enche o saco. É só mais um nome e tá aí pensando que vou arrancar sua peruca e fazer nascer cabelo.
– Você como escritor é um grande nada.
– E você como mulher é um grande homem.
– Seu primeiro romance é uma cópia mal feita e fajuta de Charles Bukowski com John Fante, por isso ninguém quer publicar.
– Sim e daí? Nunca ouviu a frase: Bons autores criam, gênios copiam?
– Nunca, e vindo de você soa trágico.
– De fato, tranqueira.
– Qual será mesmo o nome desse livro que está escrevendo?
– “Delírios com lágrimas e orgasmos”
– De onde tirou isso?
– De um caderno.
– Já ouvi isso em algum lugar. É cópia de quem?
– Não interessa.
– Vou pesquisar, tenho certeza que já ouvi.
– Puta merda, Bandini poderia muito bem ser o personagem do livro “Fome” de Knut Hamsun.
– Sim e daí? Você é uma farsa.
– Suas pernas são mais feias que as minhas. Pronto, já sei como começar: “As pernas dela eram mais feias que as minhas”.
– Está delirando, mas prossiga.
– “As pernas dela eram mais feias que as minhas”. Esse é o título, o começo, meio e fim.
– Fale um pouco das minhas nádegas.
– Vira essa bunda pra cá então, xarope.
– Assim?!
– Não. Fica em pé.
– Tudo bem. Minha bunda deitada não te inspira?
– Tua bunda deitada parece um repolho roxo.
– E agora? Melhorou?
– “As pernas dela eram mais feias que as minhas. Quando levantava e separava as nádegas com as mãos usando toda força possível, eu sentia vontade de jogar vinagre e sal pra comer o repolho roxo”.
– Nem separei as nádegas seu imbecil. Você é péssimo. Concordo fielmente com suas palavras em seu romance que nunca será publicado quando diz não passar de um dos piores escritores do mundo.
– Sim e daí? Vai embora. Cansei de você já.
– Não irei antes de terminar meu conto.
– Terminei já.
– Posso deitar?
– Faça o que quiser.
– Descreva meu rosto.
– “E o que dizer da sua face? Um legítimo repolho roxo”.
– Qual seu problema com repolho roxo?
– Sei lá, olho pra você e vejo vários.
– É sério! Adjetive meus olhos.
– “E o que dizer da sua face? Um legítimo repolho roxo. Seus olhos vivazes e alcalinos miravam exponencialmente o rogo das mais divinas alamedas secundárias da imaginação. Suas pupilas não me enganavam, eram sementes, sementes de repolho roxo.”
– Orelhas.
– “E o que dizer da sua face? Um legítimo repolho roxo. Seus olhos vivazes e alcalinos miravam exponencialmente o rogo das mais divinas alamedas secundárias da imaginação. Suas pupilas não me enganavam, eram sementes, sementes de repolho roxo. Nas orelhas um toque mágico, uma cartilagem tão suave que seus contornos pareciam algodão, algodão doce que desmancha ao primeiro toque de língua e adocica os dias de chuva. Os brincos se estendem envergonhados por tanta beleza, sequer humana…” Porra, preciso enfiar um repolho roxo aí no meio.
– Enfia então.
– “Nas orelhas um toque mágico, uma cartilagem tão suave que seus contornos pareciam repolhos roxos, repolhos roxos doces que desmancham ao primeiro toque de língua e adocicam os dias de chuva”.
– Nariz.
– “O nariz aquilino deixa em alerta meu pinto e meus ovos. E por falar nisso, minha glande é roxa, assim como os repolhos roxos”.
– Boca.
– “Sua boca brilha com o saltitar das palavras, como se minimizasse os trovões que expurga pelas cordas vocais paradoxais aos sentimentos internos brutos. Situada na esfera dos campos da perdição, avassala os corredores sonoros que temem o silêncio….” Me perdi.
– Não faz mal. Coloca teu repolho roxo aí.
– “Sua boca brilha com o saltitar das palavras, como se minimizasse os trovões que expurga pelas cordas vocais paradoxais aos sentimentos internos brutos. Situada na esfera dos campos da perdição, avassala os corredores sonoros que temem o silêncio dos repolhos roxos”.
– Não entendi nada, mas gostei.
– Eu entendi, mas não gostei.
– A solidão é minha parceira, sem ela me sinto sozinha.
– Essa frase é minha.
– Tua nada.
– Por que veio aqui?
– Sei lá, para uns beijos, uns toques, um pouco daquilo que chamam amor e eu chamo tempestade.
– Está roubando todas minhas frases.
– Não são suas. Olha só, ontem vi um amigo que se parece muito contigo. Estava mais louco que o Lobato.
– Se eu me parecesse comigo também estaria.
– Os traumas são tão constantes, que você esquece os antigos e passa a viver com os próximos.
– Já escrevi isso.
– Jamais.Você não é nada. É só um patife biltre.
– Obrigado.
– Por que sempre uma garrafa do lado?
– Porque escrever sem beber é como cagar sem cu. Falo por mim.
– Besteira. Você não é escritor.
– Porra mulher, pare de ser o chato do chato do piolho do cu do chato.
– No fim de tudo, tudo é descartável.
– Por isso acho que a vida é excepcional pra quem morre no parto.
– Minha autoestima foi embora com a masturbação.
– Não me admira. O que acha dessas três frases: “Um escritor de certa forma é um traficante. Nenhum obriga ninguém a comprar sua droga”, “Decidi que mataria todos que me incomodassem e me matei” e “Se em qualquer momento da minha vida eu depositar toda minha esperança em alguém, então podem ter certeza de que perdi a esperança”.
– Huuuummm. Porcaria.
– Tudo bem, concordo.
– Como ficou meu conto afinal?
– “As pernas dela eram mais feias que as minhas. Quando levantava e separava as nádegas com as mãos usando toda força possível, eu sentia vontade de jogar vinagre e sal pra comer o repolho roxo. E o que dizer da sua face? Um legítimo repolho roxo. Seus olhos vivazes e alcalinos miravam exponencialmente o rogo das mais divinas alamedas secundárias da imaginação. Suas pupilas não me enganavam, eram sementes, sementes de repolho roxo. Nas orelhas um toque mágico, uma cartilagem tão suave que seus contornos pareciam repolhos roxos, repolhos roxos doces que desmancham ao primeiro toque de língua e adocicam os dias de chuva. Os brincos se estendem envergonhados por tanta beleza, sequer humana. O nariz aquilino deixa em alerta meu pinto e meus ovos. E por falar nisso, minha glande é roxa, assim como os repolhos roxos. Sua boca brilha com o saltitar das palavras, como se minimizasse os trovões que expurga pelas cordas vocais paradoxais aos sentimentos internos brutos. Situada na esfera dos campos da perdição, avassala os corredores sonoros que temem o silêncio dos repolhos roxos. Comi”.
– Dessa forma medíocre termina o conto?
– Não. Termina o livro.

Passado envelhecido ( IX )

Eu havia puxado a cordinha, queria descer no próximo ponto, logicamente. Coloquei-me em frente às portas de desembarque do transporte coletivo. Já eram oito e pouco da manhã, estava atrasado, mas nem tanto, como de costume. Paramos no semáforo, faltava pouco, uns vinte metros, somente uma pessoa iria descer ali, bem insignificante por sinal. Corpos atravessaram pela faixa de pedestres, mas como eu estava lá no final do corredor só conseguia ver suas cabecinhas miúdas através do para-brisa, o vai e vem que já estamos saturados de observar, indo e vindo, escorregamos todos pra mesma vala, e viver parece ser a maior idiotice nessas horas. Em uma espécie de painel colocado sobre as portas, em vermelho luminoso o seguinte alarme “Parada Solicitada”. Fui eu, pensei, ainda mantenho algum poder nas mãos. Engano meu. Com um repentino solavanco o ônibus partiu lentamente. Balancei como uma carga de gado, senti uma dor no dedão do pé esquerdo, unha encravada, encravada na alma. Vagamente lembrei-me do meu primeiro pacto com o diabo, que não deu certo, cerca de quatro anos antes e aconteceu mais ou menos assim:

Conheci Marta em um posto de gasolina. Entrei comprar cigarros e ela discutia com o atendente. Fiquei atrás dela ouvindo tudo. Bêbada, queria porque queria passar cigarros no vale-alimentação, mas o cara recusava. Coisa tola, cada um se alimenta com o que quer.
– Escuta aqui seu frentista do caralho, eu tenho 27 anos, moro ali no bairro São Pedro, e saí de casa só pra isso. Vai me vender por bem, ou então eu quebro teu nariz.
– Desculpe senhora, mas não passamos cigarros no vale-alimentação. Nenhum posto da nossa rede faz isso. É melhor a senhora se acalmar.
Ela olhou pra trás e me viu quase encostado nela.
– Ouviu isso?! Esse chupador de gasolina não quer me vender cigarros.
– Ouvi. Qual cigarro você quer, bebê? Perguntei.
– Marlboro maço.
– Deixa que o papai te paga essa.
– Te espero ali fora.
Quase deu de cara na porta eletrônica, mas conseguiu sair. Seu cabelo moreno flutuava, a sua boca tinha um brilho molhado, tipo gelo derretendo numa fogueira, seus olhos eram pequenos, do tamanho de uma moeda de cinco centavos, mas valiam mais, uma tonelada de nobres desejos de tê-los fechados ao redor da virilha. As roupas não a deixavam mentir, só tinha saído de casa praquilo mesmo, e pra me deixar de pau duro num posto de gasolina.
– Acho que você escutou né chupador de gasolina? Dois maços, por favor.
– R$ 11,00 senhor.
– Hei cara, te livrei duma hoje hein? Essa mulher iria te explodir o bigode. Só tenho dez reais. Então sejamos justos como Jesus e tudo acabará bem.
Estendi a nota, como quem não queria pagar nada no fim das contas.
-AH! Tudo bem, obrigado – ele disse.
Dei o maço pra ela, acendi um pra mim.
– Papai, pra onde está indo?
– Pra casa. Papai está cansado.
– Aaaaa….vamos lá em casa brincar de papai e mamãe.
Fui pra lá. Papai e mamãe ralaram os genitais.
Paloma, Isis, Roberto e Dirceu eram seus amigos, vim conhecer dias depois. Eu tinha poucos amigos, e tinha preguiça de apresentar, o único que apresentei foi Antônio, e junto veio sua mulher religiosa. Pra começar, a Paloma tinha uma tatuagem nas costas, um grande beija-flor beijando uma pequena folha de maconha. Começava aí sua simbologia exacerbada, era de poucas palavras e sua linguagem pra tentar se expressar, notoriamente era difícil de entender, por vezes saía de uma conversa e ia sentar numa cadeira o mais longe possível “Que que deu agora?” eu perguntava, “Nada, só deixe estar” respondia Marta. Uma vez ficou só de calcinha na minha frente, enquanto eu tentava matar uma mosca e Marta tomava banho. Não falou nada, só ficou. Abaixei sua calcinha, ela ergueu, e fez um “não não não” com o dedo indicador. “Paloma sua esquisita, vou tatuar um pinto na tua pomba”, “Não não não” com o indicador. Vestiu-se e foi embora. “Onde está a Paloma?”, “Olha Marta, saiu voando por aí”. A Isis gostava de tagarelar, se passava por ninfomaníaca, mas dava pra ver que suas fodas decepcionariam até um padre cego. Tinha um corpo dos bons, mas exagerava tanto nas palavras que perdia toda a sensualidade, ficava fútil de tanto pau e buceta que citava. Mas eu até que gostava de ouvi-la, tinha a imaginação de uma criança prostituta. O Roberto era um cara sensível, apaixonado, o vi chorando umas três vezes. Pintava quadros um tanto abstratos, vermelhos e cinzas, e distribuía para seus amigos. “Ô Roberto, isso aqui pelo que vejo é um pastel peidando” – falei olhando pra um que tinha dado à Marta. “Você se engana, é um machado partindo um coração ao meio”, “A tá, mas o cheiro é o mesmo”. Dirceu era o mais velho de todos, tinha uns trinta e cinco anos. Formado em engenharia elétrica, o único que havia sido casado e tinha um filho, que não via muito. Falava-me de toda a situação, do amor perdido, dos sonhos, do caco e do vidro. O amor deve ser dosado em um conta gotas pra cada um, uma gota a mais e morrem afogados, uma gota a menos e acabam.
O pacto se sucedeu no dia em que Marta entrou pela porta da casa dela eufórica, tinha ido encontrar Paloma enquanto fiquei sentado no sofá espantando moscas.
– Meu bem, vamos acampar final de semana? Perguntou.
– Não – respondi.
– Aaaaaaa…por que não? Vamos sair um pouco desse nó universal, eu não aguento mais, todas essas calçadas e muros pichados. O cheiro, a fumaça, essas faixas de pedestres idiotas. Esses pombos folgados..aaaaa……não suporto mais. Se a gente ficar aqui, vamos acabar indo na casa do Antônio, e me dá enjoo só de pensar. Você bebendo num canto, eu suportando a mulher dele contar dos tricôs e da bíblia. AAAAAA…não, não. E depois a gente sai de lá, volta pra cá, tu tá com preguiça demais pra qualquer coisa, eu vomito meia hora, tu ri meia hora, e depois ainda fica me pedindo um boquete atrás do outro. Meu bem, por favor, só dessa vez. Quem nos convidou foi a Paloma. Já confirmaram o Dirceu e o Roberto, e tu já me disse que vê estilo neles. Ainda vai um cara que só a Isis conhece. A Isis você lembra né? Aquela puta galhuda que dá detalhes da vagina pra todos. Você já me disse que gosta dela também. Vamos??Ahn? Ahn?
– AAAA, tá porra, vamos.
– AAAA, meu bem. Não faz essa cara. Quer um boquete?
– Não.
Saiu saltitando e cantando uma musiquinha chata. Foi avisar Paloma por telefone. Voltou com a mesma musiquinha, um inglês moído estava famosinho com ela. Todos cantavam aquilo, e saltitavam, uns até rodopiavam. Imaginei que esse cantor tivesse um pacto com o diabo e fiz essa contraproposta: “Ouça-me seu diabo, você já fez pactos muito melhores que esse, algumas almas que você colheu valiam a pena, de verdade, mas duas coisas novas estão realmente me tirando do sério. Essa unha encravada, que só pode ser obra sua, e essa canção mela cueca, mela calcinha, mela meu humor, mela a paciência dos gafanhotos. Portanto, quantas virgens você precisa pra acabar com tudo isso? Aguardo resposta. PS: Por favor não esqueça da unha”. Nunca obtive resposta.

O ônibus parou no ponto que solicitei, mas não por minha causa. As portas da frente abriram e uma mulher saltou rapidamente pra dentro. Fecharam-se as portas e logo um repentino solavanco de arrancada. Minhas portas nem sinal de serem abertas.
– COBRADOR!! COBRADOOOR!!!
Minha voz saiu aguda e engasgada. Os olhares emburrados e devastadores se encheram de graça.
– COBRADOOOOOR!!! COBRADOOOOOR!!!
O filho da puta estava com fones de ouvido e o ônibus só não saía do lugar por estar em uma avenida movimentada. Saí correndo pelo corredor, até que ele me viu e tocou a sineta secreta, aquela que somente os motoristas entendem. Consegui sair do ônibus. Caminhei por no máximo dois minutos até me deparar com um cabeludo cheio das artes me pedindo cigarro. Já tinha um bafo de cachaça forte, por isso não era nada tímido. Dei um cigarro e perguntei:
– E o que você tem aí pra minha mãe?
Não entendeu.
– Dessas artes suas aí. Me dê uma – falei.
– Aqui é maluco de estrada camarada!!
– De qual estrada?
– De todas. Vou lhe dar uma, claro, porque sou maluco de estrada. Não me importo, ontem dormi embaixo da ponte, vivo de camaradagem. Raaaaaaa, qual você quer?
– Qualquer uma, estou atrasado, mas nem tanto.
Com muita dificuldade conseguiu retirar uma pulseira verde atada a uma coisa branca com dentes, uma pedra talvez, carnívora. Alcançou-me, agradeci.
– Aqui é maluco de estrada! Raaaaa – ele disse.
– Ok. Até amanhã.
Já tinha cruzado vários desses, sempre iguais. Certa vez, meses antes, foi com um malabarista sentado em um gramado ao lado do semáforo. Tinha tatuagens no pescoço, piercings na boca e no nariz, um cheiro azedo vinha do cabelo rastafári. Passando ele puxa papo:
– Não tenho dinheiro irmão, ninguém valoriza minha arte. Estou passando fome. Tem uns trocados?
– Tenho cigarro. Quer um?
– Pode ser irmão.
Retirei do bolso o maço, dei uma olhada, só mais cinco.
– Infelizmente irmão só tenho mais um – falei.
Guardei o maço, demonstrei interesse:
– Então irmão, faz tempo que manda esses pinos de boliche pro ar?
– Me dá esse crivo aí.
– Sem chances.
– Pô irmão.
Levantou-se. Cerrei o punho direito.
– Vou lá que o sinal fechou – ele disse.
Observei sua arte. Deixou cair um pino no meio da apresentação, mas no mais tinha se saído bem. Passou pelos carros com uma mão na posição de concha de sopa. Não recebeu nada. Veio sentar de novo, com uma cara de abóbora em depressão pós-colheita.
– Porra irmão, ia te dar cinquenta reais se não deixasse aquele pino cair – falei pra ele.
– Que? Respondeu.
– Olha só cara. Tu tá fazendo isso errado. Essas pessoas te acham uma sanguessuga, e eles não deixam alguém assim como você sugar o dinheirinho deles, eles preferem serem comidos pelos patrões, entende? O que você vai fazer daqui pra frente é o seguinte. Escolha uma esquina da cidade, movimentada, e fique nela durante três meses, todos os dias. Faça teu malabarismo como nunca fez, aperfeiçoe, e ao acabar, não vá pedir dinheiro, porque é isso que eles esperam, porque eles são assim, tudo que fazem colocam preços. Apenas cumprimente os motoristas da primeira fila, saia andando e sente ao lado da rua. Mostre superioridade, eles amam isso. Logo logo sua fama irá se espalhar. Chegarão na roda de amigos e esposas e citarão você. “Vocês viram aquele paspalho que faz malabarismo de graça no sol e na chuva? Como alguém consegue fazer isso?” Sem demora alguns vão te chamar pra lhe dar alguns trocados pela janela e te apertarão a mão, vão querer te igualar a eles, cada vez mais. Você se tornará personalidade, aquela esquina ficará congestionada, haverá palmas, você será um herói, dando alegria para humanos de graça, tipo Deus.
– E como eu faço pra comer nos primeiros meses?
– Sei lá, vende um piercing por dia.
– Tu tá maluco. Vou pro lá pro sinal.
Ainda fiquei olhando, continuando meu trajeto, e lá foi ele com sua conchinha.

Com a pulseirinha verde em mãos andei mais uns cem metros até encontrar uma árvore e amarrá-la no galho mais fino.

Passado envelhecido ( VIII )

Saí do bar e passei por entre as mesas agrupadas na calçada. Todos felizes, sempre. Atravessei a rua e desci os três degraus de uma escada até entrar no território. Uma árvore me deu vontade de mijar, então me apoiei nela e reguei, ao que uns sons mínimos de violão harmonizavam aquela intimidade homem/natureza. Só quando parei de mijar que vi o músico, voltei pra sentar na escada e logo ao lado um cabeludo com boné militar dedilhava seu violão, concentrado no instrumento, sem cantar.
– Hei cara – falei – toca mais alto.
– Não quero tocar mais alto – ele respondeu. Com toda razão, eu era uma platéia ignorante e surda.
– Ok cara, toque baixo, logo uma mulher chegará aqui com uma cerveja e uma mão desinfetada pra te ouvir também.
– Sua mulher?
– Sim. Não a conheço mas é minha.
– Pode crer.
– O que está tocando?
– Uma música minha.
– Uma música sua só pra você ouvir? Acho justo.
– Quer ouvir?
– Sim, eu e a árvore.
Agora mais alto era possível ouvir o violão e seus tons obscuros. O local padecia de luminosidade, uma coleção de sombras organizava o lugar pra ninguém ver. Ouvi sua música sem falar nada, nem a árvore, nada de aplausos, somente a última nota satisfeita.
– Essa é minha música – ele disse.
– Show, e essa que vem vindo aí atrás é minha mulher.
– Essa de touca?
– Touca e cerveja. Bem ela.
Ela sentou ao meu lado, então lhe dei o primeiro beijo da noite e apalpei-lhe os peitos firmes por baixo da blusa. Seios feitos pela medicina, a segunda mulher com silicones na minha vida que tocavam a palma da minha mão, batendo palmas para Ramon, palmas para a música do cabeludo, palmas para a árvore mijada, palmas para a nova vida e bunda de Dóris, palmas para os trinta e um dentes do Jaimir, a mesma mão de uns dos piores escritores do mundo alisava a pele costurada de Glória no sentido horário e anti-horário, apertando e sugando o tempo, a sombra e as notas musicais do violão. Por fim, nos desvencilhamos antes que os silicones começassem a rolar pela escada.
– Trouxe cerveja. Quem é esse cara? Ela perguntou-me.
– Não sei – respondi.
– Hei cara! Quer cerveja?
– Quero.
Levantou-se e levou a garrafa até ele, que estava há uns três passos da gente. Ele bebeu no bico e agradeceu.
– Qual seu nome? Ela continuou.
– Claudio e o seu?
– Glória. E esse daí é o Ramon – apontou o dedo pra mim.
– De onde vocês se conhecem?
– Do bar – eu disse – tirei a touca dela e se apaixonou por mim.
– Haha – ela riu – Toca algo pra gente ouvir Claudio.
– Pode ser – falou preparando as próximas notas.
Ele não cantava, só tocava, isso criava um ambiente funeral, e porra, eu não podia morrer antes de comer a Glória. Esperei ele acabar sua música instrumental e pedi o violão. Não conseguia lembrar de nenhuma música que sabia inteira e devolvi o violão.
– Hei Cláudio – eu disse – toque algo que você possa cantar também.
– Vou tentar.
– Glória, me alcança a cerveja.
– Tá aqui Ramon.
Queria ir pra casa já, pra dela, pra minha, pra qualquer casa, mas ela permanecia mais elétrica do que nunca, suas pernas eram boas e o violão entusiasmava sua noite ao lado de um músico mudo e um trabalhador exausto. Era o pó, eu não teria chances com ela. Comecei cogitar a hipótese de perder a mulher pro músico, e isso sim naquela hora seria pior do que perder um dente da frente. Deixei Glória falando com ele um tempo e fiquei bicando a garrafa até acabar.
– Hei vocês dois – eu disse – ficamos sem cerveja.
– Sem problemas Ramon, vou até o bar pegar mais uma – ela disse.
Mijei na árvore por longos segundos. Às vezes alguma pessoa passava por ali, mas era raro e ninguém notaria três milímetros a menos, se bem que mole parecia ter um quilômetro abaixo da média.
– Me empresta esse violão.
Toquei umas notas até onde conseguia lembrar delas, depois tentei lembrar de uma música que tinha composto aos vinte um ou vinte dois anos, a letra dela era assim:
“Nove meses abra os olhos
Indiferente do que ver e verá
Os sorrisos não são falsos ali
Não é tempo de se preocupar
Que coisa linda é o que dizem de ti
A bondade estampada em si
Um fantoche bem cuidado
Em anos vira zumbi
Obedecer, se defender, criar seus próprios momentos de lucidez
Geralmente é algo passageiro
Tornando visões reais
Ao seu jeito e ao seu modo de ver
Você ainda é capaz de obedecer, se defender, criar seus próprios momentos de lucidez”
Era impossível lembrar, realmente estava cansado. Pensava comigo que já tinha meio conto pra escrever, mas seria muito melhor terminá-lo com uma trepada. Ela voltou com a cerveja e sugeriu descermos até um gramado que se situava em nossa frente, há uns dez metros. Concordamos e fomos lá. No que sentamos pude ver uma alma transportando alucinações por perto da escada que recém tínhamos deixado, com um jeito peculiar de andar e observar.
– Ô filho da puta! Gritei pra alma.
– Quer ver um filho da puta na minha zorba? Quer? Quer?
Ele não conseguia distinguir quem éramos, ou melhor, quem era o filho da puta que o chamava de filho da puta.
– Eduard seu pateta! Junte-se a nós!
Deu uns passos por meio das sombras e começou rir quando me viu.
– Porra Ramon! Quase tiro o pau pra fora.
– Senta aí e bebe essa cerveja. Onde estava indo? Perguntei.
– Saí pra dar uma volta. Quem são eles?
– Essa é a Glória, aquele é o Cláudio, e o violão não sei o nome.
– Vamos pra praia? Já indagou Eduard.
– Vamos!! Respondeu calorosamente Glória.
– Não vou – respondeu o aborrecido Cláudio.
– Vamos pra qualquer lugar – respondi.
– Hei Cláudio, anima e vai tocar um violãozinho na praia! Estou de carro – continuou ela, realmente excitada com a proposta.
– Não quero Glória, podem ir, vou pra casa.
Bom, não perderia a mulher pra um músico, no máximo pro meu único amigo. Nos encaminhamos ao seu carro, até então desconhecido, em um estacionamento. Até o momento eu encarava Glória como aquela história de alguém indo fazer uma entrevista no hospício e encontrando um paciente conversando com uma árvore no meio do pátio. O entrevistador pergunta:
– Sinceramente, pensa comigo agora, você não acha maluquice um ser humano conversar com uma árvore?
E o paciente responde:
– Maluquice seria se ela não estivesse me respondendo.
E pra mim, nós dois éramos as árvores.
Antes de entrarmos em seu carro, ficamos dando instruções pra ela conseguir manobrar. Quando conseguiu virar e endireitar a ponta do carro, parecia em fuga.
O Eduard voou para o banco traseiro e eu sentei na frente.
– Preciso ir pra casa trocar de roupa – disse ela.
– Acelera isso aí Glória!! Disse Eduard, chegando a Marte flutuando.
Eu queria rir, rir do dia inteiro. Éramos todos marionetes impulsionados pelo fervor das emoções. Podia ver nas manchetes “Metido a escritor morre afogado antes de comprar seus livros. Editora contata a família, e mãe responde: Não sei de nada, não pagarei nada. Meu filho escritor? Pra mim não passava de uma grande decepção que não queria estudar e nem tomar água”. E eu vazando água salgada pelo cu, provando mais uma vez que se a sede mata, a água também.
Enquanto ela dirigia eu passava minha mão em suas coxas, suas sensações a faziam dar uma pisadinha a mais no acelerador, o carro então parecia um coração com arritmia, bombeando Ramon, Eduard e Glória pelas vias circulatórias, três glóbulos vivos boiando através do álcool, maconha e pó respectivamente.
– Acelera Glória, acelera! Continuava o Eduard.
– Não anda mais que isso! É 1.0! Qual seu nome mesmo?
– Eduard. Já esqueceu?
– Me desculpe.
Que belas pernas. Enfiei a mão por dentro do shorts e só aí que percebi, estava sem calcinha e não se depilava há tempos, talvez essa fosse a promessa, raspo a cabeça e encabelo a buceta. Deixei que meus dedos ficassem presos, dando nós e nós. 1.0, pé no fundo, rumo a sua casa, precisava trocar de roupas.
Chegamos lá em torno de sete minutos após sair do estacionamento. O portão foi aberto pelo controle de dentro do carro, por ela óbvio. Acelerou e subimos uma rampa até a garagem. A casa era imensa só de olhar por fora. Dois andares, uma porta frontal, uma sacada no segundo andar com mais algumas janelas ventilando o ambiente. Embaixo somente uma janela, a do seu quarto. Dois carros a mais que o 1.0 estavam estacionados na rampa. Um gramado ainda completava o terreno até as cercas laterais.
– Podem entrar – ela disse. E foi correndo pro seu quarto.
Por dentro era surreal a visão. Uma guerra com mais de quinhentos combatentes não teria bagunçado tanto a sala. Algumas facas espalhadas pelo chão, com panelas, travesseiros, em torno de trinta maços de cigarros lacrados, cobertores, um pau de borracha, belas calcinhas, e tantas coisas absurdamente agrupadas naquele espaço sagrado, afinal, por trás de tudo ainda havia um altar montado, com uma santa abençoando anjinhos menores e cheirando a fumaça das velas queimando lentamente.
– Que loucura! Disse Eduard.
– Podem entrar aqui! Ela gritou do quarto.
Seguimos a voz. O quarto também, cenário de uma guerra, a guerra de Glória contra o mundo, e dois soldados sobreviventes faziam o reconhecimento do terreno, pisando devagar, tentando encontrar uma simples razão pra tudo aquilo antes que explodíssemos em uma mina terrestre, uma mina loira de cabelos curtos, extremamente receptiva e amável. Ela já vestia uma calça preta com uma camiseta branca, olhava-se no espelho e não se agradava com o que via.
– Está linda Glória – falei.
– Está demais! Disse o Eduard.
– Estou horrorosa – completou ela.
– Você disse que não queria ficar bonita mesmo.
– É Ramon, nem bonita nem horrorosa.
Abriu uma porta do seu guarda-roupa e retirou três perucas. Uma vermelha, uma rosa e uma loira. Fiquei somente observando sua naturalidade em desviar das tralhas e pisar nos poucos pontos vagos do piso, só com a ponta dos pés. Granadas, granadas, granadas em sua vida, e ela usaria todas pra se defender e pra ganhar sua guerra, a guerra de Glória contra o mundo, Glória contra Glória.
– Qual peruca você prefere Ramon?
– Preciso vê-la com todas pra saber.
Primeiro vestiu a loira.
– Tenta outra – falei.
Vestiu a rosa, parecia uma boneca com olhos de bruxa, nada tinha a ver com ela.
– Não gostei – eu disse.
– Também não.
Então só restava a vermelha, a mais comprida, chegava até sua bunda e a tornava demoníaca, uma espécie de brasa queimando seu corpo, fazendo-a brilhar em meio à guerra, como um sinalizador único, mantendo-se aceso por trinta e um anos e fervendo suas entranhas, conservando suas volúpias aquecidas e endurecendo meu membro.
– É essa – falei. Agarrei-a pela cintura e nos beijamos.
Acariciou meu pau por cima da calça e disse:
– Vamos pra praia!
Fui pra fora da casa enquanto foi procurar a chave de outro carro. O clima era mais gelado que o normal, o vento batia em mim e no Eduard, fazia a chama dos cigarros iluminarem-se, a noite seria longa, Ramon não escreveria nada naquele dia, se era um conto que procurava naquela tarde quando se juntou aos parceiros de emprego para uns goles, havia encontrado muito mais.
Ela saiu pela porta, trancou-a, estava apressada e entusiasmada, uma bunda apressada e entusiasmada, peitos apressados, entusiasmados e siliconados, que antro feminino e diabólico.
– Desculpem a demora – ela disse.
– Posso dirigir? Perguntei querendo um “não” como resposta. Estava tonto, consciente mas tonto, ao ponto de querer dirigir após dois anos parado e bêbado.
Jogou-me a chave e disse de qual carro era. Podia ver nas manchetes “Metido a escritor arrebenta carro em árvore com mais dois ocupantes, mas só ele morre, graças a Deus antes de publicar um livro inteiro. Editora e os dois sobreviventes do acidente cobram suas dívidas e mãe responde: Meu filho escritor? Nunca ouvi falar. Um carro novo? Não sei de nada. O imprestável só morreu porque não sabia beber água”.
Fomos até a minha antiga moradia pegar a vodca e a erva.
– Já volto aí – disse Eduard ao fechar a porta traseira do carro.
Tirei os peitos dela pra fora e comecei mamá-los no banco do carona.
– Para! Para que tá frio!
Estupendos, uma cirurgia bem feita.
– Huuummm Ramonnn Huuummmm.
Mordi e lambi, enquanto deslizei a mão, soltei os botões de sua calça e com certa dificuldade infiltrei minha mão até o molho. Que sensação ótima molhar os dedos, morriam afogados como um caldo de galinha. “Afogue-nos Ramon! Afogue-nos!”, e eu afoguei-os.
– Huuuummm Huuuummmm
– Vou te foder Glória, vou te foder aqui.
– Não vai, huuuuummmm, não vai Ramon, huuuuummmm
Tirei a mão do molho e abri o botão da minha calça, foi quando a porta traseira se abriu e o Eduard entrou.
– Pronto – ele disse – podemos ir.
– Vamos lá Ramon, vamos pra praia!
Abotoei as calças e desci o morro íngreme, dava graças a Deus por não precisar subi-lo a pé todos os dias.
– Pra qual praia vocês querem ir? Não sei chegar a nenhuma – falei.
Eu era guiado por ela, só andava devagar, virava e parava nas esquinas.
– É por ali.
– Ok Glória.
Não lembro depois de quanto tempo chegamos. Nem que horas eram, mas lembro do vento e do cachorro solitário que guardava a praia pra si, sentado na areia, somente ele naquela imensidão que fazia sua curva sem pressa entre o mar e as rochas. O cão rosnou ao nos ver pisando na sua areia, no seu momento de reflexão. Sentamos em uma parte mais escura, eu com a vodca, Eduard tentando acender seu fumo e Glória olhando para todos os lados.
– Vou procurar um lugar pra cheirar essa bucha – ela disse.
Foi se arrastando contra o vento, contra a areia, contra a guerra e o mundo, Glória e sua glória. Deslacrei a vodca, dei um gole pra esquentar.
– Que incrível esse céu – ele disse.
– É o mesmo – eu disse – só está carregado e escuro.
– Pra onde ela foi?
– Não sei. Tô cansado.
– Para com isso. Relaxa e aproveita.
– Quero dormir.
– Que horas são?
– Hora de dormir.
– Também to com sono. Quer dar uma bola?
– Não.
– Então dá uma cheirada e acorda.
– Não vou cheirar nada. Quero dormir cara, gosto de encher a cara e dormir, é como um pacto, depois de encher a cara dormir, dormir pra sempre.
– Não vai trepar?
– Trepar e dormir. Ou talvez dormir enquanto trepo, ou trepar enquanto trepo, ou dormir enquanto durmo, to acabado.
Nesse instante ouvimos uns gritos parecidos com uivos, vinham de uma escuridão atracada em nossas costas. Era Glória correndo e gritando, no caminho desvencilhou a peruca da cabeça e continuou gritando, uivando e correndo. Passou por nós erguendo areia por trás dos calcanhares e seguiu em direção ao mar. Estava possuída, derrubaria um trem dos trilhos, mantinha uma linha reta. Alcançou a água, o oceano notou seus pés afundando e apavorando suas águas frias e poderosas.
– O que ela está fazendo? Perguntei pro Eduard.
– Não sei. Acho que foi nadar.
– Porra, nesse frio?
– Ela não sente frio. O mar que cuide dela.
Dentro do mar ela ainda gritava e batia as mãos. Passava as mãos sobre a cabeça quase careca.
– Entrem vocês também! Ela gritou de lá.
– Se entrar eu durmo! Gritei de volta.
Passados uns dois minutos ela não aguentava mais o frio. Saía do mar na mesma velocidade com que tinha entrado. Sentou-se ao meu lado tremendo e molhada. Me deu um beijo e me chamou para ir atrás da sua peruca.
– Já voltamos – falei pro Eduard.
Ele concordou com a cabeça e deitou-se na areia. Caminhamos um pouco, peguei sua peruca e coloquei na minha cabeça, mas nem aquele vermelho me fazia esquentar, pensei que ela morreria na volta, toda molhada, mas ela tinha algo que a mantinha mais viva do que eu.
– Vamos até aquele muro ali em frente. Quero cheirar o resto. Depois vamos pra casa – finalizou.
Eu estava a ver navios, concordaria com qualquer coisa desde que fossemos pra casa. O vento começava me sufocar e abalar minhas tripas. Calafrios corriam dos calcanhares até os cabelos. Queria dormir, só isso, trepar e dormir, ou só dormir já estava bom. Ela deu sua cheirada milagrosa e estufou os olhos.
– Você fica lindo com essa peruca Ramon. Eu te amo.
– Sim Glória, podemos ir pra casa agora?
– É sério, eu te amo.