queimando aos poucos

tenho voltado sempre para o mesmo bar.
a cadeira não é das melhores
mas posso fumar onde quer que eu pare
e o garçom já me reconhece
e traz a mais barata e mais gelada
sem eu precisar pedir.
o que mais eu poderia desejar
de um bar? de uma noite?
de um dia inteiro? de alguém?
de alguém que não sabe quem sou?
palmas? não preciso disso
além do que, não gosto de barulho
embora peide alto e cada dia mais
mas é a vida.. você bebe, você dorme
você acorda, você arrota
e você peida.. tão sagrado
quanto Darwin na Cruz
suspensa.. além disso
e talvez o principal, aqui
embora eu venha todos os dias
já tem anos, ninguém me conhece.
aqui ninguém me vê
aqui não preciso ouvir ou falar
eu apenas sento e bebo e fumo até
me perder.. e quando consigo
ignorar o que não importa
eu acabo conseguindo
me entregar ao fogo
e ao menos queimar em paz
por algumas horas.. e por um momento
é como se tudo mais virasse cinzas
e eu pudesse simplesmente
soprar tudo para longe
feito à fumaça que exala
do meu corpo,
agora.

centrípeto

o que esperam da poesia
aqueles que ainda hoje
feito galinhas hipnotizadas
seguem linhas estipuladas
pelo poeta das coordenadas?
quem poderia por mim pensar
melhor maneira de se expressar?
porque eu deveria então hoje
continuar seguindo o perdido
cantando na corte de Frederico
que nem se quer era o primeiro?
porque encaixar minhas ideias
em uma forma estabelecida?
talhar da natureza sua beleza?
não tenho dúvidas só certezas
de que formas ou coordenadas
honestamente, pouco ou nada

me importa.