Entreguei um bilhete premiado
A uma pomba que levou-o até o paraíso
Lá rejeitado, ela o trouxe de volta
Com um pequeno recado
Que li pela metade, antes de lançá-lo
Pelas frestas do muro
Ela disse:
“O único jeito de não se atrasar, é andando devagar”
Atirei-a pelas frestas do muro
Algumas penas ainda me fizeram espirrar
Olhei em círculos
As sombras das árvores ainda dançavam aquela recente música
Que faz o chão secar espremido
Entre o céu e um piscar de olhos
Os 365 pedidos
Calcados embaixo dos pés da cama
Meus preferidos no pé direto da cabeceira
Os outros sem preferência
Apenas uma dose quase nula de satisfação
Tropico no violão desafinado
Deixado ali por um mestre de artes marciais careca
O som faz as sombras se abraçarem em folhas
A pomba do outro lado do muro ouve
Ela grita para eu ouvir:
“O único jeito de não desafinar, é tocando devagar”
Atiro o violão pelas frestas do muro
Ele cai do outro lado afinado
Embora, sem uma corda que parou na passagem
A mais grossa
Que uso para amarrar duas sombras de duas sombras
No pé direto da minha cabeceira
Elas não são minhas preferidas
Mas detestam o espelho
No eclipse total
Ouço uma voz imponente
Que surge pelas frestas do muro
Com eco e tom lascivo
“Um homem torna-se homem, tornando devagaaaaar”
“Pomba filha da puta!”
Joguei-me pelas frestas do muro
Minha pele ficou
E rastejou-se para a dança
Do outro lado, sob o corpo imóvel da velha ave
O bilhete premiado
Com o recado que li por completo dessa vez:
“Comece um poema, depois comece uma guerra contra ele. Termine um poema, e sua pele jamais será a mesma”
Autor: Ramon Carlos
π
Quando as palavras saíam com as portas abertas
Meus ouvidos eram solitárias, com apenas um condenado
Hoje um simples sussurro desmonta meu exército
Porém os ventos desviam esta condição
É assim no litoral
Quisera eu seu amanhã,
Para fazer valer o seu ontem e mudar meu presente com presentes
Meus caros agradecimentos mudos
Três dias
Vi anjos de plástico
Assim como vi o pau de plástico
Ela acreditava que o bicho papão
Tinha oito dedos em cada mão
Falei que tinha matado o danado
Com uma pistola d’água cheia de vinagre
É sério, ela disse
Vi o picareta tentando mostrar o dedo do meio
Mas ele tinha oito e não tinha um dedo do meio
Ora ora mulher, que siririca desperdiçou
Siririca – confessou – pra mim é como um carburador velho
Só fede e não liga
Meu negócio é língua
Língua áspera e grossa
Rachada e cheia de cores
Por todo autódromo
Deve ser mais lisa que uma capa de livro
Nada! Nunca me depilei, acho desnecessário
Sou natural como o brilho nos olhos do canário
Natural como a carne nas gengivas do tubarão
E o bicho papão
Você quer mais uma bebida?
Por favor
A vela sete dias estava no sexto
A faca no chão tinha sangue seco na ponta
O incenso fedia canela
TV ligada no último volume
Contando um fato de lástima racional
Tremendamente constrangido
Por fazer aniversário ali
E como presente
Uma torrada de querosene
Saudei os anjos e o pau de plástico
Facas e os rasgos no sofá
Privada entupida
Gatos boiando na piscina
Mãe morta após uma temporada familiar
Fumaça dentro da geladeira
Cheiro de sapo nos travesseiros
Cobertores com figuras do arco-íris
Pantufas dentro do plástico
Calcinhas em pó de neve
Boquete enquanto segurava um peido
Nossos sabores não se entrelaçaram
Não à toa
Meses depois
Quando passou de carro e grasnou em filtro branco
Circulando a rótula pra voltar
Me escondi dentro de um banheiro de posto
O único brilho natural que eu carregava
Era uma moeda da Argentina
Vapores, vapores
Caçando as amígdalas e as mariposas
Em casa após três dias do aniversário
Comi dois ovos cozidos
Sentei pra escrever
Mas não saiu nada
Imaginei o bicho papão de oito dedos
Entalhado na parede
Mostrei-lhe o dedo do meio
E uma lágrima solitária
Caiu dentro do copo
Osmose
Enquanto a cerveja desce gelada:
Sou a Suprema Corte
Réu
Promotor
Juiz
Testemunha
Defesa
Vítima
Fiança
Prova
Circunstância
Protesto!
Indeferido
Indefinido
Enquanto a cerveja desce gelada
Ainda sou o veredicto
De uma vida criminosa sem crimes
Culpado!
Coitado
O réu tem algo a declarar?
Sim, Meritíssimo
Tem três segundos
Quem são vocês que sempre aparecem enquanto a cerveja desce gelada?
Levem-no!
Leve-me!
Levei-me!
Ao palco
E alguém assustadoramente parecido comigo gritou:
Tirem esse cara daí!!!
Tirei-me
Sentei entre a plateia
Aguardei as cortinas abrirem
E o espetáculo terminar
Sem aplausos
Por hoje
Cada
Conheci um cadáver
Que tentava grudar carne podre com fita crepe
Nos dias mais quentes do ano
Era possível vê-lo com todos aqueles pedaços de fita úmidos e sujos
Semi ou quase totalmente rasgados, amarelados, esverdeados, azuis também
Segurando uma porção de pele, falanges, lóbulos, etc
Como fedia o pobre diabo a partir dos 50 graus
Na segunda semana de agosto encontrei-o dando comida aos pombos elétricos
Pensei em seguir adiante, pois o relógio digital marcava 67 graus
Pelo que diziam os meteorologistas, era um fenômeno raro aquela temperatura
Tinha ouvido isso no rádio, no intervalo entre as músicas:
“Barbarella” e “Deshacer el mundo”
Inclusive, fazia oito anos que não ligava o rádio
Tinha perdido o T
A voz do locutor me fez lembrar o primeiro arroto que ouvi de mamãe
Assustadora no começo, mas confortável e confortante com o tempo
Vesti minhas duas blusas de lã para garantir, estava saindo de um resfriado
Comi um figo e fui passear
Baixei a cabeça quando percebi o “Cada” jogando pilhas ao redor das margaridas
“Ei Bili!” ele gritou ao me ver
Bili sempre foi meu apelido por conta da semelhança física com “Billy Cativo”
O último jogador de Damas ainda vivo
A cidade inteira me conhecia por Bili, menos papai
Para papai era ainda, somente e para sempre Jonas Bello
“Cada! Alguma novidade?”
“Estou com três fitas novas!” Ele disse erguendo uma mão e as duas sobrancelhas
“Está melhor que um fantoche” respondi.
“O que é um fantoche?”
“É um boneco leproso”
“Bili, venha aqui perto”
“Para?”
“Quero desabafar”
“Desabafe daí”
“ESTOU PREOCUPADO COM MINHAS BOLAS!”
“Não se preocupe e não grite”
“Acha que a fita crepe é capaz de suspender minhas bolas?”
“Se não pesarem meio quilo cada uma acredito que sim”
“Estou pensando em por uma na ponta do nariz e a outra na testa”
“Boa ideia. Por que não tenta a fita dupla face?”
“Sou alérgico”
“E a fita dupla face orgânica, sem glúten e sem conservantes?”
“Diabetes”
“Venda as bolas, oras”
“Quer comprar?”
“Quanto cada uma?”
“Cem cruzeiros”
“Jogue-as aqui, quero ver”
“Mas não soltaram ainda Bili. Estou me precavendo”
“Não deve ser tão difícil arrancar uma. Falando nisso, lembrei que preciso de um tornozelo”
“Meus tornozelos estão ótimos, não quero vendê-los”
“Parei aqui por sua causa, vamos negociar!”
“Tenho esse cotovelo que a fita crepe não segura mais”
“Cotovelos são difíceis de revender. Em que ano acha que estamos? Qualquer um nasce com um cotovelo extra hoje”
“Um rim?”
“Um rim? Tá brincando comigo??”
“Porra Bili, me ajuda”
“Teu umbigo é pra dentro ou pra fora?”
“Era pra dentro, agora já caiu, mas a fita ainda segura”
“E quer que eu te ajude? Como estão os mamilos?”
“Pendurados”
“Me venda um câncer então!!!!”
“Uooooooooooouuuuu Bili, jamais. Quem tem não vende, sabe disso.”
“Monopolizaram o negócio seu fedido”
“Ninguém mandou vender os seus antes da crise”
“Eu precisava comer, e os meus não tinham proteínas mesmo”
“Como está sua mãe Bili?”
“Quase nova, saiu da oficina ontem”
“E seu pai ainda caçando corvos albinos de bicos quadrados?”
“Não é época ainda, só aparecem por aqui no mês 23”
“Quero ven….”
A língua dele caiu
“COMPRO ELA” Gritei
Mostrou-me o dedo do meio da mão direita
Empacotado de fita crepe suja
“O que significa isso?”
Ele grunhiu algo e logo o dedo caiu também
Ajuntou ambos, pôs no bolso
Saiu devagar, caminhando
Precisava de mais fitas
O estrago
Por favor, leia sem rir
Pense em minha seriedade ao descrever os fatos
Esqueça que sou um desabrigado com teto
Caindo com calma e alma
Não leve em conta meus vícios
Principalmente os de linguagem
Acredite que qualquer um reagiria da mesma forma
Lembre-se que a fogueira termina onde começa
E que o fogo só aquece os próximos
Após cagar na universidade
Pra ser mais exato, no prédio da enfermagem
Segundo andar, porta verde, “Masculino”
Meio rolo, cagada inteira, suficiente
Senti uma incandescente coceira ao me mover
Para lavar as mãos
Não ria
Estou tão sério quanto um funeral de mãe
Caso sério
Descia as escadas, desconfortável
Sentindo o batimento do coração nas pregas
A cada passo calculado, sempre pra baixo
Uma agonia aumentada com o roçar das nádegas
Era como se eu tivesse organizado um sapateado dentro do formigueiro
Todos dançarinos embutidos
Uma semana inteira aguentando isso
Mas hoje não dava mais
Liguei para minha mulher farmacêutica que está de férias
Era onze horas da manhã
“Me ajude, não consigo caminhar”
“O que aconteceu?”
“Coceira no rabo! Porra! Sempre depois de cagar! Qual a cura?”
“Coçar?!”
“Não consigo, preciso de mais dedos”
“Onde está?”
“Na universidade. Diga-me o nome de um remédio!”
“Acordei agora, preciso pensar um pouco”
“Tá brincando comigo?”
“Pode ser várias coisas! Assadura, vermes, fungos, bactérias, hemorróidas, tesão, sei lá, estou de porre!”
“E eu estou entre a vida e a morte! Por Deus, parece que sentei no Sol! Um nome de pomada, rápido!”
“Cristo! Vou saber o que tem?!”
“COCEIRA NO CU!!!!!!! ESTUDOU PRA QUE? AI, AI, AI”
“Estou de férias, vai à farmácia e se explique”
“Nem pensar! Não sou o tipo de pessoa que sai espalhando as coisas. Me diga um nome!”
“Deixe-me ver…”
“Ai, ai, ai”
Silêncio de ambos os lados
Finalmente
“Ok…Compra dois comprimidos de Albendazol e a pomada Hemovirtus”
“Lembra o preço?”
“Claro que não!”
“Tu não serve pra nada! Obrigado, tchau”
Fui à farmácia e entrei de mansinho
Poucos clientes lá dentro, uma funcionária me esperava no balcão
“Bom dia” ela disse
“Boa tarde” respondi todo atrapalhado
“Pois não, boa tarde”
“Quero dois comprimidos de Albendazol”
“Só temos Albendazol líquido hoje”
“Ai, ai, ai” pensei
Mantive as nádegas imóveis e perguntei o preço e a diferença para os comprimidos
“Nenhuma diferença, e o preço é R$ 4,76 cada dose”
“Qual o preço da pomada hemovirtus?”
“Um momento…R$ 19,79”
Pensei rapidamente e respondi
“Moça, a pessoa que precisa dessa medicação julgava os preços mais baixos. Vou falar com ela antes de comprar, sabe como é, situação nada fácil”
“Entendo” ela disse
Fui pra rua, liguei:
“Mulher, acha que meu rego vale quanto?”
“Nada”
“Pois então me indique um remédio equivalente! Vinte paus uma pomada?! Ai, ai, ai”
“Hahaha….Sempre que mando secar essa bunda direito após o banho você me xinga. Caga três vezes por dia, é virado em pelo, sua como atleta no trabalho, usa três dias a mesma cueca, só compra papel higiênico de dois pila e fermenta vivo por dentro! Se fez a caverna, agora aceite os turistas ”.
Desliguei e voltei pra farmácia
“Vou levar uma dose de Albendazol e a pomada”
Saí de lá angustiado e entrei no primeiro prédio da universidade que vi
Engenharia civil, primeiro andar, porta do banheiro cor salmão
Sentei em um sanitário e resvalei o dedo médio com a pomada escura no boga
Uma magia quente e dolorida
Mais pomada
Um alívio desconfiado
Caminhei até o departamento onde trabalho
Derramei o Albendazol líquido em um copo plástico
Cheiro estranho e consistência duvidosa
Enquanto bebia ouvi a pergunta
“Que porra está bebendo?”
“Remédio” respondi após engolir
“Ainda com a garganta podre?”
“Negativo. Esse remédio é pro cu”
“Não está tomando pelo lugar errado?”
“Capaz! O que vai lá está na sacolinha”
Não ria
Pois sabe o que é pior? Isso tudo foi agora a pouco e não sei se vai funcionar
Enquanto continuo peidando com cheiro de pomada
Ai, ai, ai
O capcioso eu derrotado
Foi Churchill quem disse:
“Agora que fizeram o que queriam
Vocês têm uma tarefa mais difícil
Gostar do que fizeram”
Ao som dos ruídos gástricos da cidade
O poder nunca foi tão metafísico
Partindo de um ponto ignóbil e viril
O desvio insular coberto por um lençol com dois furos
Homens e mulheres como adesivos num campo de golfe
Foi por isso que Prometeu prometeu não prometer mais nada
Sempre ouço dela: “Não existe doença, existe doentes”
Há muito pouco para mastigar ultimamente
Tudo parece trivial e sem gosto
Comboio marginal
Animais gargalhando, pois voltaram no tempo
E abortaram suas mães
E as tartarugas vivem muito
E as corujas também
Enquanto um besouro castrado na gaiola
Queima num berço vicioso
Colando fumaça no quadro branco
Escritor tarde demais
Escritor cedo demais
Desaprendendo
A caçar na escuridão
Um feixe de luz ilusório
Que me cega
No primeiro feixe de luz
Na escuridão
Era 22:00 quando faltou luz no bairro
E o primeiro grito que ouvi foi esse:
“Filha da puta! E agora como saberei a hora de parar de limpar o rabo?”
O maldito cano sanfonado
Os intrusos, a goteira, as rachaduras da parede, o barulho da caixa d’água
Uma aranha sem pernas tecendo sua teia para afastar-se de mim
Nas vibrações das mazelas
Nas vibrações das mazelas
Ruídos místicos das docas
Congestionaram a viela
E os ecos foram de carona
Para rua sem saída
O soturno gritou por silêncio
Enquanto fazia a barba deitado
Pediu-me opinião sobre seu cavanhaque
“É um formidável retentor de buceta”
Peguei na mão dela e atravessamos a rua
Caminhamos até um vendedor de garapa
“Dois com limão”
Aguardamos toda a engenharia
Seu vestido bronze com relevos pitorescos esvoaçava
Como as asas de um filhote recém chocado
Seu olhar que podia parecer periclitante
Mirava com louvor as sombras das árvores
Vitrines embaçadas pelo vapor íntimo
Paguei R$ 10,00, um copo maior que o outro
Ela sugeriu sentar para beber, concordei
Do outro lado via-se um museu fechado
Uma balança de farmácia, um vendedor de toalhas
O outro lado é uma miragem em construção
Falei em comboios atenuantes
Expliquei o retentor do soturno
Disse-me dos ladrilhos suportando pesos
E afundando em partes
Também dos rins equalizando os termos
As luzes aos poucos contestavam o pôr do sol
Ao passo em que as cigarras afinavam os acordes
Para um blues de rejeição
Petulante, afirmou que daria fim aos meus cravos do nariz
“Meu nariz não tem cravos, o que vê são medalhas”
Nos beijamos como uma batida de porta
Afirmativa, barulhenta e significativa
Jogamos os copos no lixeiro azul
Nos ladrilhos homens sem querer voltar pra casa
Em casa mulheres sem querer que os homens voltem
Arsênio injetado por um farmacêutico grego
Pelo meio da Hercílio até o mercado
Adiante
Um lugar nos espera
Com um gato que parece Carlitos
Derrubando prendedores de varal
Para ficar acomodado
Com uma melancia pela metade
Com os sons de uma cidade que previu o dia
Todo esplendor de uma lâmpada queimada
Sob estrelas vermelhas
O soturno barbear da catarse
Retentores em tanques de guerra
As mazelas, os deleites, os ecos e ruídos
Ainda dormiremos juntos
E acordaremos nus, com a janela semiaberta
Ouvindo o sempre pontual vendedor de ovos caipiras
Feliz Natal
Osvaldo foi comer a ex-mulher de um amigo
Passar o Natal com ela, finalizar todas aquelas sequências de bronhas dos tantos outros feriados
“Oi Osvaldo, pode entrar, a comida já está pronta”
Já tinha imaginado ela mais de dez mil vezes nua e prostrada
“Que bela mesa você preparou Anita, o que é aquilo ao lado do frango?”
“Prove, eu inventei hoje”
Tinha um gosto forte, da vingança contida de um amor acabado
Comeram muito, enchendo seus vácuos mútuos regulares
Beijaram-se com o mesmo gosto labial, um beijo de frango morto
Assistiram televisão juntos, abraçadinhos, ela com a mão no pau, ele com a mão na xota
“Quanta sorte”, Osvaldo regozijou, viu no pau duro a esperança de gozar no mundo
“Vou pegar duas cervejas”
“Opa, manda ver”
Certamente alguém nascia naquele dia, mais uma vez
Lambuzaram-se propositalmente com o sabor do álcool doce da vida amarga
Ela nas tetas, ele nas orelhas
Riram e foram pra cama, saudar o desconhecido antigo
Enquanto metia fundo na fenda, um grito desamparado vinha da rua
“VOU TE MATAR OSVALDO!!”
Na cama
“Me come Osvaldoooooooooo”
“Eu sou o Osvaldo, o Papai Noel dos fodedores!”
“EU SEI ONDE SE ESCONDE DESGRAÇADO!”
“Óóóóó…Me chupa Papai Noel”
Desceu com a língua em ziguezague, contornando todo o presente do Senhor
Os reis bagos ovacionavam o grande momento, os dois com presentes pubianos
Abençoou aquelas coxas, multiplicou o líquido
Afastou as pernas da virgem fodida
E meteu a língua na manjedoura
Um animal degustando seu cocho
“Chupar uma buceta é sugar uma alma e devolve-la nova”
Um Feliz Natal
A expectativa confidente da convicção
A lagoa proibida matou o “calcanhar de índio”
Afogado
Um jovem epilético apaixonado por caminhões de madeira (miniaturas)
Que trabalhou comigo por alguns meses
E teve ataques carregando o próprio suor
Ele se foi como uma pedra de gelo no chá quente
Soube que enquanto vivo
Entrava em viaturas policiais (outra paixão)
E denunciava todos traficantes do bairro pesado onde morava
Nunca cansou de apanhar no dia seguinte
Sua paixão não era párea para eles
Jurado de morte após as surras
Ainda saía com suas calças largas e curtas
Cantando a única canção que havia decorado:
“Naquela tarde
Que a poeira firmava meus pés no chinelo
O odor das plantas era verde
Palavras surdas enlouqueciam o martelo
O próprio instinto sendo manipulado
Naquela tarde
Naquela tarde
Onde os espinhos me faziam voltar
Para o cochilo colorido da multidão
Em segredo eu perdia a próxima refeição
Num céu irrisório e vermelho sangue
Acima das cobiças de um cego na pista de boliche
Naquela tarde
Sons eram gestos
E a repudia tornou-se pele
Como um rio doce encontrando o mar
Repudia breve com um filhote na forca
Pras próximas tardes
Naquela tarde
O Sol diminuiu
A chuva perdeu o gosto
Os zumbidos foram altos
Mas as bromélias continuavam estáticas
Apontando pra baixo
Como se guiassem
Minhas próximas tardes
E naquela tarde
Povoei todos meus dias
Sem notar
Sem querer”
Sempre era o primeiro a chegar ao trabalho
Ou pelo menos o primeiro daqueles tratados como números
E têm seus nomes apenas como frações de força
“Calcanhar de índio” afirmava incisivamente
Ter trepado com duas prostitutas no centro
Por R$ 60,00
Embora ninguém acreditasse nisso
Não no preço
Lembro de seus olhos ao contar a história
Eles quase lacrimejavam seu sêmen
Eu sabia que seus R$ 60,00
Foram praquele caminhão estacionado
Sobre a cômoda
Os R$ 60,00 eram sua fiança
E mesmo tendo que ouvir todas aquelas risadas
Ele dava de ombros e sorria de lado
Sem justificar as viaturas e o cheiro da madeira em seus dedos
Praqueles homens,
Que de uma forma ou de outra
Mantém seus calcanhares
Imersos no âmago
Da suscetibilidade imolada
