Passado envelhecido ( IV )

A noite chegou em seu compasso, sem pressa, e somente eu e o Jaimir permanecíamos afundados nas cadeiras, os outros foram aos poucos se dissipando e levando na memória uma tarde ambígua. Devia ser umas 22:00. Cedemos uma mesa para outro grupo de pessoas e mandamos vir mais duas geladas. O Jaimir estava cada vez mais engraçado, e eu cada vez mais bêbado. O barulho no bar era intenso. As mulheres eram belas, tinham um produto cada uma pra mostrar e enlouquecer. O cheiro delas atravessava a noite como as estrelas cadentes, deixando uma calda para serem seguidas e penetradas conforme desejavam. Em nosso caso, seria mais fácil um astronauta cair na mesa e pagar mais duas cervejas. Pedi pro Jaimir contar mais uma vez a história de como quebrou o dente da frente. Era impagável sua atuação, eu ria e desabava na mesa, pra que ser escritor se em algum momento do trabalho todos corrompem seus prazeres? Era bem mais fácil beber e ver a dramatização daquela história.
Foi então que ela apareceu, era loira, cabelos curtos envoltos em uma touca preta, com um shorts jeans, blusinha branca apertada, com peitos procurando uma forma de se sentirem livres, usava chinelos de dedo, pés pequenos. Suas pernas eram compridas e contornadas pela luxúria, uma calda bem ao nosso lado, alterada, seu olhar era vago e atravessava as outras mesas colocadas na calçada, a rua, um prédio, a escuridão e o barulho. Parada ao nosso lado com as mãos na cintura parecia tentar compreender alguma coisa. Uns minutos antes, ao ir até banheiro, percebi ela cheirando cocaína em uma mesa no fundo do bar, bem escondida.
Tentei chamá-la quando a vi ali, mas nem ouviu. Foi Jaimir que chamou sua atenção com um movimento de braço. Que olhar insano, rompeu a velocidade do som como se dissesse “Eu acabo com você desdentado”. Ele recuou.
– Hei gata, sente-se aqui conosco – falei.
Arrastei uma cadeira e fiz sinal com a mão. Por alguma razão tinha certeza que ela sentaria, eu não era feio, só tinha um pau três milímetros abaixo da média nacional e vestia um uniforme de trabalho honesto, e felizmente, a informação sobre o pau podia guardar pra uma surpresinha doravante. Ela ficou um pouco aturdida com a situação, olhou pra cadeira, olhou pra mim, pro Jaimir e pra cadeira. Não falou nada, apenas sentou.
– Tudo bem? Continuei.
As palavras simplesmente não saíam por ela, pareciam presas. A boca insistia em não abrir. Ela me olhava somente nos olhos, eu alternava entre seus peitos e seus olhos. Finalmente sussurrou:
– Quem é você?
– Sou Ramon e ele se chama Jaimir. E você?
– Glória.
– Oi Glória, que tal irmos pra um motel nós três? Disse ele, querendo terceirizar um sexo.
Não era de meu feitio largar uma dessas logo de cara pra uma mulher que aparentava loucura internada e enclausurada. É bom conversar com elas, vê-las perdendo-se totalmente nas linhas de raciocínio, mas nunca perdendo a energia que resta. Embora eu também logo estaria embalando frases perdidas e sem nexo. Novamente ela lançou um olhar que o colocou no lugar.
– Você é muito bonito Ramon – ela disse.
– Bom Glória, já que começou uma conversa sincera, meu pau é três milímetros abaixo da média nacional.
– O meu é maior que a média.
– Mas eu tenho todos os dentes Glória, todos amarelados, veja.
Mostrei-lhe os dentes e depois olhei pro Jaimir e disparei:
– Dá um sorriso aí africano.
– Vai-te a merda – me respondeu.
– Então Glória – falei – você tem um pouco de pó no nariz. Andou fazendo bolo?
Esfregou sua mão inúmeras vezes nas narinas, um pouco assustada.
– Não, não, estava cheirando cocaína lá perto do banheiro. Saiu o pó?
– Deixe-me ver mais de perto.
Encostei meu nariz em seu pescoço, ela tremeu um pouco com o choque de temperaturas corporais, ela gelada, eu fervendo. Dei-lhe um beijo de leve no pescoço, queria poder ver sua cara nessa hora, queria poder ver sua buceta reagindo aos meus impulsos disparados com o toque, aquela buceta viciada sentindo meu corpo alcóolico transmitindo uma mensagem de sustentação. Não tinha pó, não tinha cheiro, era pele somente, pele e descontrole. Me afastei aos poucos.
– Saiu sim Glória – falei.
– Vou pegar uma cerveja pra gente – ela disse e levantou-se.
O Jaimir firmou um olhar em mim enquanto acendia um cigarro.
– O que foi? Perguntei.
– Quer ver se tenho pó no nariz também?
– Tu tem pó nesse buraco do dente.
– Filho da puta. Por que falou isso? De onde ela sentou nem daria pra ver. Três milímetros abaixo da média? Brasileira ou japonesa?
– Três milímetros pra te enfiar no rabo. Agora vê se cala a boca e esconde esse buraco.
– Acredita que ela vai voltar? Tu espantou a mulher com esse bafo cozido e esse cheiro de asa que dá pra sentir daqui.
– Essas mulheres se alimentam disso. Por Deus Jaimir, ela sentou ao lado de dois uniformizados. Acha que ela esperava um cheirinho de hortelã? Ela sabe que queremos fodê-la, nós dois, então pare de falar coisas óbvias ou vai pra casa.
– Ela disse que ia trazer cerveja, ficarei aqui.
Passou-se uns quinze minutos até ela voltar com uma cerveja. Seu olhar tinha mudado, estava alegre. Pela primeira vez a vimos sorrindo, e nem sabíamos o porquê, até ela falar.
– Voltei rapazes. Consegui essa cerveja e uma buchinha de pó tocando uma punhetinha no banheiro.
– Que maravilha – falei – pode deixar que me sirvo.
– Me serve também – disse o Jaimir.
– Eu lavei as mãos seus bobos. E o cara nem conseguiu gozar.
– Tu tá valorizada no mercado Glória. Ofereci R$ 3,00 por uma punheta tempinho atrás.
– Haha – ela riu.
– Glória –disse o Jaimir – o que você faz da vida?
– Nada demais e você?
– Trabalho com esse infeliz.
– Um infeliz com trinta e dois dentes na boca – falei.
Alguns outros caras começaram a passear ao redor da nossa mesa, a maioria com mais de quarenta anos e sedentos por um encontrinho no banheiro. Mas ela nem ligava, tinha gostado de nossa companhia e aparentemente uma bucha e uma cerveja já estava bom.
Arranquei sua touca pra ver como ficava sem. Uma touca quente com cabelos curtos grudados. Ela pirou com minha atitude, e eu ria das suas investidas sem sucesso de recuperá-la e colocá-la na cabeça novamente.
– Me dá aqui Ramon!
Lancei pro Jaimir, que logo me devolveu. Ficou furiosa e se atracou em cima de mim pra finalmente recuperar e alçá-la sobre seus outros cabelos curtos e amarelos.
– Escutem aqui, mais uma dessas e eu sumo dessa mesa.
– Relaxa Glória, você fica bonita sem ela – falei.
– Não quero ficar bonita.
– É. Eu e o Jaimir também não. Até acho que ele ficaria mais bonito com essa toca na boca.
– E tu ficaria mais bonito com essa toca no cu – ele me disse.
– Por que não colocamos ela no meu cu e depois na tua boca? Dois homens ligeiramente bonitos!
– Hahaha – ela ria – vocês me matam de rir.
Pegamos mais duas cervejas. A noite estava boa de vivê-la, aquela mulher tinha impedido nossa ida embora. Teria que surrupiar cigarros nos próximos dias pra compensar os gastos no bar, mas Glória não deixava Ramon e nem Jaimir voltar para o consolo de seus colchões e dormir como coadjuvantes de mais uma sexta-feira. Os homens sedentos por punheta também não iriam embora antes que nós. O bar flamejava crendices, como um barulho oco de vozes atracadas na solidão.
Coloquei minha mão em sua coxa esquerda enquanto a ouvia falar da sua tentativa de reabilitação, há dois meses. Havia raspado o cabelo uns dias após sair da clínica.
– Vou ao banheiro, já volto – disse ela sorrindo.
Foi. Nem olhei pra ver se era seguida.
– Hei Jaimir – falei – vai pra casa.
– Vou sim, pra casa dela. Se ela sentou aqui foi por minha causa. Então tira esse rabo loiro da cadeira e se suma.
– Então vamos nós três pra tua casa que é mais perto.
– Não dá. Minha mãe e meu padrasto estão lá, e só Deus sabe o que fariam se me vissem chegando com vocês.
– Então vamos pra minha.
– Muito longe.
– Então vai pra casa.
– Vamos pra casa dela então.
– Pode ser.
Ela voltou com mais uma cerveja e sorrindo.
– Posso servi-los?
– Pode – falei – acho que ninguém goza por aqui. Escuta Glória, por que não vamos beber em outro lugar?
– Não sairei daqui tão cedo hoje – ela respondeu.
– Nem eu – disse o Jaimir.
– Vai ficar fazendo o que aqui Jaimir? Batendo punheta por cerveja? Pode até conseguir um dente fazendo isso – falei.
– Ou posso arrancar um teu com um soco.
– Vocês dois, se acalmem. Jaimir, deixe-me ver esse dente que o Ramon não para de falar.
Ele ergueu uma parte do lábio superior com ela chegando perto pra ver.
– Aaaahh! Que bonitinho! Ficou um charme isso aí.
– Pois é, o charme está na ausência – completou ele.
– Me digam, quantos anos vocês têm rapazes?
– Vinte e nove.
– Vinte e seis Glória, e você?
– Trinta e um.
Permanecemos nessa, bebendo, fumando e trocando de assuntos na maior parte do tempo.
Depois de umas duas horas e não sei mais quantas punhetas o Jaimir decidiu abandonar o barco e me deixar sozinho com ela. Deu-me uma piscadinha, seu aval de que tínhamos lutado juntos, mas não aguentava mais beber e ouvir tanta maluquice. Também estava no meu limite, mais uns dez minutos e eu que daria uma piscadinha pra ele, a piscadinha da derrota e consolo do colchão vazio. O bar ainda continuava movimentado, e praticamente nenhum quarentão rondava nossa mesa mais. Ela sofria por questões que só mais tarde fui entender.
– Hei Glória, por que não atravessamos essa rua e vamos sentar lá naquele gramado?
– Por quê?
– Quero pegar nesses peitos e chupá-los.
– Tem dinheiro pra uma bucha de pó e uma cerveja?
– Não.
– Então vai lá que vou conseguir isso pra gente, já vou lá.
Apesar de tudo ela tentava aparentar normalidade, tinha gostado de mim. Talvez pensasse que um homem vestindo uniforme de trabalho não seria capaz de interessar-se por ela.

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