Pato

Pareço um pato cego boiando no centro do oceano
Filhote, com o peito em chamas
Meu bico
Suspendendo um navio cargueiro
Minhas patas impedem uma turbina de avião afundar
Não há sobreviventes
Nunca houve
Mesmo assim ainda tenho reflexo no sol
Não posso ver, mas sinto seu calor
Ele é feio, imagino
Infelizmente o avesso de mim sou eu mesmo
Já é tarde
Eu balanço
Cago e engulo minha merda
Morreria de outra forma
Um pato cego boiando no centro do oceano
E um padeiro derrubando bolinhos recheados
De propósito, no chão, depois recolhendo e colocando pra vender
Afirmando para seu colega “Meu natal é sempre uma merda”
“Por quê?”
“Porque é sempre assim”
E o bolinho recheado acaba em uma mesa farta
Ao lado de um peru gordo de farofa
“Amei esse bolinho recheado”
“Amo esse padeiro”
“Que peru delicioso”
“Agradeça o governo”
“Haha”
“Haha”
Um pato cego boiando no centro do oceano
Carregando cofres lacrados
Chorando na chuva e esvaziando o mar
Péssima ideia é ser poeta
E motoboy
O espírito humano retalhado na infância
Conservado em partes separadas na adolescência
Numa salmoura de sangue seco com odor de compostagem
Concordância atemporal quando se está certo
Heróis construídos pelos próprios medos
Mulheres suando pelo bem dos homens
Cigarros com filtros molhados
Noivos e baratos
Parcimônia de sentimentos
Um pato cego boiando no centro do oceano segurará as pontas