Um último suicídio

O último banho, o último gole de café, o penúltimo cigarro, a última meia, o último ódio. Tudo dentro do liquidificador atormentado. Quanto mais caminhava, mais engolia ideias. Os latidos, as conversas, automóveis, aviões, alarmes, todos falando a mesma língua envenenada. Seu pedido era morrer, e seu desejo era matar. Fácil, um quebra-cabeça de duas peças. Tinha um lugar escolhido para o último cigarro. Era uma escada repartida por um corrimão, com degraus exaustos de aguentar calcanhares, mas com uma bela visão do inferno. A escada terminava no começo de uma rua morro abaixo, tendo um poste que selava essa união. A luz do poste piscava, estava entrando em curto, pronta para apagar, e apagou. Na escuridão, o vagalume de nicotina dava o tom, e a cortina de fumaça escondia os olhos dele das pessoas que subiam a escada. Passavam todos pelo outro lado do corrimão, e mesmo assim, ainda tragavam aquela fumaça com cheiro de morte atrasada. Ele ria, afinal não morreria de câncer. O cigarro virou cinza e filtro, sendo jogado na grama que crescia ao lado da escada. Pensou ele, que algum cachorro ainda mijaria naquele que foi sua última companhia e riu novamente. Sentia-se vazio, mesmo com o tanque cheio. Chegava o momento, justamente como havia imaginado. Era perfeito como um pesadelo. Estava realizado, seu último suicídio foi um sucesso, e sua última companhia não fora jamais mijada, apenas lambida.

Outra escada. Essa com degraus mais limpos e menos surrados, afinal, era um lugar sagrado. Uma santa, recheada de luzes e rodeada de vidros, com as velas acesas e apagadas pelo lado de fora, tornando aquela visão linda, de uma estátua intacta. Ele estava longe do santuário, preferiu sentar no primeiro degrau da escada que da acesso ao recinto de orações. Naquela hora, só ele mesmo estaria lá, eram 22:00 horas. Um cigarro, uma cerveja e uma cabeça latejante, por dentro e por fora. As casas que ficavam ali perto, brilhavam muito menos que a santa. Eram casas isoladas, flageladas. Alguns cães caminhavam pela redondeza, perdidos como ele, mas nenhum chegou perto. Provavelmente seu cigarro espantava-os, mas tudo bem, assim os pernilongos também iam embora. Se perguntava se mijar em um lugar sagrado era pecado. Se fosse, os cães iriam para o inferno com ele. Naquele momento, ele considerava os cães mais racionais e higiênicos. Depois de mijar, sentou no mesmo lugar e de costas para a santa começou a rezar. Alguns latidos o incomodavam, mas tentava se manter. Sabe aqueles momentos em que se pensa que morrer é a melhor herança? Percebeu que sua reza era falsa, não adiantava insistir, seus pedidos não eram fiéis. Os cães eram, e rezavam melhor que ele. Não importa pelo que rezavam, por ossos ou simpatia, já não importava pelo que ele tentava rezar. O vento o empurrou para dentro do carro, e com um latido despediu-se.

 

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