O pássaro com uma asa não deixará de tentar voar

Uma lambia-me as bolas, outra lambia o pau, e eu me lambia os beiços. Aproveitando como os morcegos degustam a noite, o relógio pendurado torto na parede, sem pilhas marcava nove horas para sempre, uma sala fechada pra visitas, o berço quente, com três crianças brincando de ser gente grande. Uma guerrilha de corpos, misturando fluídos quentes na madrugada. Meus genitais lambuzados como um tombo de mel. Nossos cus piscavam pra cima e pra baixo. Mel ou merda, tanto faz, as moscas se contentam de qualquer forma, eu também. Meu caralho parecia uma metralhadora na buceta de Edna, enquanto Jéssica lambia seus próprios dedos, com uma cara pra lá de estranha. O rabo de Edna piscava sem parar, parecia que ia trucar a qualquer momento. Mas eu tinha o ás de paus latejante. Mudei de baralho. Lordose na Jéssica, bunda pra cima, meti no rabo, e ela não quis mais jogar, deu um solavanco pra frente, e gritou como uma bezerra desmamada do rabo ardido.
– Seu filho da mãe, quem disse que podia meter ali?
– Truco! Respondi.
– Seis! Disse Edna.
– Eu paro por aqui, vocês que se fodam!
Jéssica olhou para o relógio enquanto vestia as roupas, deixou-nos às nove horas em ponto. Fechou a porta, sentiu o ar da madrugada balançar serenamente suas franjas e respirou fundo. Chorou por dentro, lágrimas e orgasmos pensou. Perguntou-se enquanto descia as escadas, “O que é mais quente: porra, sangue, suor ou lágrimas?”. Não soube responder. Pela calçada ia andando sem notar as fisgadas traseiras. Lembrou-se da última conversa com Walter:
– Por que você não me ama? Ela perguntou.
– É difícil eu amar, qualquer coisa – ele respondeu.
– Mas você pode me amar.
– Por que eu amaria você?
– Por que não?
– Me passa a cerveja.
– Me ame por eu te passar a cerveja então.
– Eu pego.
– Deixa que eu pego.
Levantou com o vestido cravado na bunda, parecia que a bunda comia tecido, comeria qualquer tecido, Walter amava aquela bunda. Ela sabia.
– Você ainda vai me amar! Jéssica disse.
– Já vi mulheres melhores que você peladas e não amei.
Ouviu barulho no arbusto ao lado da calçada, dois olhos vermelhos miraram os seus. “Walter…Walter” ela chamou. O gato saiu correndo. Lágrimas e orgasmos, pensou. Edna foi tomar banho, eu fui fumar. Jéssica tropeçava nos terremotos da sua sexualidade. Sabia que morreria assim, em algum momento da vida, que não lembrava ao certo, tivera adotado a promiscuidade como mãe. Chupava paus e fazia risquinhos em um caderno, separava, uma coluna com os circuncidados e outra coluna com os sem circuncisão. A base de risquinhos terminou com duas canetas. Mas tinha mudado, por alguma razão que não lembrava ao certo. Agora até um toque em seus seios por cima da roupa lhe causava constrangimento, mas mesmo assim se entregava, por mais que odiasse as situações vestia sua fantasia de trepadeira. “Lágrimas e orgasmos” escrevia no mesmo caderno dos risquinhos. Acabou com mais três canetas.
Edna saiu do banheiro enxugando-se com uma toalha vermelha. Alguns pingos ainda reluziam em sua pele, algumas gotas escorregavam e fugiam até o chão.
– O que será que deu com a Jéssica? Perguntou-me.
– Deu o rabo e saiu – eu disse.
– Ela nunca fez isso.
– Truquei e ela escondeu as cartas.
– Eu pedi seis!
– Você aguenta mil trucadas no traseiro.
– Haha.
Jéssica atravessou a rua deserta, um fogo gelado apossava o transe de suas memórias aturdidas ao ponto de enxergá-las verticalmente nas paredes cegas do amor concretado no útero. Sob as luzes de um poste forçou um choro, era muito difícil Jéssica chorar pra fora, mesmo assim uma única lágrima ficou presa no olho direito, ela piscou forte, mas permaneceu grudada, desistiu, aquela lágrima não servia mais, tinha que ser fresca. Já sem luz nenhuma e sem sombra seguiu tentando chorar em linha reta. Lembrou-se de seu choro mais colossal, queria repetir. Isso foi quando Joaquim lhe deixou por esse motivo:
– Não te quero mais – Joaquim disse.
– Por que?
– Porque sua vagina é estranha.
Joaquim foi embora, deixando pra trás uma poça de traumas nos lençóis. Jéssica mergulhou e afogou-se. Logo que ele saiu escreveu em seu caderno: “Minha vagina é estranha”. Na calçada pisou em uma merda de cachorro, “Joaquim…Joaquim” ela disse, a merda fedeu. Sentiu que uma lágrima fresca formava-se em algum lugar do corpo, parou e preparou-se. Dois faróis aproximavam-se pela rua deserta.
Edna foi dormir. Continuei fumando.
Os dois faróis passaram enquanto Jéssica retirava da bolsa seu caderno e uma caneta. Anotou na última página: “Lágrima vinte graus”. Viu um gramado onde foi limpar a sapatilha fedorenta. Pensou “Qual a temperatura da merda?”. Buscou seu caderno e escreveu logo abaixo da última anotação: “Merda não interessa”. Decidiu sentar no gramado um pouco mais a frente de onde havia limpado a sapatilha, tinha seus motivos.
Edna gritou do quarto:
– Não consigo dormir. Que horas são?
– Nove horas – gritei.
– Está cedo. Quer jogar baralho?
– Quero.
– Qual jogo?
– Buraco.
– Qual deles?
– O mais profundo.
– Você tá blefando. Não tem cartas pra mais uma rodada.
– Prepara a mesa enquanto embaralho.
– Vai demorar?
– Não.
– Quando vier me traga um copo d’água.
Um transeunte percebeu aquela mulher sentada no gramado. Foi chegando perto de mansinho, com receio, já era tarde, o que uma mulher poderia estar fazendo sentada em um gramado naquela altura escrevendo? Nem notou que ele se aproximava e guardou o caderno com a caneta na bolsa.
– Está tudo bem?
Jéssica levou um susto, seu coração disparou mandando mais sangue pra fora de seu corpo através do corte que ela mesma havia feito.
– O que aconteceu?
– Não foi nada – Jéssica disse acalmando-se. Fiz o corte propositalmente.
– Precisa de ajuda?
– Na verdade ainda preciso saber qual a temperatura da porra e do suor.
– O que?
– Você poderia gozar na minha mão?
– Sou impotente.
– Que pena. Qual seu nome?
– Walter Joaquim.
– Imaginei.
– Posso te chupar.
– Cai fora.
O transeunte seguiu caminho e Jéssica novamente puxou seu caderno. Folheou até onde acabavam-se os “Lágrimas e orgasmos” e escreveu “Walter Joaquim não tem porra pra mim. Walter e Joaquim”. Arrancou uma folha em branco para limpar o sangue. Levantou, não tinha pra onde ir a não ser voltar pra casa. Correu pra suar até em frente a porta. Retirou o caderno e a caneta. Abaixo de “Sangue trinta graus” escreveu “Suor vinte e cinco graus”. Entrou em casa.
– Acho que a Jéssica voltou – Edna disse.
– Continua chupando – eu disse.
– Não goza ainda seu filho da puta – disse Jéssica entrando no quarto em posse do caderno.
– Tá difícil – respondi. Vai desenhar minha piroca? Perguntei.
– Estou com a boca dormente já – Edna reclamou.
– Deixa pra mim – completou Jéssica.
Maravilhosa. Aquilo que era boquete. Gozei. Ela pegou o caderno, fiquei intrigado.
– O que é isso? Perguntei.
– Fica quieto.
“Porra dezessete graus”. Voltou muitas páginas e fez um risquinho na coluna circuncidado.
– Lágrimas e orgasmos?! Poderia escrever um livro com esse nome – falei.
– Já deve existir.
– E “Delírios com lágrimas e orgasmos”?
– Não sei cara.