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Embora escrever sobre mulheres não me anime tanto como antes, pretendo ser honesto dessa vez, prometo no mínimo uma pseudo-ereção gargalhada, meio mamilo mole trágico e um sorrisinho malicioso em qualquer canto da boca. Detestaria sair como herói após o ponto final, afinal, sou a vítima dessa história, mas tenham em mente o seguinte, ainda não pensei no final, e todo herói prefere sua versão dos fatos, ou de que outra forma existiriam? Pretendo ser honesto, juro, assim como Átila e o Império Romano. A honestidade já foi calculada em um fio de bigode, e como não posso dar-lhes meu próprio, eis o meu simbólico: “;”, um fio e uma espinha, por favor aceitem, é dolorido pra mim, e serão minhas provas diante o julgamento, que como sabemos, já começou.
Meu primeiro salário com carteira assinada foi R$ 410,00 + 20% Insalubridade. Começou no dia 01/12/2004 e terminou em 09/03/2011, portanto entrei com dezoito anos e saí com vinte e quatro. Nesse tempo fui motoboy, mesmo minha carteira sendo assinada como “vendedor”.
Entre os 50 km rodados quase todos os dias, na maioria corridas curtas, o que realmente tornava o trabalho exaustivo, permanecia em cima daquela moto sequestrando as horas, xingando, buzinando, arranjando confusões no trânsito de uma cidade em transe. As filas, o calor, o óleo pingando, a maldita moto vermelha apagando no semáforo me fazendo pedalar seguidamente um adorável pedal, sem contar o baú branco descascado roçando minhas costas, do tamanho de três tartarugas. Em minha cabeça enriquecia burgueses sórdidos, vangloriados na sociedade e desrespeitados pelos próprios cães, que no máximo comiam a própria merda e latiam para as nuvens. É somente agora que começa minha verdade, ou honestidade, como queiram, pegarei meu bigode de volta.
Um puteiro anunciado em um muro branco alto ao lado de uma oficina clandestina, esse foi o destino de um motoboy naquela noite. Antes que esqueça, eu era um motoboy que entregava peças nas oficinas, foi assim que descobri o muro e Ana. Para entrar no local cobravam R$ 10,00 e você ganhava duas cervejas baratas, tendo que pagar R$ 2,00 para cada música no jukebox e R$ 1,00 por uma ficha de sinuca, desde que estivesse acompanhado, as putas eram proibidas de jogar, a não ser que comprasse uma delas pela noite inteira.
Nessa primeira noite fui com R$ 12,00, duas notas de cinco e duas moedas para o jukebox, queria apenas ouvir uma música, beber duas cervejas, tapear qualquer nádega e quem sabe enganar alguém por mais uma música. Cheguei dez e pouco, atravessei o espaço entre os muros, pisei em pura pedra até a entrada do recinto, esbarrei no homem que me pegou pelo braço e me arrastou pra fora do recinto perguntando o que eu queria.
– Quero entrar – falei.
O cara era grande, peito estufado como um quero-quero, mandíbulas desenhadas, contornadas e pintadas pela barba branca. Tinha olhos estufados e negros mirados contra mim, era sua profissão identificar o medo e aproveitadores imaginei, observando de soslaio um traseiro branco e seco recolhendo a bola de sinuca rolando no chão, não distingui o número.
– Tem dinheiro para atravessar essa porta? Perguntou-me enquanto eu desvencilhava meu braço das suas presas.
– Tenho dinheiro para comprar essa porta – respondi encarando-o e rindo assustadoramente assustado.
– Não está a venda riquinho espertalhão. São R$ 50,00 para entrar. Não garanto que saia com as roupas.
Estendi as duas notas de cinco e dei passos apressados até o balcão do bar onde pedi uma das duas cervejas, minha por direito. Olhei para trás e ele acomodava as notas dentro da pochete.
A atendente do bar encarou a geladeira aberta por uns vinte segundos, pensei que fosse assim que as coisas funcionavam por ali e aguardei analisando-a. Ela virou-se mantendo a geladeira aberta, encarou-me por uns cinco segundos e voltou a olhar para dentro da geladeira. Mantive os olhos nela, enquanto as bolas de sinuca estouravam na mesa, nenhum som além desse atrevia-se a trafegar, era como um sonho desastrado.
– Não temos mais cerveja – disse-me a atendente do bar.
Faltava-lhe um dente da frente, de cima, e na frase inteira sua língua permaneceu naquele espaço. Olhei para o homem da pochete e ele riu com todos os dentes a mostra, enquanto esfregava as mãos, como se esperasse por anos para me matar, insaciável. Respirei fundo, cocei a testa e disse para ela:
– Quero beber dez reais. Sei as regras.
– Só temos doses, vinte reais cada.
– Meia dose então.
– Não tem mais dez?
– Não sem uma mulher aqui comigo.
– Meia dose de que?
– Qualquer coisa, algo que dure uma música.
– Qual música vai colocar?
– O que vou beber?
– Pensei em conhaque.
– Faça.
– ANA!! Gritou ela para o além.
Dei uma bicada, fui até o jukebox, fiquei passando álbuns, nada eu queria, pensei que talvez aquele traseiro branco e seco fosse a única coisa que prestasse no lugar, mas já estava ocupada, trapaceando outro idiota velho, que pela minha observação, perdia por duas bolas menores. O maluco da pochete chegou ao meu lado e suspirou colocando uma mão em meu ombro esquerdo: “Estou louco para operar alguém hoje”. Respondi que o hospital ficava a apenas três quilômetros. Ele saiu de perto resmungando para que eu cuidasse das calças. Continuei passando os álbuns inconformado com a qualidade do jukebox. O velho idiota perdeu e disse em voz alta que estava pagando para ganhar e perder, mas odiava perder. Pediu três doses “Uma é para o garoto ali, hipnotizado com a lata de música”. Olhei pra ele e agradeci.
Ana saiu por trás de um pano vermelho onde julgava ser o banheiro. Somente de calcinha foi até o bar e pediu um sabonete.
– Se quer sabonete, é melhor pensar em trabalhar – disse a mulher que serviu-me meia dose.
– Como posso trabalhar fedendo desse jeito?
– Fazem três noites que não te vejo arrancar pelo menos uma dose.
– Está vendo alguém aqui dentro capaz de pagar uma dose?
O velho da sinuca respondeu que pagaria mais uma dose, mas o traseiro branco e seco lhe deu um sacode no chapéu, fazendo-o voltar ao jogo quieto.
– Coloque uma roupa qualquer e pelo amor de Deus ensine o cavalheiro mexer no jukebox, estou endoidando.
O homem da portaria riu esfregando a barba com as duas mãos em movimento uniforme.
– Não colocarei roupa alguma sem tomar um banho antes.
– Por mim, esta roupa está ótima – interferi. O da pochete não gostou do que eu disse, o resto nem ligou.
– Tome esse sabonete Ana, e volte em dez minutos.
Ela passou por mim esfregando o sabonete dentro da embalagem por entre os seios, e novamente sumiu através do pano vermelho. Guardei as duas moedas no bolso. Esperaria o ensinamento de Ana. Sentei em um banquinho no bar, matei minha meia dose e comecei bebericar a outra que ganhei do velho de chapéu. Todo o chão era quadriculado, branco e preto, exceto numa elevação ao lado da mesa de sinuca, onde julguei ser um palco para apresentações. Nessa altura, já tinha entendido que a atendente era a dona de tudo. Tinha seus modos duvidosos de fazer, punir, atender e rir obviamente.
– Não vai colocar uma música? Indagou-me a princesa do velho, que meticulosamente pegara o chapéu para si, sem se dar conta que estava ridícula.
– Vou esperar a Ana voltar, não sei mexer naquilo.
– Eu te ensino rapidinho.
Nessa hora a ponta de um taco cutucou entre suas nádegas, fazendo-a lembrar do chapéu e da venda da noite.
– Sua vez – riu o velho – Mais três doses, uma pro garoto.
Ana transcendeu com um vestido da cor do pano, vermelho ofuscante rastejando em minha direção. Se ela soubesse que eu só tinha mais dois reais, nossa lua de mel teria acabado ali. Ana, um palíndromo excitante e extravagante, assim como “amada dama” e “Ramon no mar”. Deu-me um beijo no rosto, pegou em minha mão e fomos até o jukebox. Carreguei o drinque, Ana perguntou quantas músicas eu queria ouvir, respondi que uma boa, só pra começar e entreguei as duas moedas.
– O sabonete lhe fez muito bem – falei enquanto ela ia ao encontro de sua música favorita.
– Obrigado….Como posso te chamar?
– Como chama elevadores, só com um toque.
Senti uma beliscada na bunda, bem desconfortável.
– Qual seu nome? Não brinque comigo.
– Juan.
Outra beliscada.
– Ai. Don Juan.
Outra beliscada.
– Ai! Ramon Carlos.
Dei-lhe uma beliscada.
– Ui – ela rosnou e finalmente encontrou sua música. – Sabe dançar?
– Prefiro que não.
– Então observe.
Entreguei-lhe o drinque e sentei no bar sem dinheiro. Ana foi até o palco provar que também não sabia dançar. Sem mínima desenvoltura, sem sensualidade alguma nos movimentos, parecia mais um número de comédia onde a platéia fica constrangida. Com passos de garça, e voltas incompletas, foi até o pano vermelho, sumiu nele entrelaçado, pelas formas no lençol, continuava descendo, subindo e fazendo sua dança mágica obscura. Bati palmas, muitas, bem altas, até que todos ali prestassem atenção.
– Logo chegarão alguns homens, é melhor comprá-la logo – disse-me a proprietária.
– Mais três doses! Uma para o garoto que bateu palmas.
Agradeci o velho batendo palmas pra ele também.
Ao acabar a música, Ana veio até mim com o copo vazio, perguntando se eu tinha gostado do desempenho, exigiu sinceridade, olhando em meus olhos, e aquele olhar significava “Não brinque comigo”.
– Terrível – falei.
– O que?
– Péssimo, nunca vi alguém dançar pior, provavelmente não verei.
Ela acabou com meu drinque num gole e beijou-me na boca. Ao final do beijo gritei: “Mais três doses na conta dele – apontei para o velho idiota que eu nem considerava mais idiota – uma pra mim”. Ele largou o taco e bateu palmas.
– Ana, você sabe que é proibido beijar clientes aqui no bar – reclamou a dona servindo as doses.
– Não aguentei Iara – respondeu Ana com uma expressão totalmente sacana.
Mais quatro mulheres saíram pelo pano e se situaram no ambiente. Parecia que só agora as coisas começavam. Todas perfumadas, conversando entre elas. Ana confessou-me rindo que dançava torta por querer, todas as vezes, para qualquer homem, e sempre recebia elogios pela performance, o que tornava impossível suportar suas presenças ao seu lado. Perguntei porque ela não dançava bem todas as vezes então, pois os elogios seriam sinceros, ela respondeu que elogios sinceros podem ser comprados.
Homens começaram engordar a pochete ao entrarem, e eu sem um centavo no bolso, agradeci Ana pela companhia, prometi voltar e liberei-a à labuta.
– Já vai embora Ramon? Fique um pouco mais – lamentou sinceramente.
– Não tenho dinheiro nem pra um sabonete – lamentei sinceramente.
– Eu consigo pra você. Apenas não fique parado, converse com as garotas, não deixe a Iara perceber, nem o Machado.
– Que Machado?
– O porteiro.
– Machado é o nome do porteiro?
– Não, o apelido. Agora vá ao banheiro, fique lá por uns cinco minutos. Quando voltar terei algo pra você.
Concordei, mesmo nada sabendo do plano. Ana saiu rebolando indo ao encontro de um homem grisalho sentado perto do palco. Sentei na tampa do sanitário que me espantou pela limpeza, “Machado” realmente operava pessoas então, pensei. Após uns dois minutos ouvi três batidas na porta.
– Ocupado! Gritei.
– É você garoto das palmas?
– Sim.
– Quantas bundas está limpando aí dentro?
– Só uma.
– Estou explodindo, sabe como é a bexiga de um velho não é?
– Já saio.
– Pago mais uma dose se sair agora.
– Não posso sair com a bunda suja.
– Jesus! Quem liga pra uma bunda suja. Saia logo ou vou morrer.
Abri a porta e ele regozijou enquanto eu olhava-o. Fui até o bar, pedi uma dose na conta do velho. Iara estranhou finalmente e perguntou-me de onde eu conhecia o homem que estava bancando as bebidas, respondi que não era da sua conta. Fiz como Ana mandou e continuei trafegando ao redor da mesa, onde agora jogavam em duplas. Ana tinha sumido, entendi que fazia parte do plano, mas ao acabar meu drinque demoradamente, fui embora. Voltei lá uma semana depois com R$ 50,00, cumprimentei o Machado, que desta vez foi gentil, entreguei-lhe os dez da entrada, sentei no bar e perguntei a Iara sobre Ana.
– Ela saiu daqui cinco dias atrás e não voltou, as meninas falaram que fugiu para se casar com um homem grisalho.
– Olha só quem está aqui! Se não é o garoto das palmas. Três doses! Uma pra ele.
– Eu pago a primeira hoje meu velho.
Vim resgatar meu fio de bigode simbólico, a espinha podem segurar:
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Quanta gentileza.