John está morto

Foi intencional até certo ponto
Acreditem
Uma questão de sobrevivência avessa
Suicida convicto, chegou aos 30
Sem motivos, segundo sua consciência
Pra viver, pra morrer, pra nada
Mulher com 26, filha com 5
John queria morrer
A única questão que o impedia
Era não saber o real motivo
Esse era o crime para John
Não saber intrinsecamente
O motivo do desejo cadavérico
Tantas foram as regressões
Mas ele sempre via-se “normal”
Em todas fases
Em todas faces
Seu rosto não demonstrava anomalias adotadas
Corria, brincava
Chorava, mamava
Não nos seios de sua mãe
Que não tinha leite
Mamava a vizinha
Mãe de seu melhor amigo por 10 anos
Masturbava-se, media o pau
Comia as primas, rezava de joelhos
Para seu time ganhar
Quebrava os braços, roubava chocolate
Matava pássaros, fazia aviões de papel
Cagava nas fraldas, cagava nas calças
Cagava em qualquer lugar
John insistia nas regressões
Exigia um bom motivo para matar-se
Ia para a igreja, beijava a avó por pressão
Invejava Maicon, amava Cristine
A professora do primário
Fantasiava heróis, odiava ler
Pensou ser comediante, apanhou na cara
Sangrou e ficou envergonhado
Ganhou gincanas, riu de deficientes
Bebia cerveja com açúcar, borrava cuecas
Não tratava o cachorro, tinha ereções com desenhos animados
Broxava com Aline, perdia fichas no fliperama
Porém John desistiu das regressões aos 30
Decidiu criar seu próprio argumento válido
Cortou o pescoço da filha de 5 anos
Deixou jorrar
Queimou o corpo na churrasqueira, foi até a cozinha
A ponta da faca dando voltas em seu pescoço
Sem tocá-lo
Ainda não conseguia
Sua filha em cinzas e em nuvens carregadas não o convenceram
Fez o mesmo com a mulher
Mas uma força incrédula mantinha-o inerte
Amolecendo seus dedos
Largou a faca
Mesmo tendo matado a própria família
Continuava com o devasso vazio
O vazio que o impedia de morrer
A barbaridade de seus atos daquele dia
Em vão, em vão, em vão
Desvanecendo entre lacunas desconhecidas
Fato é, John não desistiu
Cinco dias depois frequentava boates diariamente
Traçando o que podia
Liberando sua mesquinharia estimada
Tudo pelo vírus
Queria e precisava saboreá-lo
Cinco meses passaram até confirmar
Tinha AIDS
Sigilosamente ficou sabendo o resultado
Chorou em frente ao médico
Que entendeu as lágrimas distorcidamente
Em casa, com o resultado aberto sobre o sofá
Regozijou abastecendo o 38, bala por bala
Embora só precisasse uma
O barulho delas entrando no tambor
Significava o fim da busca
Ao que parecia, nada mais justo
Combinar morte lenta e morte breve
Com o cano na fonte, fechou os olhos
Não sentiu um pingo de medo
Coçou a barba, engatilhou o ferro
Retesado mais uma vez
Descobriu-se insatisfeito
Incompleto
Incapaz de puxar o gatilho por aquilo
Um vírus apenas, como a gripe
Pegou o resultado e engoliu sem mastigar
Dirigiu-se até a garagem
Trouxe o machado para a sala
Abaixou as roupas debaixo
Excitou-se com Cristine
Prostrada sobre sua mesa escolar
E com um golpe de machado
Viu seu pênis rolar ainda duro
Pegou-o na mão e mordeu
Desmaiou
Acordou no susto minutos depois
Ainda rejeitado no clube
Correu estancar o sangue
Visualizou seu corpo quase sem cor
Precisava saber o motivo
E agora sem pênis
Faria sentido
Morri porque perdi o pau
Isso que pensava ainda precavido
Impossibilitado
Mate-me John suplicava
Esqueça o porque
Mortes não exigem justificativas
Não! John respondia-se
Busco isso por anos
Agora que criei coragem vou encontrar
Novamente o cano na fonte mostrou-se infrutífero
E de repente percebeu
Que não ter motivos para morrer
Era o maior para matar-se
Finalmente
Saiu de casa e jogou-se de um sétimo andar
Acabou em uma cadeira de rodas
Deu-se um tiro e ficou cego
Bebeu ácido e perdeu todos os dentes
Descobriram seus crimes
Morreu na cadeia
Ninguém sabe como