Passado envelhecido ( V )

Fazia uma semana que não a via, tinha sido essa minha decisão, nunca mais vê-la, tornaria Dóris um hematoma, que desaparece aos poucos, doendo cada vez menos, voltaria a escrever, só isso. Mas naquela tarde de domingo, enquanto tentava rabiscar algumas coisas no caderno, o telefone tocou, só podia ser ela:
– Alô – atendi.
– Por que não veio mais aqui em casa? E por que diabos não me ligou mais?
– Não sei.
– Não sabe? Você está sendo igualzinho meu ex-namorado que sumiu. Aliás, está sendo pior que ele, porque mora aqui, na mesma cidade, enquanto ele voou pra Portugal pelo menos.
– Olha Dóris, não sei nada do seu ex-namorado.
– Será que pode tirar essa bunda do sofá e me encontrar na gruta?
– Não quero te ver mais.
– Por que?
– Não sei.
– Preciso te dar algo. Vai lá as 18:00.
– Me dar o que?
– Vai lá.
– Ok. As 18:00 to lá.
Tirei a bunda do sofá, um grande sofá-cama, um companheiro, era nele que eu dormia, bebia, comia, escrevia. A quitinete tinha dois andares, embaixo ficava o dito sofá, a TV, um forno, uma geladeira, uma pia e o banheiro. Em cima ficava uma cama de casal, um guarda-roupas e o Eduard, que nesse dia estava com uma mulher lá, discutindo alguma coisa.
– Hei! Gritei – Tô saindo.
– Vai aonde meu querido?
– Me encontrar com Dóris.
– Precisa de ajuda?
Desci um morro íngreme de calçamento, freando os pés. O céu me olhava e ria, pela segunda vez eu repetia o caminho por Dóris, mas seria a última vez, independente das suas pernas sacanas sempre pra fora cortejando minha alma fraca. Parei no posto de gasolina e comprei seis cervejas. Olhei pro relógio da velha que me atendeu, faltavam cinco minutos pras seis.
– Me vê um maço de cigarros também – falei.
– Qual deles?
– Qualquer um.
Ela ficou pensativa, olhando pra bancada logo acima de nossas cabeças, com a mão no queixo, correndo os olhos, escolhendo o cigarro que me mataria mais rápido. Enfim retirou um e me mostrou:
– Pode ser esse?!
– Esse não – respondi.
– Então escolha um meu jovem, não sei nada dos teus vícios.
– Pode ser aquele Malboro ali – apontei com o dedo.
– Quase que escolhi esse. Errei por pouco.
– Acredito. Escolhas e mortes cada um tem as suas. Quanto deu?
– R$ 18,75
– Que horas são?
– 18:00 horas.
– Em ponto?
Ela olhou pro seu relógio, arregalou os olhos.
– Acho que falta um ou dois minutos.
– Certo.
Estendi uma nota de vinte reais, aguardei o troco e saí do posto, fazendo uma retrospectiva dos meus cinco meses com Dóris, e se resumia à discussões, injustiças, abstrações e basicamente nutrido de sexo, bebida e fragmentos gentis, um treco estranho, lindo por vezes, mas que devia chegar ao fim, antes que eu ou ela morresse de fome, ou sufocados, um pelo outro, matutando nós mesmos, os esquisitos da praça de alimentação, que não sabem o que comer, mas sabem o que cagar. Conheci-a por acaso, tinha ido até aquela festa pra encontrar outra mulher, mais feia, mas não encontrei. Dóris tinha um sorriso fácil, provocante, seus cabelos loiros estavam presos numa espécie de laço artesanal. Seus olhos verdes se sobressaiam diante de qualquer outro, eram magníficos, colossais. Usava uma blusinha azul simples, com uma calça jeans grande pras suas medidas e um tênis pobre. Me encantou pelos movimentos sutis, sabem, aquele charme que poderia hipnotizar um rato cego.
Caminhei mais um pouco, vi policiais jogando futebol, gritando como bandidos espertos, vi velhos bêbados jogando dominó, pigarreando sonhos velhos, reduzidos a um pó alegre, contagiando-se com pedrinhas numeradas, senti um pouco de inveja, vi também casais abraçados, consumindo o domingo em membros, em calor humano, na felicidade da carne compartilhada pra todo mundo ver. Eu não era feliz, nem queria ser, não daquela forma, sei lá o que queria, mas não era aquilo, e ainda não é.
Ao chegar na gruta, passei pela entrada e caminhei uns vinte metros até me sentar num banquinho de concreto. Ela iria chegar triunfante pensei, com seus cabelos soltos, espalhando reflexos amarelos, com um rebolado garboso, com toda nossa intimidade caindo dos bolsos, com a magia que toda fêmea despeja na sombra. Abri uma cerveja, o sol estava indo embora junto com ela, e junto com Dóris. Era o ponto final, e quando seu corpo minucioso atravessou o portão, senti uma pontada de tristeza, mas eu não queria fraquejar, ela tinha algo pra me dar. Caminhava em minha direção, parecia que nunca chegaria, deslizava no chão, no infinito de nossa distância. Acendi um cigarro e traguei cinquenta vezes. Suas pernas estavam cobertas com a mesma calça do dia que nos conhecemos. Uma blusinha preta segurava os peitos. Sentou-se ao meu lado, não falou nada. Cruzou as pernas, tirou seu cigarro da bolsa, acendeu, e fumava como se eu não estivesse ali. Olhou-me um pouco nos olhos, e voltou a fumar. Eu não queria estar ali. O circo é mais atraente por fora.
– Então é assim? Finalmente falou após uma baforada de fumaça.
– É assim o que? Perguntei
– Assim que acaba?
– O que você tem pra me dar?
Ergueu o tom de voz.
– Eu não entendo como você pode ser tão volátil! Há quinze dias disse que me amava, e agora some por uma semana e não quer mais me ver?
– É simples. Meu amor é volátil e a bebida já não dá conta da nossa esquisitice.
– Do que você está falando?
– Me dá logo o que tem aí que vou embora.
– Me dá uma cerveja!
Alcancei. Novamente nosso silêncio. Os carros passando, pessoas atravessando passarelas calculando o preço de suas vidas. Acendi mais um cigarro e fui mijar ao lado de um poste, que devagar iluminava nossa insensatez.
Voltei pro lado dela.
– O irmão de um ex-namorado meu se jogou dessa passarela e morreu.
– Eu sei. Já me disse.
– Você não tem colhão.
– Não.
– Seu pateta.
– Estúpida.
– Colhão de plástico.
Foi aí que começamos rir na sincronia do vento. Fui pra cima dela e dei-lhe um beijo de três minutos. Até sentir o empurrão.
– Não, não, não. Não quero mais isso. Amanhã será a mesma coisa. Você e sua inconstância. Você é complicado Ramon, muito. Você chorou dizendo que me amava pela primeira vez e uma semana depois sumiu. Chega!
– Vai à merda então.
– Vai você ridículo.
– Piranha dos infernos.
– Corno parasita.
Levantou-se do banquinho com a garrafa na mão, preparou o lançamento, fechei os olhos. Quando abri, ela tinha colocado a garrafa no chão e enfiava a mão dentro da bolsa, retirando o que queria com um olhar predador, furioso, das leoas atiçadas.
– QUER SABER O QUE TENHO AQUI PRA TI? SEU EUNUCO! VOCÊ NÃO TEM COLHÃO, NUNCA VAI TER!
Deslacrei outra cerveja e senti uma sacola batendo na minha orelha. Era preta e continha algo macio dentro. Caiu na minha frente rolando.
– O que é isso? Perguntei – São meus colhões?
– NÃO. SÃO SUAS CUECAS SUJAS QUE ESTAVAM LÁ EM CASA.
– É isso que tem pra me dar? Minhas cuecas? Não teve tempo pra lavar?
Disparou bufando em direção a saída da gruta, para sua nova vida, sem mim e minhas bebidas. Sem meu cheiro que ela tanto gostava, sem minhas cuecas. Recolhi a sacola e pude vê-la me dando a última olhada enquanto caminhava pro seu mundo sem Ramon. Juntei as cervejas, resolvi fazer um caminho mais longo pra casa. Pensava comigo “Quenga enrustida, seu sorriso fede traição manjada. Limitada como uma serpente sem língua. Tenha filhos, gatos, mortes, cães, amantes, eu não ligo pra você mais. E se disse que te amava, devia estar maluco ou bêbado, como todo mundo!”.
Agora tinha cervejas e cuecas, torcia que realmente fossem as minhas, e que eu tivesse sido o último a usar. Entrei em uma rua que não sabia o nome, mas que me levaria pra casa juntamente com outras curvas e outras ruas, pro sofá recheado de incertezas, de qualquer forma eu teria que começar escrever pra valer. Senti um certo aperto por dentro, vontade de chorar os cinco meses anteriores naqueles segundos que meus passos contavam. Dóris uma grande mulher, Dóris uma piranha, Dóris minha mulher, Dóris apenas, adeus Dóris. No relógio digital plantado como grama, com uns três metros de altura pude ver 18:33 e 20 graus. Horário e temperatura de duas mortes e dois nascimentos. Segui caminhando, contando as lixeiras, as lajotas pra cegos, pisando conforme o movimento do cavalo no xadrez. Em frente uma casa de portões fechados, um homem sentado na calçada, com os braços apoiados nos joelhos e com a cara enfiada neles. 18:36 pensei, os mesmos 20 graus e mais um homem na merda. Quando ouviu meus passos ergueu a cabeça e me olhou como se eu fosse o Messias, surgindo de uma gruta, multiplicando cervejas e cuecas.
– Hei amigão! Ele disse quando eu já tinha dado uns passos a mais de onde estava.
Virei-me e voltei três passos.
– Diga – respondi.
– Não tem um realzinho pra mim?
Busquei R$ 1,25 do troco do posto. Larguei em suas mãos.
– Obrigado – ele agradeceu – Deus te abençoe!
– Bebe? Perguntei.
– Quando tem né?!
Dei a sacola com o resto das cervejas.
– Ah! Obrigado – ele disse – Deus te abençoe!
– Usa cueca? Continuei.
– Uso, uso.
Estendi a sacolinha preta.
– Pega aqui então.
– Deus te abençoe irmão!
– Agradeça à Santa Dóris companheiro!
– Obrigado Santa Dóris, obrigado. Dóris te abençoe irmão!
– Amém.
Continuei contando lixeiras, lajotas pra cegos, andando conforme o movimento do cavalo no xadrez e cheguei em uma nova rótula, com outro relógio digital plantado, 18:42 e 19 graus, peguei a direita e prossegui. Tinha me livrado de muita coisa nesse dia. Já tinha ideias pra desenvolver um texto, alguma poesia quem sabe. Meu caderno me aguardava, fechado em cima do sofá, despreparado pra minha caneta flamejante. Passei por uma pracinha iluminada suavemente, com brinquedos abandonados. Onde estariam as crianças ou os bêbados? Atravessei a rua e voltei à praça. Sentei num balanço, me movimentei todo sem graça. A vida era isso, um vai e vem sem graça. Desejei minhas cervejas de volta, Dóris de volta em meus braços. “Foda-se rameira!”, fui pra gangorra, mas minhas pernas eram muito grandes. 1,87 de altura, uma criança barbuda sem amigos pra brincar, sem mulher pra trepar, sem álcool pra tomar. Pousei num balanço que roda parado, dei umas dez giradas e parei com aquilo. Voltei pro meu caminho, precisava de um trago.
Cheguei em casa, peguei uma garrafa de vinho e sentei no sofá, com as pernas relaxadas. Bebia no bico enquanto tentava escrever. No andar de cima começaram concordar e discordar, algo sobre músicas, filmes e fodas prediletas. O telefone tocou.
– Alô – falei.
– Oi Ramon.
– Oi Dóris.
– Tá aliviado?
– Aliviado do que?
– Por não me ter mais.
– Não sei.
– Você nunca sabe de nada. Você me ama e não sabe, você me odeia e não sabe.Vai se tornar um alcoólatra e não sabe. Um pamonha sem colhão e não sabe. O que você sabe? Me diz logo!
– Não sei de nada. Vou dormir.
– Tá com mulher aí?
– Não.
– Não são nem 20:00 horas. Você não vai dormir. Tem mulher aí né?!
– Tem.
– Quantas?
– Uma.
– Ah!! Eu sabia!! Seu veado! Me esquece!!
Desligou.