Passado envelhecido ( XVI )

Josie atendeu o telefone como sempre:
– Clínica Doutor Alfredo Astolfo dos Santos, bom dia.
– Quero falar com a Josie.
– Senhora Josie. Sou eu.
– Como queira. Sua mãe morreu.
– Quem fala?
– Me chamo Amarildo e matei sua mãe.
– Como é??
– Me chamo Amarildo e matei sua mãe
– Matou por quê?
– Não sei. Segui-a até em casa, comi sua bunda e a matei.
Amarildo desligou o telefone. Josie ligou para a casa de sua mãe.
– Alô – Amarildo atendeu.
– Quem é você? Josie pergunta.
– Me chamo Amarildo e matei sua mãe. Comi sua bunda, não sei por que fiz isso.
Josie desligou o telefone e ligou para a polícia.
– Bom dia – disse o Doutor Alfredo entrando no consultório.
– Mataram minha mãe! Mataram minha mãe! Gritava Josie ao telefone.
– Como assim Josie? Perguntava Alfredo.
– Mataram minha mãe! Mataram minha mãe! Gritou Josie para Alfredo.
Doutor Alfredo não disse mais nada enquanto Josie explicava a situação para a polícia. Largou sua maleta em uma cadeira e sentou em outra. Josie desligou o telefone e começou chorar, batendo a cabeça na mesa.
– O que aconteceu Josie? Quem matou sua mãe?
– Um tal de Amarildo. Preciso de folga hoje Doutor Alfredo. Estou saindo.
– Certamente Josie.
Josie correu por duas quadras até chegar em casa. Tinha um marido desempregado e queria que ele fosse junto até o local do homicídio. Abriu a porta em prantos, mas não conseguia falar, nem gritar. Ao fechar a porta da casa com dois meses de aluguel atrasados percebeu uma par de tamancos jogados bem perto da geladeira. Não eram seus, mas sabia de quem era. Sua vizinha só usava aquele. Caminhou em passos lentos até conseguir ouvir os sons do quarto. O desempregado estava trabalhando às 9:00, suando o pobrezinho. Josie sentiu náuseas e vertigens. Decidiu beber água. Abriu a geladeira com três prestações atrasadas e viu meia dúzia de latas em uma sacolinha, era cerveja. Pegou uma e sentou-se na mesa. Sua vizinha gemia alto, coisa que não compreendia, sabia o potencial de seu marido desempregado. Bebeu a lata, foi até o telefone e ligou para a casa de sua mãe.
– Alô – alguém atendeu.
– Quem fala? Josie perguntou, falando baixo, para não atrapalhar o amor.
– Aqui é o policial Fernando. Quer falar com quem?
– Com o Amarildo. Ele está?
– Senhora…..
– Senhorita.
– Qual seu nome senhorita?
– Josie.
– Foi você quem ligou para a polícia?
– Fui eu.
– Bom, senhorita Josie. Averiguamos a casa onde supostamente houve um homicídio e não encontramos nada.
– Minha mãe está aí?
– Não encontramos ninguém no local. Tivemos que arrombar a porta.
– Me desculpe policial, não estou entendendo. Um tal de Amarildo ligou-me no trabalho dizendo coisas e eu acreditei.
– Tem ideia de onde esteja sua mãe?
– Não.
– Daremos mais uma olhada no local.
Josie calçou os tamancos da vizinha e saiu procurar sua mãe, para depois encontrar Amarildo.

Passado envelhecido ( XV )

– Trouxe os documentos Renan?
– O que precisa?
– RG e CPF.
– Tenho aqui.
– Vamos entrar aqui em casa pra anotar. Amanhã já tenho o contrato pronto, aí se você puder passar aqui assinar…
– Sem problemas.
Sentamos em uma mesinha logo na sala, um em cada lado, sua mulher não estava por ali. Estendi meus documentos e fiquei observando pra ver sua reação. Renan ou Ramon? Ele ficaria perdidinho. Sua casa era bem cuidada, tudo branco também por dentro, algo me dizia que qualquer coisa do Alberto seria branca pra sempre. Algumas coisas simplesmente entram na cabeça e nunca saem, isso poderia ter acontecido com ele, e pra alguém casar com aquilo, certamente sua cabeça tinha um desvio desnaturado e apático, portanto, o branco na sua vida equilibrava a tragédia. Sua mulher sabia meu nome corretamente, eles não conversavam? Nem sequer algo do tipo “Esse Renan me pareceu gente fina”, “Que Renan? O nome dele é Ramon! E tem cara de que vende loteria”. Logo seus olhos pareciam não acreditar no que viam. Aproximou minha carteira de identidade dos olhos, me olhou e disse:
– Meu Deus Renan, tu já foi mais feio hahaha.
Que filho da puta! Pensei.
– E você certamente já foi mais bonito Alberto.
– Hahaha – ele ria. Mais bonito não, só mais magro. Depois que casei deslanchei.
– Dureza casar.
– Chegou a ver minha mulher né?! Hoje ela é um demônio, mas quando casei era quase uma princesa, cheinha, mas nem tanto. Tinha uma das melhores bundas do bairro. O casamento acabou com nós.
– Não achei ela tão feia assim.
Se concentrou no papel, na caneta e no meu documento. Ele estava mentindo, aquela mulher jamais tinha sido algo bom. Mas um homem sempre precisa justificar a mulher que tem. Foi aí que ele percebeu que algo de errado acontecia entre nós.
– Qual seu nome? Perguntou.
– Ramon Carlos.
– E por que me deixou te chamando de Renan, Ramon?
– Não sei Alberto, as coisas simplesmente aconteceram.
– Hahahahaha essa foi boa. Hahahaha…você é um bobalhão Renan!
– Ramon.
– Hahahaha, isso mesmo, Ramon, hahaha.
Continuou rindo baixo enquanto anotava meus dados e sussurrava “Ramon, essa foi boa, muito boa”. Após anotar o que tinha para anotar me devolveu os documentos e pediu pra passar assinar o contrato no dia seguinte.
Entrei pelo portão branco da casa, uma mulher vinha de bicicleta pelo trilho da frente numa velocidade enorme. Uma mulher de pele escura reluzente. Com o cabelo duro pra cima, nem o vento nem a chuva eram páreos pra ele. Não conseguia entender o porque de ela vir tão rápido, se eu não tivesse aberto o portão o que ela faria? Só escutei um “Sai, sai”, saí da frente e vi a bicicleta saindo portão a fora. Dei uma olhada, e era uma bela bunda apressada em cima do banco.
Tinha que ir ao mercado. Fiz uma lista do que comprar, achei exagerada e ao mesmo tempo singela: uma cabeça de repolho, três bifes, três garrafas de vinho, cinco cervejas, umas bolachas, duas batatas, dois pepinos, três maçãs, um sabonete, um xampu, uma escova de dente, uma pasta dental, um pacote de sal, vinagre e azeite. Chegando lá, peguei uma cestinha vermelha e comecei perambular pelo labirinto sem pressa. Pouco conhecia dele, as atendentes da padaria, os açougueiros, os que completavam o estoque, os caixas nada sabiam sobre mim. Pela primeira vez em dias, eu não tinha pressa, poderia andar por horas pelas prateleiras, comparar preços, ouvir a canção que rolava nos alto-falantes, recolher alguns produtos do chão, encaixá-los em seus lugares, talvez até ler as instruções dos inseticidas.
Cheguei ao caixa com todas as compras da lista, e mais uma lâmina de barbear e uma sopa de pacote.
– Boa noite senhor – ela disse.
– Boa noite.
– Tem o “Cartão Fidelidade”?
– Não.
– Vai pagar em dinheiro?
– Não. Vale-alimentação.
– Ok.
Começou passar os produtos e pesar o que precisava. Cada barulho da máquina me doía, o valor ia crescendo e não lembrava quanto ainda tinha no vale, nem que dia era, havia me esquecido de pegar os comprovantes das últimas compras. Mas tinha quase certeza que era em torno de R$ 60,00.
– Quer fazer o “Cartão Fidelidade” senhor? Perguntou-me enquanto passava os últimos produtos.
– Não – respondi.
PIP PIP…PIP PIP
– R$ 62,58 senhor. É vale-alimentação né?!
– É
Apertou umas teclas do seu teclado.
– Pode passar o cartão.
Passei, na tela dela apareceu: “Erro na leitura do cartão”.
– Passa de novo senhor.
“Erro na leitura do cartão”
– Tenta de novo senhor.
“Erro na leitura do cartão”
– Deixa eu tentar – ela disse.
Entreguei-lhe o cartão.
PIP PIP
– Agora deu – e ainda me deu um sorriso me colocando como o maior incompetente da terra.
– Maravilha – respondi.
– Pode digitar a senha senhor.
Digitei.
– O senhor não tem saldo suficiente pra essa compra.
– Aé?! Quanto eu tenho?
– Olha na telinha da máquina.
R$ 3,55 apareceu. Permaneci quieto olhando pra máquina.
– Qual valor apareceu senhor? Está conseguindo ver aí?
– Sim, sim. Só estou pensando o que vou levar e o que vou deixar com esse valor.
– Qual o valor que o senhor tem disponível?
– Relaxa aí, estou pensando.
– O senhor pode usar todo o valor do cartão e pagar o resto com dinheiro.
Na carteira não tinha nada. Deixei R$ 20,00 em casa pra comprar cigarros pros próximos dias, afinal, eu tinha o vale! Por que diabos não pedi o comprovante pra ver meu saldo na hora que comprei meu almoço do dia? Não sei.
– Que dia é hoje? Perguntei.
– Segunda – feira, dia 30.
– Quer saber, amanhã meu vale-alimentação recarrega – e recarregava mesmo – estou sem dinheiro aqui pra completar a compra, então da uma olhada pra mim quanto da no total esse pacote de sal com o repolho.
Calculou mentalmente olhando pra tela. Eu preferia nem olhar.
– R$ 2,29 senhor.
– Humm. E se eu levasse mais as maçãs?
– R$ 4,09 senhor.
– E se fossem só duas maçãs?
– Preciso pesar novamente então.
– Por favor.
– Mas qual o valor que o senhor pode gastar?
– Incontáveis R$ 3,55.
– R$ 13,55?
Parecíamos um casal de velhos querendo transar com roupas.
– Isso, R$ 13,55 eu tenho – respondi.
– Mas então o senhor pode levar todas as maçãs e mais algumas coisas.
– Mas agora só quero levar duas maçãs, o sal e o repolho.
– Tudo bem.
Chamou quem aparentemente era seu superior pra cancelar a venda, de vermelho também, pra novamente passar o que meu cartão aguentava. Esse tinha um cabelo que furaria uma bola de boliche. Fiquei olhando pra ambos, e nenhum gostava do novo morador do bairro. Mas no outro dia iria voltar e gastar R$ 100,00 reais, quem sabe até mais numa compra. Antes dela pesar as maçãs, escolhi as duas menores pra garantir.
PIP…PIP…PIP
– R$ 3,49 senhor, pode passar o cartão.
– Certo – falei –. Baratas as coisas aqui nesse mercado. Voltarei em breve, provavelmente amanhã.
Digitei a senha no aparelhinho que comprovou meus créditos no mercado. Peguei a sacola e fui saindo.
– O senhor não quer o seu comprovante? Ouvi.
– Não, não. Pode segurar pra ti.
Sabia meu saldo, R$ 0,06. Se ela olhou e viu que R$ 13,55 era no máximo o valor da minha mentira, nunca vou saber.

Passado envelhecido ( XIV )

Bob fez uma grande merda, ele não sabia, mas tinha feito. Tava com um longo sorriso por toda a parte, um sorriso de estuprador misógino, mas tinha feito uma grande merda. Bob tinha sorte, muita sorte, sua mulher era rica, com dois empregos, uma morena cheia de marcas, de surra mesmo, de paulada e socos frontais.
Todos que cruzavam com Bob ouviam: “Fiz um baita negócio cara”, “O que você fez Bob?”, “Eu comprei um terreno por R$ 20.000,00”, “Porra meu chapa, não se acham mais desses por aí”, “É  plano e gigante, vou fazer uma casinha e colocar mesas de sinuca”, “E de onde vai tirar dinheiro?”, “Minha mulher paga”, “Ah, claro, sua mulher”. Do outro lado do negócio estava o seu Alcindo, carinhosamente chamado de Tio Alcindo, pelo irmão, pela esposa, pelos amigos e por Bob também. Alcindo já pisava pela terra durante a segunda guerra mundial, seus cabelos grisalhos eram duros como o pasto, já tinha sobrevivido a um infarto, diabetes, câncer e um verme na cabeça. Um veterano nos negócios, e dessa vez foi mais que justo, foi solidário, “Bob, minhas terras não caberiam no Paraguai, então, por ter conhecido teu pai, vou fazer um preço impensável pra esse terreno. R$ 20.000,00 e é teu”, “Tio Alcindo, ele é meu”.
“Mônica, tens R$ 20.000,00 no banco?” “Tenho Bob, por que?”, “Lembra do Tio Alcindo? Quer apenas R$ 20.000,00 de um terreno, fechei negócio com ele. Tira do banco e me traz amanhã, ele quer em dinheiro à vista”, “Mas Bob…”, “Mas Bob nada. É minha mulher ou o quê?”, “Sim Bob, sou sua mulher”, “Não fique com essa cara de lagartixa, mais tarde tu ganha teu lanchinho”.
“Tá aqui tio Alcindo, R$ 20.000,00”, “Óóó Bob, você é um homem de palavra, seu pai ficaria orgulhoso”. Sem escritura, e sem um pingo de inteligência Bob foi pisar na terra, paga por sua mulher pungida como um controle remoto sem pilhas.
Os limites ficaram claros, depois da primeira propriedade ocupada por Alcindo, sua esposa, seus porcos elefantes, vinha o terreno de Chico, irmão do próprio Alcindo, um ano mais novo, que morava ali também há uns vinte anos, sozinho há dois, só fumando palheiro e batendo as botas “Que vida, que vida, me leve Deus”, “Pelo sagrado Senhor, o dia que minhas pregas pararem de funcionar eu me mato”. Inúmeras vezes antes de dormir tentava reanimar o pau, lembrando do perfume de uma xota castigada, que tinha conseguido em uma noite de bolero, quando ainda era viril, “Levanta coisa linda, levanta, levanta, levanta filho da puta”.
Depois do terreno do Chico, vinha o de Bob. “E então meu filho, o que vai fazer agora com esse terreno? Alguma plantação? Essa terra é boa ein, dá legumes dos bons!”, “Nada Tio Alcindo, vou fazer uma casa de jogos, uma entrada de concreto até aqui, e lotar de putas, quando puder”, “Ah meu caro, aqui é um lugar silencioso, te peço que não faça barulho, as coisas estão boas assim, estamos todos aqui só esperando a morte, devagar Bob”, “Tudo bem Tio, vou devagar”.
Certo arrependimento passava pela cabeça de Alcindo, ele fraquejou no negócio, o terreno valia mais de R$ 30.000,00. Mas a idade e as histórias com o pai de Bob fizeram ele abaixar a guarda, justamente com quem não podia.
Bob levou sua mulher conhecer o investimento. “Tio Alcindo, essa é minha mulher, Mônica! Trouxe ela dar uma olhada”, “Ah, tudo bem Bob, pode ir até lá, é seu agora”. Eles passaram por Chico batendo as botas e fumando palheiro. Caminhavam em silêncio sobre suas terras, mais do Bob do que de Mônica, que fingia ser só mais um bolo de terra pisado. “O que achou meu amor? É grande né. Nos demos bem nessa!”, “Ah, eu gostei sim Bob, dá pra cercar e criar alguns animais, ganhar algum dinheiro por aqui também”, “Por favor mulher! Você só pensa em dinheiro! Vamos construir uma casa pros nossos finais de semana! Já pensou, uma piscina aqui, com um gramadinho, uma churrasqueira, isso sim que é planejamento e investimento!”, “Mas Bob…”, “Mas Bob o quê?”, “Nada Bob, acho que é uma boa ideia”, “Essa semana já vou fazer um empréstimo no banco, e começar a construção. Quanto consegue pagar por mês?”, “Uns R$ 500,00 por mês até dá”, “Tudo bem, vamos pra casa”.
Passaram pelo Chico batendo as botas e fumando palheiro. “Até mais tio Alcindo”, “Até Bob”. Depois de dois dias o recém proprietário foi ao banco fazer empréstimo. O dinheiro seria depositado em três dias uteis. Já aproveitou e passou na construtora. “Fala Bob, meu querido, o que te traz aqui?”, “Opa Alfredo, vim aqui porque quero que você construa mais uma casa pra mim”, “Outra casa? O que aconteceu com aquela?”, “Tá em pé ainda, essa é outra, no meu novo terreno. Paguei R$ 20.000,00 de uma terra, acredita?”. Entraram no escritório, resolveram o orçamento e o prazo. Tudo andava como o lagarto sorrateiro planejava. “Môniquinha meu amor, amanhã eles começam a fazer a estrada de concreto pro nosso terreno, em menos de três meses o Alfredo me prometeu tudo pronto”, “Ah, que bom Bob!”. As máquinas começaram aparecer naquele pedaço de vida mórbido.
“Levanta, levanta, levanta seu pinto de uma figa. Eita, que barulheira é essa”. Chico saiu para a varanda, batendo as botas e fumando um palheiro. “E aí Chico!”, “Hei Bob, quero saber o que essas máquinas barulhentas estão fazendo por aqui?”, “Estamos fazendo uma estrada, pra depois construir minha casa ali no terreno”, “Que estrada? O que está fazendo com minha terra seu cabeçudo?”, “To melhorando, nem precisa agradecer”. Jogou o palheiro fora e foi falar com seu irmão. “Alcindo, viu o que esse pirralho tá fazendo por aqui?”, “Eu vi Chico, me arrependi de ter vendido aquele terreno”, “Não vai fazer nada? Essas máquinas estão acabando com nossos lotes”, “Acho que irei matá-lo”, “É uma boa ideia”. A estrada ficou concluída em cinco dias. “Meu velho, como deixou aquele malandrinho fazer essa estrada por cima da minha horta de repolhos? Fiquei triste tio Alcindo, muito triste”. Tudo acontecia muito rápido, as caçambas deixavam brita e areia, e sumiam. Os pedreiros bebiam cachaça embaixo do sol e da sombra, e colhiam todas as frutas que conseguiam dos velhos.
“Levanta, levanta, agora vai, ai meu Deus, levanta…”, “Cledir!!! Preciso de mais cimento!”, “…levanta pau véio, o cheiro, lembra do cheiro…”, “Cledir!! Manda uma bergamota aqui pra cima!”, “…bergamota?”, largou o pau mole, puxou as calças pra cima e saiu porta a fora, esqueceu até de bater as botas e acender um palheiro. “Escuta aqui Cledir! Se eu te ver mais uma vez com uma bergamota minha na mão, eu te dou um tiro”, “Hei velhinho, o Bob disse que a gente podia comer”, “Onde ele está?”, “Tá pelo centro da cidade, negociando”. Chico foi novamente até à casa do seu irmão. “Dolores, onde tá teu marido?”, “O Alcindo pegou a camionete e foi até o centro da cidade Chico”, “Ele levou a espingarda?”, “Não vi Chico”, “Vou esperar ele aqui Dolores”, “Ta bem, quer um pedaço de cuca?”. Batendo as botas cada vez mais forte, “Eu vou matar o desgraçado” ele pensava. A camionete entrou pelo portão. “O que faz aí Chico?”, “Te esperando. Matou ele?”, “Quem?”, “O Bob”, “Ainda não”, “ Tá esperando o que?”, “A casa ficar pronta”, “Meu Deus Alcindo, tu tá mais maluco que eu”, “Não tem escritura nenhuma, esse terreno é meu ainda”.
E a casa ficou pronta em dois meses, e tudo era lindo, foram convidados para a inauguração o Alfredo, o Chico, o Alcindo, a Dolores. “Que bela casa Bob!”, “Obrigado Tio Alcindo”. E os porcos elefantes rosnavam, as bergamotas caíam maduras, a cuca da Dolores já tinha acabado um mês antes, as botas do Chico perdiam a cor da sola, Alfredo ria com os elogios rasgados pra construção, Mônica rebolava sua bunda para o Alfredo que mais tarde a comeria apoiada na churrasqueira, e Bob queria mais, sempre mais, e logo ele teria mais, muito mais do que merecia.
E naquela noite o pau do Chico endureceu.