Bengala

Preciso tirar o pó
Do escorpião na poeira
Reflexo branco
Caindo aqui dentro
Da janela do vizinho
Tento fechar a cortina constantemente
Mas continua caindo aqui
Iluminando uma linha reta
De praticamente nove centímetros
Até o pé da porta
Ele cruza Gal de Galileu
UL de PULP e a mão no gatilho
A borboleta azul do Novíssimo Testamento
Então percebo parte do recibo do aluguel
Que tanto precisei mês passado
Absorvido sob minal de Germinal
Busco-o pelo carnaval da janela
Fecho a cortina novamente
Lembro daquela rainha verde
Que torcia os velcros sobre a cabeça
Rasgo o recibo em pequenos pedaços
Atiro-os em direção ao ventilador
Quando volto do banheiro
Os nove centímetros como uma muralha lunática
Atingem meus dedos dos pés
Antes de sentar,  observo
Tação de Alimentação
Sento, e aquele sabre incandescente
Serra-me ao meio
Ao mesmo tempo em que me taxa de impotente
Brilhando meu maço de cigarros sobre o estribo
Uma mulher de cabelos cacheados
De bom porte, chega ao quarto vizinho
Eles conversam sobre a morte
De um estrangeiro no bueiro
Depois ela pede para estender as roupas no varal
Da janela
Eu ouço pingos nas telhas
Mas é uma mulher de fibra
Enquanto ela faz seus movimentos
Aquele reflexo que parecia tão contundente
Torna-se um pôr do Sol entre as montanhas
Uma víbora em um balde de ácido
Lanço-lhe um beijo, mas ela não vê
Eles conversam mais um pouco
Sobre o fim do amianto e as cruzadas perdidas
Ela vai embora, enquanto ele ouve uma música
Que também cai aqui dentro
Continuo serrado ao meio
Róis de Faróis, êniev de Turguêniev
Acendo a luz do meu quarto
Baixando a guarda
Mas quando leio que
Os Tigres de bengala
Podem acasalar até cinquenta vezes em um dia
Desligo a luz
E vou beber na cozinha