O estrago

Por favor, leia sem rir
Pense em minha seriedade ao descrever os fatos
Esqueça que sou um desabrigado com teto
Caindo com calma e alma
Não leve em conta meus vícios
Principalmente os de linguagem
Acredite que qualquer um reagiria da mesma forma
Lembre-se que a fogueira termina onde começa
E que o fogo só aquece os próximos
Após cagar na universidade
Pra ser mais exato, no prédio da enfermagem
Segundo andar, porta verde, “Masculino”
Meio rolo, cagada inteira, suficiente
Senti uma incandescente coceira ao me mover
Para lavar as mãos
Não ria
Estou tão sério quanto um funeral de mãe
Caso sério
Descia as escadas, desconfortável
Sentindo o batimento do coração nas pregas
A cada passo calculado, sempre pra baixo
Uma agonia aumentada com o roçar das nádegas
Era como se eu tivesse organizado um sapateado dentro do formigueiro
Todos dançarinos embutidos
Uma semana inteira aguentando isso
Mas hoje não dava mais
Liguei para minha mulher farmacêutica que está de férias
Era onze horas da manhã
“Me ajude, não consigo caminhar”
“O que aconteceu?”
“Coceira no rabo! Porra! Sempre depois de cagar! Qual a cura?”
“Coçar?!”
“Não consigo, preciso de mais dedos”
“Onde está?”
“Na universidade. Diga-me o nome de um remédio!”
“Acordei agora, preciso pensar um pouco”
“Tá brincando comigo?”
“Pode ser várias coisas! Assadura, vermes, fungos, bactérias, hemorróidas, tesão, sei lá, estou de porre!”
“E eu estou entre a vida e a morte! Por Deus, parece que sentei no Sol! Um nome de pomada, rápido!”
“Cristo! Vou saber o que tem?!”
“COCEIRA NO CU!!!!!!! ESTUDOU PRA QUE? AI, AI,  AI”
“Estou de férias, vai à farmácia e se explique”
“Nem pensar! Não sou o tipo de pessoa que sai espalhando as coisas. Me diga um nome!”
“Deixe-me ver…”
“Ai, ai, ai”
Silêncio de ambos os lados
Finalmente
“Ok…Compra dois comprimidos de Albendazol e a pomada Hemovirtus”
“Lembra o preço?”
“Claro que não!”
“Tu não serve pra nada! Obrigado, tchau”
Fui à farmácia e entrei de mansinho
Poucos clientes lá dentro, uma funcionária me esperava no balcão
“Bom dia” ela disse
“Boa tarde” respondi todo atrapalhado
“Pois não, boa tarde”
“Quero dois comprimidos de Albendazol”
“Só temos Albendazol líquido hoje”
“Ai, ai, ai” pensei
Mantive as nádegas imóveis e perguntei o preço e a diferença para os comprimidos
“Nenhuma diferença, e o preço é R$ 4,76 cada dose”
“Qual o preço da pomada hemovirtus?”
“Um momento…R$ 19,79”
Pensei rapidamente e respondi
“Moça, a pessoa que precisa dessa medicação julgava os preços mais baixos. Vou falar com ela antes de comprar, sabe como é, situação nada fácil”
“Entendo” ela disse
Fui pra rua, liguei:
“Mulher, acha que meu rego vale quanto?”
“Nada”
“Pois então me indique um remédio equivalente! Vinte paus uma pomada?! Ai, ai, ai”
“Hahaha….Sempre que mando secar essa bunda direito após o banho você me xinga. Caga três vezes por dia, é virado em pelo, sua como atleta no trabalho, usa três dias a mesma cueca, só compra papel higiênico de dois pila e fermenta vivo por dentro! Se fez a caverna, agora aceite os turistas ”.
Desliguei e voltei pra farmácia
“Vou levar uma dose de Albendazol e a pomada”
Saí de lá angustiado e entrei no primeiro prédio da universidade que vi
Engenharia civil, primeiro andar, porta do banheiro cor salmão
Sentei em um sanitário e resvalei o dedo médio com a pomada escura no boga
Uma magia quente e dolorida
Mais pomada
Um alívio desconfiado
Caminhei até o departamento onde trabalho
Derramei o Albendazol líquido em um copo plástico
Cheiro estranho e consistência duvidosa
Enquanto bebia ouvi a pergunta
“Que porra está bebendo?”
“Remédio” respondi após engolir
“Ainda com a garganta podre?”
“Negativo. Esse remédio é pro cu”
“Não está tomando pelo lugar errado?”
“Capaz! O que vai lá está na sacolinha”
Não ria
Pois sabe o que é pior? Isso tudo foi agora a pouco e não sei se vai funcionar
Enquanto continuo peidando com cheiro de pomada
Ai, ai, ai