deusa matuta

é inverno aqui
onde me encontro agora
longe de ti. ainda assim
fecho meus olhos frente ao fogo
e consigo te imaginar nua de pantufas
na cozinha
fritando ovos e preparando
um copo de Rum para o nosso desjejum
enquanto o gato pálido e arrepiado
ainda acordando
observa
com atenção seus movimentos,
e é maravilhoso
mesmo quando acordo com fome
sem nada para comer,
muito menos
você.

vestígio

depois de todo aquele sexo
toda aquela bagunça
eu mal sabia onde estava
quando acordei.
só após levantar e mijar
na pia de sua cozinha
tive certeza de estar
no lugar certo
e com a mulher certa,
quando na lúgubre luz
avistei o bilhete pendurado
na porta de sua
geladeira:

“FAZER MAIS SEXO ANAL”

por vezes o amor é assim
chega feito sapo na salada
que você engole,
e nem percebe.

em tempo

você chega do trabalho
e a mulher que até então dormia
levanta nervosa reclamando
do horário que você tá chegando
reclama do teu bafo, reclama dos vizinhos
das contas atrasadas, das compras esquecidas
do quanto você anda bebendo, urinando e cagando
reclama do silêncio após as bebedeiras
e também das novas goteiras
das trepadas abandonadas, dos ratos
que correm atrás do Rei de Roma
que drama..
ela reclama e reclama..
sim, sim, mas você ignora
porque ela não sabe do seu grande dia
de merda, então logo começa a beber
pra esquecer, enquanto ela continua
reclamando, reclamando..
determinada ela quebra 6 cervejas
numa só tacada, e tão logo às facas
estão nos devidos pescoços
tudo só não acaba em tragédia
em mais uma promissora noite
porque você acorda
em tempo de agradecer
por mais um dia,
livre.

ontem à noite

em alguns momentos o sujeito já velho
se pega revivendo um ou outro detalhe
que ficou para trás
simples momentos perdidos na linha do tempo
como sua mãe lhe chamando para jantar
em um dia qualquer de sua infância
você lembra exatamente da voz que ecoou
de sua casa até a rua onde você jogava futebol
e perdia as unhas do dedão. quantas vezes, não?
lembra de sempre gritar que eram só
mais uns minutinhos e você iria para casa
e então anoitecia e a velha aumentava o volume
das chamadas, e então quando já quase não dava
para ver a bola ou os outros meninos
você enfim ia para casa, chegava correndo
lavava rapidamente os pés no tanque e depois
entrava para o café que já estava na mesa
por vezes jantava com a família
mas quase sempre, sozinho
e então você esquece do motivo
de estar pensando nisso
como se fosse senhor de si
e por um momento aprecia a nostalgia sentida
de alguma maneira parece que você vivia
diferente de hoje quando todas às unhas crescem
até furar o sapato mas não caem por um bom motivo
ou mal que o seja, e então você recorda de outra vez
que se cagou nas calças enquanto corria
para buscar o chá que a velha pedia
e achando que dava tempo de voltar
se borrou todo feito um sonho macio e quentinho
e se pega rindo depois de dias de cara fechada
depois de dias sem motivos para rir, você ri!
ri de si mesmo e de sua antiga e agitada vida
hoje você não tem coragem de perder uma unha
não vive para tanto, nem se dedica à merda alguma
tem passado os dias esperando a morte
que não merecida não aparece nem para um
“olá, tudo bem? vamos dar uma volta?”
você acende um cigarro para o Sol
que permanece debruçado na janela
mesmo quando o dia já se foi e você continua
com as mesmas perguntas na cabeça;
que merda de vida é essa? que porra de dia
foi esse? será que já não entreguei tudo?
será que preciso estar presente
amanhã? e você já não sabe
o que responder para qualquer pergunta
para qualquer pessoa, muito menos para você
que continua debruçado ao Sol ouvindo a mesma música
delirando nesse calor existencial que brota
de dentro de ti, queimando tudo
feito um Sol de ontem todo
imundo.. e isso queima e permanece
até que se torna insuportável
e você já esgotado, por hoje
fecha as cortinas
e se atira
à cama.

insetos memoráveis

deixei de recolher as latas e garrafas
espalhadas pela casa
queria ter uma noção visual
do que tenho me tornado
– além do espelho, naturalmente
então a torre bem aqui do meu lado
começou a crescer. bem, na verdade
ela continua aqui e subindo
dia após dia a torre vai se tornando
uma muralha que circunda o sofá
a mesa de centro
os livros e até mesmo
os insetos voando em círculos
perfeitos
estão por todo lado,
entre latas de cerveja, garrafas de vodka
gimbas de cigarro, meias sujas
sapatos furados, pratos abandonados
copos esquecidos
e isso tem só duas semanas
e quer saber? eu gosto!
gosto do visual, da mistura
verde e vermelha das latas
das garrafas transparentes
dos camelos amarelos
bêbados, e até mesmo do cheiro
que permeia no ar, entre
a dança esquizofrênica dos insetos
alcoolizados, sim, sim
o frenesi é contagiante,
eu gosto

– grande merda. é só pra atrair moscas
e outros insetos idiotas – comenta o traste
que veio me visitar hoje

ele não sabe que já os conheço
não sabe que os recebo todas às noites
os maravilhosos insetos
que não falam a manjada língua
das criaturas corriqueiras
ah, ele mal sabe
que já não lembro seu nome
e que jamais esquecerei
de Athos, Porthos e Aramis
os três mosquitos mais corajosos
que já conheci.