Passado envelhecido ( VIII )

Saí do bar e passei por entre as mesas agrupadas na calçada. Todos felizes, sempre. Atravessei a rua e desci os três degraus de uma escada até entrar no território. Uma árvore me deu vontade de mijar, então me apoiei nela e reguei, ao que uns sons mínimos de violão harmonizavam aquela intimidade homem/natureza. Só quando parei de mijar que vi o músico, voltei pra sentar na escada e logo ao lado um cabeludo com boné militar dedilhava seu violão, concentrado no instrumento, sem cantar.
– Hei cara – falei – toca mais alto.
– Não quero tocar mais alto – ele respondeu. Com toda razão, eu era uma platéia ignorante e surda.
– Ok cara, toque baixo, logo uma mulher chegará aqui com uma cerveja e uma mão desinfetada pra te ouvir também.
– Sua mulher?
– Sim. Não a conheço mas é minha.
– Pode crer.
– O que está tocando?
– Uma música minha.
– Uma música sua só pra você ouvir? Acho justo.
– Quer ouvir?
– Sim, eu e a árvore.
Agora mais alto era possível ouvir o violão e seus tons obscuros. O local padecia de luminosidade, uma coleção de sombras organizava o lugar pra ninguém ver. Ouvi sua música sem falar nada, nem a árvore, nada de aplausos, somente a última nota satisfeita.
– Essa é minha música – ele disse.
– Show, e essa que vem vindo aí atrás é minha mulher.
– Essa de touca?
– Touca e cerveja. Bem ela.
Ela sentou ao meu lado, então lhe dei o primeiro beijo da noite e apalpei-lhe os peitos firmes por baixo da blusa. Seios feitos pela medicina, a segunda mulher com silicones na minha vida que tocavam a palma da minha mão, batendo palmas para Ramon, palmas para a música do cabeludo, palmas para a árvore mijada, palmas para a nova vida e bunda de Dóris, palmas para os trinta e um dentes do Jaimir, a mesma mão de uns dos piores escritores do mundo alisava a pele costurada de Glória no sentido horário e anti-horário, apertando e sugando o tempo, a sombra e as notas musicais do violão. Por fim, nos desvencilhamos antes que os silicones começassem a rolar pela escada.
– Trouxe cerveja. Quem é esse cara? Ela perguntou-me.
– Não sei – respondi.
– Hei cara! Quer cerveja?
– Quero.
Levantou-se e levou a garrafa até ele, que estava há uns três passos da gente. Ele bebeu no bico e agradeceu.
– Qual seu nome? Ela continuou.
– Claudio e o seu?
– Glória. E esse daí é o Ramon – apontou o dedo pra mim.
– De onde vocês se conhecem?
– Do bar – eu disse – tirei a touca dela e se apaixonou por mim.
– Haha – ela riu – Toca algo pra gente ouvir Claudio.
– Pode ser – falou preparando as próximas notas.
Ele não cantava, só tocava, isso criava um ambiente funeral, e porra, eu não podia morrer antes de comer a Glória. Esperei ele acabar sua música instrumental e pedi o violão. Não conseguia lembrar de nenhuma música que sabia inteira e devolvi o violão.
– Hei Cláudio – eu disse – toque algo que você possa cantar também.
– Vou tentar.
– Glória, me alcança a cerveja.
– Tá aqui Ramon.
Queria ir pra casa já, pra dela, pra minha, pra qualquer casa, mas ela permanecia mais elétrica do que nunca, suas pernas eram boas e o violão entusiasmava sua noite ao lado de um músico mudo e um trabalhador exausto. Era o pó, eu não teria chances com ela. Comecei cogitar a hipótese de perder a mulher pro músico, e isso sim naquela hora seria pior do que perder um dente da frente. Deixei Glória falando com ele um tempo e fiquei bicando a garrafa até acabar.
– Hei vocês dois – eu disse – ficamos sem cerveja.
– Sem problemas Ramon, vou até o bar pegar mais uma – ela disse.
Mijei na árvore por longos segundos. Às vezes alguma pessoa passava por ali, mas era raro e ninguém notaria três milímetros a menos, se bem que mole parecia ter um quilômetro abaixo da média.
– Me empresta esse violão.
Toquei umas notas até onde conseguia lembrar delas, depois tentei lembrar de uma música que tinha composto aos vinte um ou vinte dois anos, a letra dela era assim:
“Nove meses abra os olhos
Indiferente do que ver e verá
Os sorrisos não são falsos ali
Não é tempo de se preocupar
Que coisa linda é o que dizem de ti
A bondade estampada em si
Um fantoche bem cuidado
Em anos vira zumbi
Obedecer, se defender, criar seus próprios momentos de lucidez
Geralmente é algo passageiro
Tornando visões reais
Ao seu jeito e ao seu modo de ver
Você ainda é capaz de obedecer, se defender, criar seus próprios momentos de lucidez”
Era impossível lembrar, realmente estava cansado. Pensava comigo que já tinha meio conto pra escrever, mas seria muito melhor terminá-lo com uma trepada. Ela voltou com a cerveja e sugeriu descermos até um gramado que se situava em nossa frente, há uns dez metros. Concordamos e fomos lá. No que sentamos pude ver uma alma transportando alucinações por perto da escada que recém tínhamos deixado, com um jeito peculiar de andar e observar.
– Ô filho da puta! Gritei pra alma.
– Quer ver um filho da puta na minha zorba? Quer? Quer?
Ele não conseguia distinguir quem éramos, ou melhor, quem era o filho da puta que o chamava de filho da puta.
– Eduard seu pateta! Junte-se a nós!
Deu uns passos por meio das sombras e começou rir quando me viu.
– Porra Ramon! Quase tiro o pau pra fora.
– Senta aí e bebe essa cerveja. Onde estava indo? Perguntei.
– Saí pra dar uma volta. Quem são eles?
– Essa é a Glória, aquele é o Cláudio, e o violão não sei o nome.
– Vamos pra praia? Já indagou Eduard.
– Vamos!! Respondeu calorosamente Glória.
– Não vou – respondeu o aborrecido Cláudio.
– Vamos pra qualquer lugar – respondi.
– Hei Cláudio, anima e vai tocar um violãozinho na praia! Estou de carro – continuou ela, realmente excitada com a proposta.
– Não quero Glória, podem ir, vou pra casa.
Bom, não perderia a mulher pra um músico, no máximo pro meu único amigo. Nos encaminhamos ao seu carro, até então desconhecido, em um estacionamento. Até o momento eu encarava Glória como aquela história de alguém indo fazer uma entrevista no hospício e encontrando um paciente conversando com uma árvore no meio do pátio. O entrevistador pergunta:
– Sinceramente, pensa comigo agora, você não acha maluquice um ser humano conversar com uma árvore?
E o paciente responde:
– Maluquice seria se ela não estivesse me respondendo.
E pra mim, nós dois éramos as árvores.
Antes de entrarmos em seu carro, ficamos dando instruções pra ela conseguir manobrar. Quando conseguiu virar e endireitar a ponta do carro, parecia em fuga.
O Eduard voou para o banco traseiro e eu sentei na frente.
– Preciso ir pra casa trocar de roupa – disse ela.
– Acelera isso aí Glória!! Disse Eduard, chegando a Marte flutuando.
Eu queria rir, rir do dia inteiro. Éramos todos marionetes impulsionados pelo fervor das emoções. Podia ver nas manchetes “Metido a escritor morre afogado antes de comprar seus livros. Editora contata a família, e mãe responde: Não sei de nada, não pagarei nada. Meu filho escritor? Pra mim não passava de uma grande decepção que não queria estudar e nem tomar água”. E eu vazando água salgada pelo cu, provando mais uma vez que se a sede mata, a água também.
Enquanto ela dirigia eu passava minha mão em suas coxas, suas sensações a faziam dar uma pisadinha a mais no acelerador, o carro então parecia um coração com arritmia, bombeando Ramon, Eduard e Glória pelas vias circulatórias, três glóbulos vivos boiando através do álcool, maconha e pó respectivamente.
– Acelera Glória, acelera! Continuava o Eduard.
– Não anda mais que isso! É 1.0! Qual seu nome mesmo?
– Eduard. Já esqueceu?
– Me desculpe.
Que belas pernas. Enfiei a mão por dentro do shorts e só aí que percebi, estava sem calcinha e não se depilava há tempos, talvez essa fosse a promessa, raspo a cabeça e encabelo a buceta. Deixei que meus dedos ficassem presos, dando nós e nós. 1.0, pé no fundo, rumo a sua casa, precisava trocar de roupas.
Chegamos lá em torno de sete minutos após sair do estacionamento. O portão foi aberto pelo controle de dentro do carro, por ela óbvio. Acelerou e subimos uma rampa até a garagem. A casa era imensa só de olhar por fora. Dois andares, uma porta frontal, uma sacada no segundo andar com mais algumas janelas ventilando o ambiente. Embaixo somente uma janela, a do seu quarto. Dois carros a mais que o 1.0 estavam estacionados na rampa. Um gramado ainda completava o terreno até as cercas laterais.
– Podem entrar – ela disse. E foi correndo pro seu quarto.
Por dentro era surreal a visão. Uma guerra com mais de quinhentos combatentes não teria bagunçado tanto a sala. Algumas facas espalhadas pelo chão, com panelas, travesseiros, em torno de trinta maços de cigarros lacrados, cobertores, um pau de borracha, belas calcinhas, e tantas coisas absurdamente agrupadas naquele espaço sagrado, afinal, por trás de tudo ainda havia um altar montado, com uma santa abençoando anjinhos menores e cheirando a fumaça das velas queimando lentamente.
– Que loucura! Disse Eduard.
– Podem entrar aqui! Ela gritou do quarto.
Seguimos a voz. O quarto também, cenário de uma guerra, a guerra de Glória contra o mundo, e dois soldados sobreviventes faziam o reconhecimento do terreno, pisando devagar, tentando encontrar uma simples razão pra tudo aquilo antes que explodíssemos em uma mina terrestre, uma mina loira de cabelos curtos, extremamente receptiva e amável. Ela já vestia uma calça preta com uma camiseta branca, olhava-se no espelho e não se agradava com o que via.
– Está linda Glória – falei.
– Está demais! Disse o Eduard.
– Estou horrorosa – completou ela.
– Você disse que não queria ficar bonita mesmo.
– É Ramon, nem bonita nem horrorosa.
Abriu uma porta do seu guarda-roupa e retirou três perucas. Uma vermelha, uma rosa e uma loira. Fiquei somente observando sua naturalidade em desviar das tralhas e pisar nos poucos pontos vagos do piso, só com a ponta dos pés. Granadas, granadas, granadas em sua vida, e ela usaria todas pra se defender e pra ganhar sua guerra, a guerra de Glória contra o mundo, Glória contra Glória.
– Qual peruca você prefere Ramon?
– Preciso vê-la com todas pra saber.
Primeiro vestiu a loira.
– Tenta outra – falei.
Vestiu a rosa, parecia uma boneca com olhos de bruxa, nada tinha a ver com ela.
– Não gostei – eu disse.
– Também não.
Então só restava a vermelha, a mais comprida, chegava até sua bunda e a tornava demoníaca, uma espécie de brasa queimando seu corpo, fazendo-a brilhar em meio à guerra, como um sinalizador único, mantendo-se aceso por trinta e um anos e fervendo suas entranhas, conservando suas volúpias aquecidas e endurecendo meu membro.
– É essa – falei. Agarrei-a pela cintura e nos beijamos.
Acariciou meu pau por cima da calça e disse:
– Vamos pra praia!
Fui pra fora da casa enquanto foi procurar a chave de outro carro. O clima era mais gelado que o normal, o vento batia em mim e no Eduard, fazia a chama dos cigarros iluminarem-se, a noite seria longa, Ramon não escreveria nada naquele dia, se era um conto que procurava naquela tarde quando se juntou aos parceiros de emprego para uns goles, havia encontrado muito mais.
Ela saiu pela porta, trancou-a, estava apressada e entusiasmada, uma bunda apressada e entusiasmada, peitos apressados, entusiasmados e siliconados, que antro feminino e diabólico.
– Desculpem a demora – ela disse.
– Posso dirigir? Perguntei querendo um “não” como resposta. Estava tonto, consciente mas tonto, ao ponto de querer dirigir após dois anos parado e bêbado.
Jogou-me a chave e disse de qual carro era. Podia ver nas manchetes “Metido a escritor arrebenta carro em árvore com mais dois ocupantes, mas só ele morre, graças a Deus antes de publicar um livro inteiro. Editora e os dois sobreviventes do acidente cobram suas dívidas e mãe responde: Meu filho escritor? Nunca ouvi falar. Um carro novo? Não sei de nada. O imprestável só morreu porque não sabia beber água”.
Fomos até a minha antiga moradia pegar a vodca e a erva.
– Já volto aí – disse Eduard ao fechar a porta traseira do carro.
Tirei os peitos dela pra fora e comecei mamá-los no banco do carona.
– Para! Para que tá frio!
Estupendos, uma cirurgia bem feita.
– Huuummm Ramonnn Huuummmm.
Mordi e lambi, enquanto deslizei a mão, soltei os botões de sua calça e com certa dificuldade infiltrei minha mão até o molho. Que sensação ótima molhar os dedos, morriam afogados como um caldo de galinha. “Afogue-nos Ramon! Afogue-nos!”, e eu afoguei-os.
– Huuuummm Huuuummmm
– Vou te foder Glória, vou te foder aqui.
– Não vai, huuuuummmm, não vai Ramon, huuuuummmm
Tirei a mão do molho e abri o botão da minha calça, foi quando a porta traseira se abriu e o Eduard entrou.
– Pronto – ele disse – podemos ir.
– Vamos lá Ramon, vamos pra praia!
Abotoei as calças e desci o morro íngreme, dava graças a Deus por não precisar subi-lo a pé todos os dias.
– Pra qual praia vocês querem ir? Não sei chegar a nenhuma – falei.
Eu era guiado por ela, só andava devagar, virava e parava nas esquinas.
– É por ali.
– Ok Glória.
Não lembro depois de quanto tempo chegamos. Nem que horas eram, mas lembro do vento e do cachorro solitário que guardava a praia pra si, sentado na areia, somente ele naquela imensidão que fazia sua curva sem pressa entre o mar e as rochas. O cão rosnou ao nos ver pisando na sua areia, no seu momento de reflexão. Sentamos em uma parte mais escura, eu com a vodca, Eduard tentando acender seu fumo e Glória olhando para todos os lados.
– Vou procurar um lugar pra cheirar essa bucha – ela disse.
Foi se arrastando contra o vento, contra a areia, contra a guerra e o mundo, Glória e sua glória. Deslacrei a vodca, dei um gole pra esquentar.
– Que incrível esse céu – ele disse.
– É o mesmo – eu disse – só está carregado e escuro.
– Pra onde ela foi?
– Não sei. Tô cansado.
– Para com isso. Relaxa e aproveita.
– Quero dormir.
– Que horas são?
– Hora de dormir.
– Também to com sono. Quer dar uma bola?
– Não.
– Então dá uma cheirada e acorda.
– Não vou cheirar nada. Quero dormir cara, gosto de encher a cara e dormir, é como um pacto, depois de encher a cara dormir, dormir pra sempre.
– Não vai trepar?
– Trepar e dormir. Ou talvez dormir enquanto trepo, ou trepar enquanto trepo, ou dormir enquanto durmo, to acabado.
Nesse instante ouvimos uns gritos parecidos com uivos, vinham de uma escuridão atracada em nossas costas. Era Glória correndo e gritando, no caminho desvencilhou a peruca da cabeça e continuou gritando, uivando e correndo. Passou por nós erguendo areia por trás dos calcanhares e seguiu em direção ao mar. Estava possuída, derrubaria um trem dos trilhos, mantinha uma linha reta. Alcançou a água, o oceano notou seus pés afundando e apavorando suas águas frias e poderosas.
– O que ela está fazendo? Perguntei pro Eduard.
– Não sei. Acho que foi nadar.
– Porra, nesse frio?
– Ela não sente frio. O mar que cuide dela.
Dentro do mar ela ainda gritava e batia as mãos. Passava as mãos sobre a cabeça quase careca.
– Entrem vocês também! Ela gritou de lá.
– Se entrar eu durmo! Gritei de volta.
Passados uns dois minutos ela não aguentava mais o frio. Saía do mar na mesma velocidade com que tinha entrado. Sentou-se ao meu lado tremendo e molhada. Me deu um beijo e me chamou para ir atrás da sua peruca.
– Já voltamos – falei pro Eduard.
Ele concordou com a cabeça e deitou-se na areia. Caminhamos um pouco, peguei sua peruca e coloquei na minha cabeça, mas nem aquele vermelho me fazia esquentar, pensei que ela morreria na volta, toda molhada, mas ela tinha algo que a mantinha mais viva do que eu.
– Vamos até aquele muro ali em frente. Quero cheirar o resto. Depois vamos pra casa – finalizou.
Eu estava a ver navios, concordaria com qualquer coisa desde que fossemos pra casa. O vento começava me sufocar e abalar minhas tripas. Calafrios corriam dos calcanhares até os cabelos. Queria dormir, só isso, trepar e dormir, ou só dormir já estava bom. Ela deu sua cheirada milagrosa e estufou os olhos.
– Você fica lindo com essa peruca Ramon. Eu te amo.
– Sim Glória, podemos ir pra casa agora?
– É sério, eu te amo.