ontem à noite

em alguns momentos o sujeito já velho
se pega revivendo um ou outro detalhe
que ficou para trás
simples momentos perdidos na linha do tempo
como sua mãe lhe chamando para jantar
em um dia qualquer de sua infância
você lembra exatamente da voz que ecoou
de sua casa até a rua onde você jogava futebol
e perdia as unhas do dedão. quantas vezes, não?
lembra de sempre gritar que eram só
mais uns minutinhos e você iria para casa
e então anoitecia e a velha aumentava o volume
das chamadas, e então quando já quase não dava
para ver a bola ou os outros meninos
você enfim ia para casa, chegava correndo
lavava rapidamente os pés no tanque e depois
entrava para o café que já estava na mesa
por vezes jantava com a família
mas quase sempre, sozinho
e então você esquece do motivo
de estar pensando nisso
como se fosse senhor de si
e por um momento aprecia a nostalgia sentida
de alguma maneira parece que você vivia
diferente de hoje quando todas às unhas crescem
até furar o sapato mas não caem por um bom motivo
ou mal que o seja, e então você recorda de outra vez
que se cagou nas calças enquanto corria
para buscar o chá que a velha pedia
e achando que dava tempo de voltar
se borrou todo feito um sonho macio e quentinho
e se pega rindo depois de dias de cara fechada
depois de dias sem motivos para rir, você ri!
ri de si mesmo e de sua antiga e agitada vida
hoje você não tem coragem de perder uma unha
não vive para tanto, nem se dedica à merda alguma
tem passado os dias esperando a morte
que não merecida não aparece nem para um
“olá, tudo bem? vamos dar uma volta?”
você acende um cigarro para o Sol
que permanece debruçado na janela
mesmo quando o dia já se foi e você continua
com as mesmas perguntas na cabeça;
que merda de vida é essa? que porra de dia
foi esse? será que já não entreguei tudo?
será que preciso estar presente
amanhã? e você já não sabe
o que responder para qualquer pergunta
para qualquer pessoa, muito menos para você
que continua debruçado ao Sol ouvindo a mesma música
delirando nesse calor existencial que brota
de dentro de ti, queimando tudo
feito um Sol de ontem todo
imundo.. e isso queima e permanece
até que se torna insuportável
e você já esgotado, por hoje
fecha as cortinas
e se atira
à cama.