Desnuda alcova

Estalos no teto, riscos no chão
Fulgores
Espetáculo em cápsulas
Pegadas nas cinzas do cigarro
O terceiro gole, o quarto ato
Vias em vórtex, a cortina nem balança
Aqui dentro, aqui dentro
O eclipse é um trono no céu
Desnuda alcova
Onde centopéias de olhos azuis
Brotam pelo reboco da pedra ao lado
E a fornalha de linho branco
Esconde em chamas, a entrada de emergência
Ficar longe não é estar longe
Mas o tempo sempre nos fez estragar um pouco
O brilhantismo diminui na fonte, que por horas está cheia, por horas seca
O abastecimento, enquanto for dependente, é mórbido, coisa de vagabundo
Mas aí você está sozinho até o gargalo, e não reclama disso
Decide falar apenas por sinais, e ninguém entende, suas linguagens são outras, previsíveis
E eles seguem, orando por dinheiro e fodas
Colecionando um passado de hambúrgueres, parafusos, dentes postiços
Crimes, almas gêmeas, casamentos e a porra do Papa
E eu agindo como um cachorro de rua bêbado
Comendo o que tem, bebendo tudo que consigo e dormindo sempre que possível
Mas dificilmente é possível, o instinto aflora nas ameaças e oportunidades
Penso na insônia
Meu único prazer mantido por anos foi mastigado
Tento culpar o barulho dos vizinhos, suas gargalhadas
Suas caminhadas em horários suspeitos dentro das suas casas
Meu ventilador, as baratas, os ratos, a fome, a fama de um gambá no lixo
O gás aberto, as britas, a chuva, os portões escancarados, o tesão, a dor
Os mandamentos, as frieiras, as freiras, o chulé, a parede alaranjada, a peça pequena
A falta de uma televisão, a falta da leitura, os tênis novos, o colchão no chão
Meu corpo no chão, pálido, imóvel, lúcido, o silêncio das covas, a ânsia esgotada
A poucos metros ouço o ronco dos doadores de pipoca
Tão sobreviventes como tumores malignos
É isso, minha vida é um luto, por tudo que não perdi