Passado envelhecido ( XI )

Teve aquela mulher, por dois meses. Nenhuma reclamação. Suspeita. Intransigente. Míope. Abusada. Absurda. Artística. Minimalista. Subjetiva. Aleluia. Bestial. Concreta. Cozida. Passada. Maiúscula. Adorava tirar fotos sensuais minhas após uma trepada. Exigia “Faça uma pose erótica!”. Sensualidade pra mim significa mostrar o peito peludo e mastigar os lábios. Convencional. Sou assim. Vale lembrar que essa mulher é a mesma que tirou uma foto minha com o pênis mole entre duas fatias de pão. “X-Pica sem ovos” ela nomeou. Discordei. Estava mais pra cachorro quente sem molho. O que acha de X-Mico de carne? Perguntou-me. Prefiro Misto mole, respondi. Deve ter mais de cinquenta fotos constrangedoras nossas, a não ser que se desfez. Atual namorado, coisas desse tipo. Mãe intrometida. Remorso. Engano. Nostalgia. Desgosto. Capricho. Santidade. Miragens. Por que nos separamos? Peidei no quarto e recusei raspar o peito. Profético. Poético. Efervescência.
Foi mais uma noite de guerra e consolo. Como sempre saí ferido, mas sobrevivi. Aqueles tipos de guerra sempre foram o único momento do dia em que eu sabia quem era. Nada. Tudo. Acordei crucificado no colchão, com uma dor de cabeça de fora pra dentro. Sim, venci mais uma, pensei. Mas essa tinha sido árdua. Venci sim, entretanto lutei mais do que aguentava. Trincheiras e versos. Os saldos sobrepujaram a batalha. Levantei e consegui ir até o banheiro vomitar. Líquidos secos grudados na porcelana cinzenta. Aroma blindado. Vida em jogo. Tremedeira. Pressão baixa com um riso ilusório. Santo Deus, pensei. Dei descarga. Doença encanada esvaindo relaxadamente. Talvez fosse capaz de requentar uma sopa, mas essa ideia embrulhou o azedo da garganta. Um chá, tudo bem. Sentei na cadeira e apoiei os braços na mesa aguentando todo o peso da cabeça, que calculei ser vinte e quatro anos. Emagreci alguns anos quando parei de comer sintomas vagabundos. Regime e decadência. Um chá, tudo bem. A água fervia na panela enquanto desesperadamente eu controlava as náuseas e os erros absurdos. Só mais algumas guerras Deus, depois me entrego. “Boldo do Chile” escrito na caixinha, e dentro, somente um saquinho branco cheio de erva acoplado em um rabo fino de linha. Amarelo queimado ficou a água fervida dentro da xícara. De gole em gole fui sendo engolido pela minha energia arruinada. A dor pesava de fora pra dentro, assim como uma faca que só serra pra frente. Vomitei em cima da mesa e achei lindo meu corpo ainda transparecer perseverança. Pobre coitado, sofre mais que eu. O líquido amarelo queimado foi deslizando na mesa como uma arte moribunda. Assinei com a ponta dos dedos, como um artista imortal, misturando arte, vômito e dúvidas. Fui até o banheiro buscar um pano e retaliei minha arte, assim como Rembrandt fez com sua obra “A conspiração de Claudius Civilis”. Esgotamento taciturno. Deitei-me e pus-me a suar perigosamente. Inspirando sentia um ardor de caldeira, expirando era como ser feito de neve. Fiquei de lado observando as teias de aranha nas esquinas das paredes. Me cobri com uma coberta branca cheia de detalhes azuis e vermelhos. Que calor. Me descobri. Que frio. Que inferno. Que bagunça. Não via aranhas, somente teias. Fiz minha última oração, que mais parecia um hino, conversa afiada. Arrotei alto. Mais um riso ilusório. O dia era claro e quente. O dia era cinzento e frio. Tudo dependia da minha respiração ofegante. Dormi pra não morrer acordado, simplório demais. Ao acordar novamente, tirei os pregos das mãos e dos pés e corri vomitar mais no banheiro. Que ressaca dos diabos, pensei. Trincheiras e versos, chega disso. Abri a geladeira e comi uma sopa gelada. A cura! Que nada, mais um erro absurdo. Vomitei dentro da panela. Escritores não morrem assim, simplório demais. Tentei uma maçã com um copo d’água para estabilizar o veneno adocicado que corria por mim e deitei novamente. Orei mais um hino de conversa afiada, o que me pareceu insultos dramáticos. Dormi por mais três horas, e finalmente aquilo tudo se desmanchou como um algodão doce na boca. Agradeci ter fome, mesmo não tendo nada pra comer em casa. Bebi muita água e arrotei baixo. Bom sinal. Lavei a panela, joguei o pano vomitado no lixo, vesti-me e saí porta afora. O dia realmente era frio e cinzento, com indícios de chuva. O bairro estava duro e sonolento como sempre. Receptivo e simpático como uma gargalhada de hiena. Concordei em não reclamar de nada naquele dia, afinal estava no lucro, só precisava comer bem. Fui até o ponto de ônibus, onde sentei e acendi um cigarro. Sem demora, dois caras sentaram ao meu lado pedindo dinheiro pras suas passagens.
– Não tenho grana – falei.
– Só temos quatro reais. Trabalhamos a manhã inteira no jardim de uma velha, e depois terminamos a calçada do dono daquele bar ali – apontou e disse o que estava mais próximo de mim no banco.
– E não receberam nada?
– Só semana que vem – lamentou.
– Quer comprar um baseado? Perguntou o outro.
– Não tenho grana cara – respondi.
Esse vendedor era cabeludo, com o cabelo ondulado até os ombros. Muito magro e sem camiseta, parecia um picolé de sabugo. O outro usava boné e começou reclamar por ter nascido bonito e não rico. A vida de jeito nenhum contentava alguém, bonito ou rico? Eu só queria comer. Peso e consciência. Quase iniciei uma lamentação longa, mas eles de nada entenderiam. Não por serem ignorantes ou qualquer coisa desse tipo, e sim porque não ligavam pra nada além do meu dinheiro inexistente. A única coisa que carregava na carteira era um vale transporte e duas camisinhas.
– Que sede! Continuou o bonitão.
– Ressaca? Perguntei.
– Sim – ele disse. Tem cigarro pra gente?
– Tenho.
Repassei dois cigarros e esperávamos o ônibus em silêncio. Que fome, pensei. Do outro lado da rua, trabalhadores de uma empresa contratada pela prefeitura cortavam galhos de árvores que quase enroscavam nos fios dos postes. Bebiam água, muita água, naqueles galões de cinco litros. Do outro lado da rua também tinha um ponto de ônibus onde uma morena aguardava com as pernas grossas cruzadas, bem à mostra, com um shortinho jeans desbotado menor que um palmo. Que fome, pensei.
– Era melhor ter nascido rico do que bonito.
– Que fome – falei.
– Que sede.
– Vai lá pedir água pros caras que estão cortando árvores – disse o picolé de sabugo.
Atravessou a rua e foi beber água enquanto o ônibus apontava na reta com o sinal aberto no semáforo. Sede e livre arbítrio.
– Vai perder o ônibus, caralho! Gritou o cabeludo.
Bebia água enquanto olhava para as pernas da morena.
– Ele vai perder o ônibus – falei pro sabugo.
– Vai perder o ônibus, cacete! Gritou novamente.
A morena percebeu a gritaria e descruzou as pernas. Que fome, que pernas, que sede esse animal tem. Atravessou a rua correndo enquanto o busão parava lentamente com aqueles sons de ar do freio. De alguma forma mágica, eles conseguiram pagar as passagens com os supostos quatro reais que tinham. Fiquei em pé no corredor enquanto sentaram lado a lado. Durante o percurso, vagou uma poltrona colocada ao lado do espaço reservado para deficientes físicos, uma poltrona que é preciso abaixar pra sentar. Abaixei e sentei feliz da vida. Que fome. Alguns pontos adiante e nada de importante pra ressaltar nesse intervalo, um outro cabeludo entrou no ônibus, coçando o nariz como um cão pulguento coça as costas. Estava louco. Perceptível nos olhos, nos movimentos e na fala corrida dirigida ao cobrador. Devia ter seus cinquenta anos já, fios brancos no cabelo e na barba, paranoia antiga. Inconscientemente e dedutivamente tive a certeza que esse maluco conhecia os outros dois. Instinto e realidade. Cumprimentaram-se em bom som na parte traseira do coletivo, abraçaram-se como pequenos fragmentos contundentes íntimos e arcaides. Ouvi um pouco da conversa entre eles, mas tudo se resumia a nada, somente um covil de mantras. Que fome. Um ponto a frente e os dois desceram. Desembarcaram em frente uma rua repleta de traficantes. Como eu sei? Já fui lá. Outra história nada louvável, como essa. Logo a frente decidi ceder minha poltrona à uma mulher suada que entrou no ônibus acompanhada por um homem de óculos escuro. Nem sequer um obrigado de ambos. Muito menos um pãozinho com presunto. Em pé, agarrado nos ganchos eu fazia outra reza “Deus, faça com que ela tenha comida em casa”. Uma velha caindo aos pedaços passou pela roleta com dificuldade, com seus cabelos encaracolados e pintados de amarelo travesseiro, implorava um assento mediunicamente, aguardava uma boa vontade. Eu não tinha nada pra ela, estava esgotado, revigorando aos poucos. A mulher da minha antiga poltrona, percebendo a situação, resolveu procurar um pássaro pra conversar na janela. Estava confortável, cada um que procure suas boas vontades alheias. Singelo infortúnio, pensei. Subitamente, o maluco dos cinquenta e poucos anos gritou para a velha, para todos:
– SENHORA! SENHORA! AQUI! POR FAVOR, SENTE-SE NO MEU LUGAR.

Bati na porta da casa dela instantes e momentos inodoros depois, abriu após uns três minutos.
– Surpresa – eu disse.
– Não era pra você vir aqui hoje – me respondeu secamente.
– Por isso a surpresa.
– Entre.
Fui até a geladeira, comi dez fatias de presunto e cinco tomates cereja. Delícia. Abri uma cerveja e fui até o quarto onde ela arrumava os cabelos e a maquiagem. Sentei na cama.
– Pra quem disse que não viria aqui hoje está bem confortável.
Singelo infortúnio, pensei.
– Não é um dos meus melhores dias – confessei.
– Vou aproveitar e raspar teu peito então.
– Pirou?
– Se não deixar, é bom que se suma daqui.
– Besteira.
– Falo sério.
Soltei um peido alto. Bravura desertada. Fui empurrado pra fora, pra sempre. Consenti.