Passado envelhecido ( XVIII )

“Ramon?”
“Só um minuto”
Quase sempre adivinho o valor, ou é R$ 418,00 ou R$ 420,00 ou R$ 425,00
Abri a gaveta de um guarda-roupa que não é meu
Como de costume peguei a caixa da fita cassete do filme “A vida de Brian”
Retirei R$ 430,00, ainda ficaram R$ 220,00 dentro, boa parte em cigarros
Fechei a caixinha, lembrei de uma passagem do filme
Mas não consigo mais rir. Fui até a porta, que também não é minha.
– Quanto? Perguntei.
– Ramon, deu R$ 435,00 esse mês.
– Como assim?
– Como assim o que?
– Nunca paguei tanto.
– Esse mês vai pagar.
– O que aumentou?
– Ramon, o aluguel é R$ 350,00, certo?
– Certo.
– Mais R$ 20,00 da internet, certo?
– Nunca funciona.
– R$ 28,00 da água.
– Sempre falta.
– R$ 37,00 da luz. Total de R$ 435,00. Aqui está o recibo, quer ver?
– Não. Aqui tem R$ 430,00. Vou pegar mais.
Saí andando, uma pia, uma mesa, dois bancos brancos
Um fogão branco imundo – minha culpa – uma geladeira
Nada na cozinha é meu, nada parece ser meu nesse lugar, o ar anda pesado
Minhas pernas, sim, minhas, às vezes tremem, balançam ao me levantar
É a pressão alta penso, a do sangue e a do planeta
A gravidade dos homens não deixa quase ninguém voar
Logo enterrará uma parte dos nossos pés e viveremos no mesmo lugar para sempre
– Aqui está, mais cinco reais, dá uma puta das boas – falei.
– Ô se dá – respondeu e saiu.
Tranquei a porta
A geladeira pode não ser minha, mas mantém gélidos uma garrafa plástica de vinho
Dois tomates, duas maçãs, três pepinos, um pacote de mortadela de péssima qualidade
Dois ovos que não chocarão nunca
Uma farinha branca que uso pra engrossar o caldo do feijão
Um pimentão cortado pela metade, dentes de alho que largaram da dentadura faz tempo,
O pacote de arroz de cinco quilos recém aberto e três bifes congelados
O banheiro está com um limo negro nas paredes
Parece uma obra de arte daquelas que ninguém entende, pincelada com água e preguiça
Meu quarto fede cigarro e meias molhadas
Fico sentado em um colchão no chão, o colchão também não é meu
Não me adapto mais a camas
Tenho uma de solteiro aqui ao lado, está com uma coberta sobre o estribo
E por cima dela em torno de quarenta livros esparramados
Um travesseiro, algumas roupas e uma sacola plástica
O vento mexe uma cortina dura pela janela
Ouço Frank, bebo vinho
Endureço a poeira