Passado envelhecido ( I )

Ela subiu as escadas do bar na plenitude de sua razão
Subi atrás, mas pra pegar uma cerveja antes de sair
Depois de comprar e pagar, mudei de ideia
Decidi dar uma olhada no ambiente
Queria achá-la, forçar um pouco de compaixão e empatia
Pra foder no fim de tudo
Coisa que todo homem num momento da vida se sujeita e se arrepende
Dei uns vinte passos sofridos no meio da multidão
Mesma visão da escada, sensualizava no cangote de outro
Como fazia comigo, em tantas outras noites quentes e minhas
“Esse é o preço, esse é o valor, o nocaute no último round da última luta”
Se dependesse dela eu teria que brigar com todos os homens do bar, ou só com ela
Mas por Deus, eu não era homem o suficiente pra bater em uma mulher bêbada
Muito menos em todos os homens do bar
Desci as escadas para fumar
Sentei no meio-fio
A noite era fria, muitas outras pessoas fumavam por ali
As luzes dos postes iluminavam tudo, todas aquelas cabeças ordinárias
Que nada sabiam da loucura que enraizava por dentro das outras cabeças
O centro da cidade, paredes sufocantes, eu preferia estar no sofá
Tenho em mim que beber é como rezar, só é verdadeiro em casa
Uma moreninha bonitinha saiu do bar
Sentou também e me pediu um cigarro, começamos conversar
Me empolguei com ela
Marisa, era descontraída, de pele muito branca, olhos negros
– Escuta aqui sua moça sem cigarros, que tal irmos lá em casa fumar os meus?
– Meu namorado não iria gostar.
– Por que não pede cigarro pra ele então?
– Ele não fuma.
– Então você é só mais uma das tantas mulheres oportunistas. Eu te forneço algo, você não me fornece nada. É a transação perfeita pra você.
– A cara, vai pro inferno!
Jogou a bituca fora e entrou no bar.
Poderia ficar, tentar qualquer outra bêbada, mas há ocasiões em que só se retirar alivia
E esse momento é tão íntimo como tirar as meias