Passado envelhecido ( XVII )

Há dois meses eu tinha terminado um relacionamento de brigas, injustiças, abstrato e basicamente resumido a sexo, bebida e fragmentos gentis, um treco estranho, lindo por vezes, mas que devia chegar ao fim, antes que eu ou ela morresse de fome, ou sufocados, um pelo outro, matutando nós mesmos, os esquisitos da praça de alimentação, que não sabem o que comer, mas sabem o que cagar. Depois da turbulência me isolei um tanto em casa, pensando demais no alcance e nas frequências das pequenas coisas limitadas. A ansiedade me revirava o estômago, precisava de algo, um problema qualquer sem solução. Variava em ideias e tempo perdido. Naquele dia recebi uma ligação das boas.
– Alo – atendi.
– E aí seu verme!
– Verme é o que tem na bunda.
– Não vai desligar na minha cara de novo!
– Quem é? Perguntei.
– É o Peter! O que está fazendo?
– Nada e você?
– Te ligando. Lembra-se de mim hoje? Semana passada te liguei e você disse que não conhecia nenhum Peter, e depois não atendeu mais o telefone.
– Claro que eu sei quem é você. Naquele dia estava ocupado. Azucrinou-me com as ligações né, seu doente.
– Foi mal cara, precisava de um favor.
O Peter eu considerava um monte, era do tipo religioso devoto, sua vida tinha mudado muito depois da entrega, já tinha me convidado algumas vezes pra ir até sua igreja, mas sempre neguei, claro, mesmo sempre acreditando em algum tipo de Deus, eu não estava botando muita fé nele, em Deus. Embora preso em toda sua filosofia divina, Peter ainda andava papando uma mulher casada, disse-me que alguns mandamentos divinos não podiam ser levados totalmente a sério, principalmente esse, da cobiça e da luxúria, da coceirinha pra traçar a mulher do próximo. Pecador ou não, aproveitava, o poderoso aparentemente nem ligava, continuava enchendo-o de indulgência, volúpia e amor próprio.
– O que você quer? Indaguei ao telefone.
– Quero te levar pra igreja hoje!
– Enlouqueceu?
– Porra cara, se permita hoje, quem sabe consiga alguma mulher depois da missa.
– Quer me levar pra igreja trepar? Eu posso trepar a qualquer hora seu pederasta preocupado. Vai pro inferno!
Na verdade as coisas estavam mesmo difíceis. Depois da relação suicida, tinha achado uma branquinha de cabelos verdes, baixinha, olhos claros, que transparecia a tradicional violência juvenil. Valquíria seu nome, fomos beber e fumar sua erva num lugar barulhento. Uma espécie de festival mal organizado rolava por lá, com bandas também desorganizadas. Não tínhamos nada de íntimo, mal falávamos, ela pro seu lado, eu pro meu, nada melhor pensei.  Depois a trouxe pra casa, sem muita dificuldade, seu sexo devia ferver, eu nunca soube. Deitamos na cama e fui chupar seu veneno. Buceta pequena, depilada, cheirinho de coisa nova, como abrir um vinho dos bons, odor de vitória. Gozou com minha língua dura de trago entre suas pernas, e com meu dedão enterrado no seu cuzinho apertado, um cu de fato, protegido e firme. Na minha vez de gozar, meu pequeno pau blasé cochilava prazerosamente, nem ligava pra coisa gozada e aberta, como os portões de um castelo invadido por uma tropa romana de saliva, bem em frente. Meu estado de embriaguez mórbido acabara me punindo, mas não era hora de desistir. “Me chupa tarada” falei, “Eu não” respondeu. “Estou em apuros Valquíria, faça algo logo”. Deitada de costas pra cima já, começou procurar meu pau sem olhar, tive que coloca-lo em sua mão. Puxava meu couro como se fosse queimada a cada vez, friamente, bruscamente, nada incentivador. “Devagar merda!” gritei, com certa dor já. Deu mais umas puxadas, aí arranquei-lhe o pau da sua mão, deitei e dormi. Acordei de pau duro, ela já tinha ido embora, pra sempre, como o sarampo. Depois de mais uma semana sem sair de casa, uma outra mulher me ligou. Recém mudada pra cá, queria chupar uma pica com outro clima. Fui escolhido. Clara provinha de Porto Alegre, a conheci na rodoviária. Seus cabelos eram coisa nova pela cidade, destrambelhados e encaracolados, difícil de se ver por aí, quase todas as mulheres daqui ocupam-se com seus cabelos, mais do que com seus maridos ou qualquer outra coisa. Seu corpo era dos bons, não posso dizer que era feia, muito menos bonita, um meio termo médio. Ao contrário de Valquíria, nosso clima foi amigável nesse contato de conhecimentos. Fluía um flerte na casa, mas de fato, não tinha certeza que queria me dar. Deixei-a ir ao banheiro para atacar na saída da porta, depois de uma secada tudo estaria equilibrado, recomposto, a sensação de novo, ela não teria tempo pra negar minha investida. Agarrei-a pela bunda e dei-lhe um beijo dolorido até os dentes. Sufoquei, um clinch de boxe, sua respiração trafegava por todo corpo, suspirava, podia senti-la dentro dos meus pulmões. Apertei suas nádegas, uma contra a outra, trancadas num estado de ópio, não podiam fugir, nem queriam. “Vou te foder nas nádegas”, sussurrei, “Hoje não” ela respondeu. Fomos nos beijando até a cama, seu cabelo era dos grandes, espantados, assustados, tirei suas tetas pra fora, tinha um piercing no mamilo esquerdo, lambi pra enferrujar. Siririquei aquela buceta magistralmente, mas ela, como todas as mulheres, não sabia nada de punheta. Se aquela coisa de preliminares sempre foi importante, eu já não sabia, porque ela gemeu alto e chegou ao orgasmo em poucos minutos, no máximo dois. “Olha o que faz comigo”, ela disse. “Quero ver o que você faz comigo”, respondi. Enquanto me chupava, com a bunda bem perto da minha cara, desvencilhei meu tabaco da sua boca, agarrei-a com toda força pra joga-la em cima de mim. “Você não vai me comer hoje!”, “Vou sim!” respondi, “Não vai não, se quiser gozar, vai ter que ser na minha boca”. Lá estava eu, novamente em problemas e suicídios. Há um tempinho atrás fodia todo dia, e agora, a cada tentativa, novos obstáculos, mas o que eu sabia das mulheres? Sei tanto quanto sei da Arábia Saudita. Todas com novas barganhas, e sou péssimo negociador. Eu era o problema, pensei, nunca mais iria transar, porque eu era o infinito palerma sem emoções. Tentei jogar suas pernas novamente, como uma bola de basquete pra cima do meu propósito. Ela me empurrou com uma força medonha, minha cabeça afundou no travesseiro. Agarrou meu pau e lambia só com a ponta da língua. “Goza na minha boca logo!”, “Sua trapaceira dos infernos, chupa essa merda”. Com tudo terminado naquela boca gaúcha, toda minha vontade se resumia em ela ir embora, e foi o que fez, ela sumiu pra sempre, como um feto abortado. Falhei nos colhões e na paciência com essas cordeiras assustadas.
Voltando ao telefonema.
– Calma cara – o Peter respondeu – não é nada disso, mas estou preocupado com teu espírito, tá degradado, você não fala quase nada, vamos consertar isso na missa de hoje.
Se tinha uma coisa que eu pensava da igreja, era que não conseguiria ouvir um padre apoiado em suas crenças salvadoras, sempre baseado em passagens milagrosas, como se pudéssemos transportar as maravilhas do “ser supremo” para a atualidade. Delírios. E tem outra coisa, se Deus desse tanto valor pra sua palavra, não teria deixado o homem escrever, porque o homem distorce e parabeniza. Minhas lembranças de ir até a igreja eram distantes, antigas, de catedral lotada. Era sempre um silencio lá dentro, só alguns burburinhos, pessoas se olhando, querendo demonstrar mais fé que as outras. Gostava de observar a hora da hóstia. Uma fila enorme, um cântico alto, o padre no centro, distribuindo moedas de pão. Já tinha ouvido que ninguém podia mordê-la. Eu nem era crismado ainda, portanto não podia saciar o cofre do estômago, salvo algumas vezes que distribuíam pãezinhos benzidos. Minha mãe sempre foi devota, ajoelhava ao meu lado e fechava os olhos. As vezes eu imitava, ficava de joelhos e imaginava o que eu tinha que dizer naquela hora. Eu só pensava em perder o cabaço, mas não parecia justo pedir a Deus conseguir transar, ele já tinha me dado um pau, uma boca e um bilhão de mulheres comíveis no mundo.
– Está bem Peter. Vou à igreja com você.
Poderia ser um problema, e era o que eu precisava.
– Tá bem Ramon, passo aí as quatro te pegar.
– Beleza Peter, beleza.
Tentei lembrar algumas orações ao desligar o telefone, fiquei eufórico. Seria o mais enlouquecido lá dentro, rezaria como um fiel, eles teriam inveja da minha fé, eu, um barbudo ermitão, dando lições ao padre sobre crença. Aleluia! Aleluia! Sou um fanático, um possuído, dai-me forças senhor, e eu acabo com eles. Vamos cantar putedo! As virgens comigo na primeira voz! E os leprosos da angustia na segunda! Cordeiras, rameiras, eu lhes prometo o suor eterno! Mandai hóstias padre! Mandai o vinho padre! O sangue de Cristo embebeda! Literalmente! Em doses altas afaga, e até dá uns privilégios submersos na inquietação banal de nossas vidas papelistas e carbônicas!!
Como pretendia estar embriagado por outros meios, eu nada tinha a temer.Abri uma garrafa de vinho, era 13:00. Permaneci sentado, estático, tal qual uma barata envenenada, ou um boi morto, ou um ser humano morto, centrifugando meu mundo parado, como uma massa de modelar humana, moldada sem ambição.
O telefone tocou novamente, era Patrícia e sua voz corrosiva.
– E aí rabugento.
– Fala chupeta, beleza? Perguntei.
– Beleza. Vai fazer o que hoje?
– Vou à missa, e você?
– Na missa? Fazer o que na missa?
– Sei lá. Comprar uma bicicleta.
– Aposto que foi o Peter que te convenceu!
– Sim, foi ele.
– Ah! Ele é um homem bom, devia andar mais com ele. Por que ele nunca me chama pra ir com ele?
– Não sei
– Eu sei onde é a igreja dele. É aqui perto da minha casa. Acho que vou dar uma passada lá então depois. Que horas é a missa?
– As quatro ele vai passar aqui.
– Tá bem, te ligo.
– Certo
A Patrícia mantinha contato comigo apenas porque era louquinha pelo Peter, mas ele, por algum motivo não via nada de interessante nela. Em certa ocasião já tinha me dito que fora estuprada com nove anos, por dois caras. Eu, como um blasé sórdido que sou na maior parte do tempo, não senti nada ao ouvi-la, tampouco suas palavras demonstraram tristeza, acho que ela se agarrava àquilo, ao podre, afinal, podia acreditar que nada de pior pudesse acontecer em sua vida, era uma garantia, o estupro.
Voltei pro vinho, o sangue fermentado, queria ficar quente, salpicar um tremendo reboco de fantasias de uma vida melhor. Deus me apoiaria. Sairia da igreja renovado, faria uma suruba com nove mulheres, perderia meus medos, o símbolo seria revelado só para mim, flutuaria por entre as estátuas dos santos, que rezam na mesma posição há milênios, com seus cajados e ovelhas bem pintados, Santo Antônio não iria me casar, nem São Brás me afogar. Nada, nada, nada, só mais um gole, por favor.
Terminei a garrafa, dava tempo pra mais umas latas de cerveja. Pensava em como o Peter estava se preparando pra missa. E a Patrícia? Casaria com aquele religioso se pudesse. Eu bem que queria algo com ela, mas já me tirara as esperanças.
As quatro horas eu já soltava um fedor de álcool pelas narinas, e a fumaça dos cigarros tinha colado pela roupa, mas tudo bem, eu não comia a mulher de ninguém nesse tempo, não roubava, não matava, ligava pra minha mãe uma vez por semana, ela sempre atendia dizendo “Tá vivo?”, e eu respondia “Infelizmente”, e ela suspirava comovida, guardava os domingos e toda a semana pra mim, enfim, minha cruz era de papel rabiscado com o jogo dos velhos preparados pra morte.
Ouvi uma buzina, abri a porta, o carro estava lá, me esperando, um Fiesta acabado, era ele.
– TÔ INDO! Gritei sabendo que ele não me ouviria.
Minhas pernas estavam fortes, queriam andar. Fechei a porta da casa e desci as escadas, entrei no carro.
– Há quanto tempo! Ele disse, vestido com seu sorriso bondoso.
Estendi a mão, cumprimentei-o, meu cheiro anunciava o descontrole.
– Tá indo pra igreja bêbado?
– Sim – respondi.
– Isso é pecado!
– Quem disse?
– Meu Deus, só fique quieto lá dentro.
– Vamos logo, antes que eu esqueça algum mandamento e te mate.
Partimos, ele me perguntava coisas que eu não queria responder, então também fui na ferida.
– Escuta aqui Peter, adivinha quem me ligou hoje perguntando sobre você?
– Quem?
– A Patrícia
– Ah…
Trocou a marcha com desdém.
– O que ela tem de inaceitável pra você? Continuei.
Mais marcha, mais velocidade, mas nada incrível.
– Nada cara, só não sinto vontade por ela.
– Porra, mas ela é louca por você. Só come pra deixa-la feliz.
– Eu não sou desse tipo. Eu tenho que gostar das mulheres pra meter. Ela não me atrai.
Paramos no sinal, um vômito subiu junto com um refluxo gástrico. Consegui segurar.
– Você é um bom homem Peter – conclui o assunto.
Ele tinha seus princípios.
Seguimos até a igreja sem falar nada, acho que eu o aborreci. Pudera, a Patrícia era morena por todo lado, um marrom bico de teta por todo corpo, pernas, braços, cabeça, foi o máximo que consegui ver, seu cabelo era curto, sua cintura precipitava uma bundinha exata pro seu tamanho, as pernas compridas, eu criaria meus próprios princípios por ela.
– Chegamos – ele disse. E estacionou do outro lado da rua de onde ficava a catedral. – Fecha o vidro!
Girei a manivela dura. Que carro fodido. Ele trancou sua porta, olhou até a ponta superior da igreja, eu também, pescoços dobrados pra cima, parecia não ter fim.
– O que achou da igreja? Perguntou
– Alta – respondi.
– Tem que ver lá dentro. Esses caras que constroem são artistas. Vamos entrar que já deve estar começando.
Atravessamos a rua, uns outros perdidos estavam na escada de entrada, tentando achar o fim da igreja também. Passamos por eles, um som acolhedor já se escutava. Peter fez o sinal da cruz ao passar pela porta, fiz também. Por dentro parecia mais alta do que de fora. O teto era sublime, com grandes vidros coloridos, intercalando as cores amarelo e roxo. As estátuas estavam lá, presas, obrigadas a terem fé, alimentadas por almas tão paradas quanto elas. Tinha Jesus neném, Jesus adulto, Jesus pregado. Na face de uns pude notar uma inveja de Jesus, queriam ser ele, queriam fazer milagres, não suportavam a ideia de que não foram os escolhidos, por isso rezavam, tomariam o lugar dele se conseguissem, levariam pregos até no rabo pela imortalidade. Toda minha euforia desapareceu. Aqueles cães sarnentos sacudindo o rabinho. Minha crença, em qualquer coisa, não valia a pena compartilhar.
Sentamos em um banco, bem perto da porta. O altar estava lívido, não dava pra negar que era um ambiente de paz. Queria fugir, bastava. Eles padeciam em suas fés, não eram mais deles. A religião tinha capturado suas essências, eles poderiam sair da igreja e matar por um cacho de bananas. O cálice no altar não era novo, o sino não era novo, os próprios bancos que sustentavam bundas famintas não eram, nada era, tudo coisa velha, tudo me dava nojo. Por sorte meu telefone tocou quando cantavam e recebiam o padre.
– Vou atender o telefone – falei pro Peter.
– Por que não desligou isso aí?
– Pode ser Maria Madalena. Já volto.
Fez uma cara de desaprovação. Cão sarnento. Saí pra fora, era a Patrícia.
– Tá na igreja? Perguntou
– Estou caindo fora já. Onde está?
– Aqui na escadaria do prédio onde moro. Não vou aí. O Peter não quer me ver.
– Como eu chego aí?
Explicou-me, mas tive que ligar umas duas vezes pedindo informação das esquinas pra chegar lá. Quando cheguei, sua cara não era nada boa, ela deve ter pensado o mesmo da minha. Dei-lhe um beijo na bochecha, sentei ao seu lado nas escadas. Queria estuprá-la.
– Por que o Peter não me quer? Indagou.
– Não sei. Mas eu te quero.
– Mas você eu não quero.
– Então se foda.
– É por isso que não te quero.
Tentei lhe dar um beijo, só queria sentir o sabor dos seus lábios adubados com a dor, mas ela se protegeu com seus braços longos e iniciou uma gritaria: “Para com isso nojento! Eu vou te bater! Sai! Sai!”. Desisti depois que ela conseguiu se erguer e afastar-se, como se eu fosse um vírus mortal.
– Sabe de uma coisa – falei – o Peter não te quer porque ele tem princípios, coisa que não tenho. Sabe quem mais tem princípios? Os estupradores!
Em poucas horas já consegui algumas sensações. O vento mudou de cor, o barulho da cidade inteira se encolheu entre nós dois. Não sentia remorso de ter falado aquilo, afinal, eu não tinha dito “bons princípios”. Ela colocou as duas mãos no rosto, que nada mais tinha de marrom bico de teta. Fiquei olhando. Passou as mãos delicadamente por seus cabelos sedosos e sentou-se ao meu lado, bem próxima, começando um beijo louco e doce, doce, doce. Era meu milagre, essa era a fórmula, cinco minutos de missa pra conseguir uma mulher. Me sugava, me arrancava todas as forças pela boca, um beijo na lua, fadado ao apocalipse. O doce foi ficando salgado, e mais salgado, ela chorava, as lágrimas de sal grosso entrelaçavam nossas línguas. Puro ódio, fiquei desconfortável ao perceber. Tirou seus lábios dos meus, olhou-me como se eu fosse o assassino do seu pai, da sua mãe, da sua infância, dos seus sonhos desequilibrados. Cuspiu-me na cara.
– Porca! Resmunguei secando o rosto. Volumoso e espeço, um cuspe profissional.
Ela ria, lacrimejava e passava a manga da blusa em alguns pontos encharcados.
– O Peter que se foda com seus princípios. O mundo que se foda com seus princípios! Disse como uma forma de sustentação.
– Certo Patrícia, agora já sei que beija mal. Vou indo.
– HAHAHA. Meu beijo te deixou de pau duro até agora. HAHAHA.
Ri com ela. Ainda queria estuprá-la.
– Tchau meu bem!
– Tchau profeta.
Levantei-me e fui à caça de um ônibus pra casa. Aquele quadrado de tijolos voltaria a ser meu mundo limitado, nele, as coisas eram tristemente afáveis.

PE: Editorial de Aniversário da Philos

Hiato – Ramon Carlos

poeta amarelo – Eduard Traste

da natureza – Eduard Traste

no frescor da doença – Eduard Traste

sobrevida na poesia – Eduard Traste

epitáfio anoréxico – Eduard Traste

de um inferno ao outro – Eduard Traste

tragédia auditiva – Eduard Traste

pergunta quente – Eduard Traste

PE: Editorial de Aniversário da Philos

Um último suicídio

O último banho, o último gole de café, o penúltimo cigarro, a última meia, o último ódio. Tudo dentro do liquidificador atormentado. Quanto mais caminhava, mais engolia ideias. Os latidos, as conversas, automóveis, aviões, alarmes, todos falando a mesma língua envenenada. Seu pedido era morrer, e seu desejo era matar. Fácil, um quebra-cabeça de duas peças. Tinha um lugar escolhido para o último cigarro. Era uma escada repartida por um corrimão, com degraus exaustos de aguentar calcanhares, mas com uma bela visão do inferno. A escada terminava no começo de uma rua morro abaixo, tendo um poste que selava essa união. A luz do poste piscava, estava entrando em curto, pronta para apagar, e apagou. Na escuridão, o vagalume de nicotina dava o tom, e a cortina de fumaça escondia os olhos dele das pessoas que subiam a escada. Passavam todos pelo outro lado do corrimão, e mesmo assim, ainda tragavam aquela fumaça com cheiro de morte atrasada. Ele ria, afinal não morreria de câncer. O cigarro virou cinza e filtro, sendo jogado na grama que crescia ao lado da escada. Pensou ele, que algum cachorro ainda mijaria naquele que foi sua última companhia e riu novamente. Sentia-se vazio, mesmo com o tanque cheio. Chegava o momento, justamente como havia imaginado. Era perfeito como um pesadelo. Estava realizado, seu último suicídio foi um sucesso, e sua última companhia não fora jamais mijada, apenas lambida.

Outra escada. Essa com degraus mais limpos e menos surrados, afinal, era um lugar sagrado. Uma santa, recheada de luzes e rodeada de vidros, com as velas acesas e apagadas pelo lado de fora, tornando aquela visão linda, de uma estátua intacta. Ele estava longe do santuário, preferiu sentar no primeiro degrau da escada que da acesso ao recinto de orações. Naquela hora, só ele mesmo estaria lá, eram 22:00 horas. Um cigarro, uma cerveja e uma cabeça latejante, por dentro e por fora. As casas que ficavam ali perto, brilhavam muito menos que a santa. Eram casas isoladas, flageladas. Alguns cães caminhavam pela redondeza, perdidos como ele, mas nenhum chegou perto. Provavelmente seu cigarro espantava-os, mas tudo bem, assim os pernilongos também iam embora. Se perguntava se mijar em um lugar sagrado era pecado. Se fosse, os cães iriam para o inferno com ele. Naquele momento, ele considerava os cães mais racionais e higiênicos. Depois de mijar, sentou no mesmo lugar e de costas para a santa começou a rezar. Alguns latidos o incomodavam, mas tentava se manter. Sabe aqueles momentos em que se pensa que morrer é a melhor herança? Percebeu que sua reza era falsa, não adiantava insistir, seus pedidos não eram fiéis. Os cães eram, e rezavam melhor que ele. Não importa pelo que rezavam, por ossos ou simpatia, já não importava pelo que ele tentava rezar. O vento o empurrou para dentro do carro, e com um latido despediu-se.

 

escorrendo

o cachorro fareja meu ódio
e meu desprezo
escorrendo lenta e diretamente
da sacada do quarto 103
para a calçada

uma boa fungada
com o pescoço bem disposto
narinas bem abertas
são segundos
antes que atravesse a rua
desatinado, e seja despedaçado
por um caminhão carregado
em toneladas de momentos
jamais esquecidos

foi a última vez para ele
eu lamento novamente e continuo
escorrendo aos montes, morrendo
aos poucos.

ovo negro

de quanto azar preciso
para ter um pouco de sorte?
perguntei para o gato
aqui do meu lado
que não sabe sua idade
mas é muito peludo e ronrona
em várias línguas diferentes,
perguntei para o cachorro
que no ano passado
não votou em branco
nem vendeu seu voto
só enterrou seus ossos,
para o frango
que preparei no almoço,
para o porteiro
que não guarda portas,
para o Alce, porque o encontrei
no caminho, para o guarda-chuvas
que já não vem guardando
nada. e por hora
estou convencido: éter
é eterno.

Contrapartida

O chacoalhar
Cantos
Vento, vento
Som dos gatos rolando
Nas telhas soltas
Em brigas noturnas
Uivos
Jovens de bigode
Leões de bolso
Cantos, uivos
Tenho cintos e discos
Posso abrir meu guarda-roupa agora
E encontrar três gerações de baratas
Sou um coito coitado
Um tipo ejaculado na boca do jacaré
Soluços e coceira
Prisões fazem homens chorar
A bebida também
E os crocodilos choram com água na boca
E as mulheres porque soluçam e se coçam
Mais que um bêbado na feira de pulgas
Todos riem, riem, riem
Riem do pobre doido das calças curtas
Que aqui e acolá, transborda em instantes viúvos
Quando a poeira vortex gruda em seu corpo úmido
Imagina o deserto repleto de criaturinhas deficientes
Feitas de suspiro
Aquela mancha pastosa transforma-se em tempestade
Todos riem, riem, riem
Famigerado pela fome alheia, ele suspeita
Trata piedade como troco pra cachorro
E dança tango de chinelo

Aquele filho afogou-se, em uma pegada de gato, em um dia de chuva

Acreditei nas flores da primavera
Que estendidas dificultavam meu andar
Temi as aranhas das plantas verdes
E das quinas das paredes
Que assustadas corriam ao meu lado
Desconsiderei as pedras cortantes
Estáticas em qualquer estação
E desse jeito plantei suas cicatrizes
Em meus pés desajeitados
O abacateiro quebrou o braço de minha mãe
Um tombo provisório
Sobre a casa de Bob, o cachorro
Que em dias ruins como aquele
Desatava a latir
Desafiei os subornos dos garrafões vazios
Terminei em terceiro lugar
Só porque, infelizmente
As girafas não nasciam em fornos
Atravessei, depois de um tempo
Uma nuvem pubiana de olhos castanhos
Singular, úmida e rigorosa
Ela até hoje me deve esperança
Desajeitado então
Instituí a derrota como vingança
Maltratei as colinas albinas
E tornei-me homem com uma puta incapaz de gozar
Ando dopado
Com soro fisiológico nas narinas
É isso aí, acertando meu adeus
Um adeus tão ensaiado e teatral
Mereço as palmas com uma mão só
Não duvidem
Vejo constantemente
Espelhos furados através da fumaça pueril
Imbróglios sorrateiros, guerra em perigo
Onde estarão os estornos?
Atrás do espelho?
Na frente?
Ou afiando a faca aqui ao lado?
Em um tesouro de gás
Fazem falta
A cor que crucifica em X
O beijo que acalma a lama
Os sintomas perpetuam incrédulos
Devagar, devagar, devagar
Corpo inóspito no lar dos anjos
Logrando fadigas
Mendigando suicídio
Estafa sexualmente transmissível em uma orgia de lobos
Um resultado de exame
Assinado