Vão

Um vão de sobriedade insiste em ejacular-me
Não consigo ser simples com a hipótese da simplicidade
Preciso roer essa tal de insensatez contínua
Que domina os miúdos mais moídos  que a imaginação fornece
Possuído pela cólera dos ruídos irrisórios
Pirei em vão em um vão
Não, não, não
Queixar-me é um charme da ilusão
Estou parido e sem freios
Invocando o fim em parcelas de tudo e nada
Sou eu quem paga, ou não paga
Me cobrem!
Me cobrem de névoa e rostos enlatados
Eu cubro e cobro a aposta perdida
Já me vejo amarelo e sem gosto
Como o ouro
Ou uma embalagem de sardinha
Raso igualmente tal qual a sombra da minhoca no rastro de Plutão
Extremidades de um ovo
Tudo em vão
Tudo é um vão
Mas o vão não é tudo
Nem  é o nada
O vão é simplesmente o vão
E todos vão pro vão
No mesmo vagão
Em trilhos diferentes
Sempre peço e nunca desejo
Extremos
De um ser que não é
Ouvindo trovões da rua dos espíritos duvidosos
E imaginando o som apagado do gato no telhado