Fotografia de um cotidiano vagabundo

Que novela, bem em frente
Um pombo e uma pomba
Pelo tamanho, ela era a toda branca, ele um panda com asas
Nunca vi tamanha indiferença de uma pomba
Impondo um desejo de paz, e ele apenas um desesperado
Ela o deixou sem migalhas e seguiu seu caminho balançando o pescoço
Sem voar, pedindo carona pro céu
Ele era um belo pombo, muitas manchas negras, grande
E não estava ali para comer
Sucumbiu ao desprezo e começou a bicar o asfalto quente
Num ato de penitência
Pensei em oferecer um cigarro, algumas palavras de conforto
Ou até mesmo deixá-lo cagar na minha cabeça
Eu queria me comunicar com ele
Falar pra tentar aquela pardoca que tomava um banho de poeira do outro lado da rua
Em sinais discretos com os dedos eu dizia:
“Não se culpe amigo, no seu lugar muitos enlouquecem, e tudo isso é por nada. Está tudo bem”
Pensei que ele alçaria vôo antes de eu entrar no mercado
Por isso fiquei ali para me despedir, mas ele permanecia ali
Andando em círculos, embaixo de um sol escaldante e em cima de um asfalto cozido
Pensei comigo: “Era o que faltava, mais um pombo pirado por perto”
Se ele permitisse cagaria nele, só para lembrá-lo que sua diversão ainda não tinha terminado
Que agonia não poder olhar para seus dois olhos ao mesmo tempo
Me aproximei o máximo que pude, e antes de alcançar o céu meio desajeitado, ele soltou um som de pombo, mais pra dentro que pra fora
Como se estivesse me dizendo: “Você escreve pois não sabe voar”

Orgia de um homem só

Na frente do espelho, nua
Vira, desvira, lamenta e vibra
“O que você acha da minha bunda?” Pergunta
“Grande e mole” Respondo
“Sério?”
Vira-se, dobra o pescoço por cima do ombro direito, depois por cima do esquerdo
Apalpa as duas nádegas, como bolinha para estresse
“Merda” diz
“O que foi?”
“Grande e mole”
Desvira
“O que você acha dos meus peitos?”
“Médios e moles”
Ergue-os até perto do queixo, e prensa um contra o outro
Sorri, sabe que estou blefando com os peitos
Fica de perfil para o espelho, não tira o olho dele
Entorta-se um pouco, com as mãos na cintura
Levanta a perna esquerda, deixando o dedão do pé esquerdo tocando o chão, a ponta dele
“O que acha da minha perna esquerda?”
“Curta e grossa”
Pousa o pé esquerdo, troca de lado, faz o mesmo movimento com pé direito
“E minha perna direita?”
“Curta e grossa”
Vira-se de frente pro retângulo refletivo e joga os cabelos por cima dos peitos, alisa
“E meu cabelo?”
“Longos e encaracolados”
Levanto nu, me coloco atrás dela, apalpo seus peitos por baixo dos cabelos
Como bolinha para estresse
“O que você acha do meu pau?”
“Curto e mole”
Puxo seus cabelos e cubro suas costas
Nua no espelho, eu a vejo, mas não me vejo
O reflexo é só dela
Parece um quadro, com tintas incandescentes
“O que você acha do meu pau agora?”
“Curto e duro”
E as cortinas permaneciam fechadas
Enquanto a intimidade fluía nos alicerces
Uma dose de intimidade compartilhada tem mais valor que uma garrafa de amor lacrada
E há tantos que amam por anos, e acabam como sapo e galinha
Provando perereca e medo, ganhando ovos e pedradas
E eu, todo desprovido de amor ferino, ainda a tenho íntima
E posso cerrar minhas cortinas
Sabendo que o amor não faria falta perto de nossas intimidades
Que as coisas sim
São síndromes definitivas ou temporárias
Mas que felizmente serão lembradas
Como agora

Granada

Da mancha no olho casto
Do prurido na pele branca
Dos calos relevantes no pé 33
Das paisagens que sobram na cama
Leio Azevedo por 3,99
O primeiro livro vendido no bazar
Segundo a caixa
Pedido de ordem nas cruzadas
Não sei a capital do Líbano
Sugiro Lindóia do Sul
Muita letra
“Não sei”, por fim, nos une
Uníssonos
Tocamos cabelos e formigas
Nas paredes mofadas
Nos panos de pia
No pacote de lixo
Na folhagem que atrai abelhas
Nas folhagens que nos une
Que regamos com suco de limão
E adubamos com erva molhada
Assim sentamos à margem
Das tristes notícias do erro comum
Das traças viciadas em naftalina
Dos equívocos das tesouras com ponta
Do nome no lápis sem ponta
Da taça trincada por um erro comum
Dos beijos si-lá-bi-cos
Voltamos a caminhar
Torcemos nossos corpos
Na quina do sofá
Na porta do box
Achamos engraçado esse porte de arma
Quebramos, esparramamos
Os cacos da porcelana verde  por dentro
Vamos embora, vamos embora
Nosso chão tem carvão em brasa
Nossos símbolos vestem chapéu
Nossa ternura usa bigode
Nossas extravagâncias estão no sótão
Deixo a toalha de banho marcada de cera
Uso dois pingos de gel
Repito a cueca
Corto as unhas dentro do cinzeiro (um pote de metal para presente)
Cheio de ilustrações geométricas
Mas saem voando, capazes de orbitar
Vamos embora, vamos embora
Ela deixa rastros de primavera pela casa
Ela queima como um verão bêbado
Ela é outono quando sonha e inverno quando chora
Suas toalhas de banho têm cheiro de pêssego
Seus cigarros ardem como incenso
Damos nomes aos insetos que respiram pela boca
Das patrulhas pelas travessas
Do mendigo que fala chinês e mendiga em espanhol
Da noite que embrulha a ópera
Dos centímetros que separam metros
Do último furo no cinto
O álibi como um simples não
À margem, à margem
De um confuso ato
Os espelhos podem marinar
A recompensa que nunca acaba
Ela já está dormindo
Minha lira de 29 anos

John está morto

Foi intencional até certo ponto
Acreditem
Uma questão de sobrevivência avessa
Suicida convicto, chegou aos 30
Sem motivos, segundo sua consciência
Pra viver, pra morrer, pra nada
Mulher com 26, filha com 5
John queria morrer
A única questão que o impedia
Era não saber o real motivo
Esse era o crime para John
Não saber intrinsecamente
O motivo do desejo cadavérico
Tantas foram as regressões
Mas ele sempre via-se “normal”
Em todas fases
Em todas faces
Seu rosto não demonstrava anomalias adotadas
Corria, brincava
Chorava, mamava
Não nos seios de sua mãe
Que não tinha leite
Mamava a vizinha
Mãe de seu melhor amigo por 10 anos
Masturbava-se, media o pau
Comia as primas, rezava de joelhos
Para seu time ganhar
Quebrava os braços, roubava chocolate
Matava pássaros, fazia aviões de papel
Cagava nas fraldas, cagava nas calças
Cagava em qualquer lugar
John insistia nas regressões
Exigia um bom motivo para matar-se
Ia para a igreja, beijava a avó por pressão
Invejava Maicon, amava Cristine
A professora do primário
Fantasiava heróis, odiava ler
Pensou ser comediante, apanhou na cara
Sangrou e ficou envergonhado
Ganhou gincanas, riu de deficientes
Bebia cerveja com açúcar, borrava cuecas
Não tratava o cachorro, tinha ereções com desenhos animados
Broxava com Aline, perdia fichas no fliperama
Porém John desistiu das regressões aos 30
Decidiu criar seu próprio argumento válido
Cortou o pescoço da filha de 5 anos
Deixou jorrar
Queimou o corpo na churrasqueira, foi até a cozinha
A ponta da faca dando voltas em seu pescoço
Sem tocá-lo
Ainda não conseguia
Sua filha em cinzas e em nuvens carregadas não o convenceram
Fez o mesmo com a mulher
Mas uma força incrédula mantinha-o inerte
Amolecendo seus dedos
Largou a faca
Mesmo tendo matado a própria família
Continuava com o devasso vazio
O vazio que o impedia de morrer
A barbaridade de seus atos daquele dia
Em vão, em vão, em vão
Desvanecendo entre lacunas desconhecidas
Fato é, John não desistiu
Cinco dias depois frequentava boates diariamente
Traçando o que podia
Liberando sua mesquinharia estimada
Tudo pelo vírus
Queria e precisava saboreá-lo
Cinco meses passaram até confirmar
Tinha AIDS
Sigilosamente ficou sabendo o resultado
Chorou em frente ao médico
Que entendeu as lágrimas distorcidamente
Em casa, com o resultado aberto sobre o sofá
Regozijou abastecendo o 38, bala por bala
Embora só precisasse uma
O barulho delas entrando no tambor
Significava o fim da busca
Ao que parecia, nada mais justo
Combinar morte lenta e morte breve
Com o cano na fonte, fechou os olhos
Não sentiu um pingo de medo
Coçou a barba, engatilhou o ferro
Retesado mais uma vez
Descobriu-se insatisfeito
Incompleto
Incapaz de puxar o gatilho por aquilo
Um vírus apenas, como a gripe
Pegou o resultado e engoliu sem mastigar
Dirigiu-se até a garagem
Trouxe o machado para a sala
Abaixou as roupas debaixo
Excitou-se com Cristine
Prostrada sobre sua mesa escolar
E com um golpe de machado
Viu seu pênis rolar ainda duro
Pegou-o na mão e mordeu
Desmaiou
Acordou no susto minutos depois
Ainda rejeitado no clube
Correu estancar o sangue
Visualizou seu corpo quase sem cor
Precisava saber o motivo
E agora sem pênis
Faria sentido
Morri porque perdi o pau
Isso que pensava ainda precavido
Impossibilitado
Mate-me John suplicava
Esqueça o porque
Mortes não exigem justificativas
Não! John respondia-se
Busco isso por anos
Agora que criei coragem vou encontrar
Novamente o cano na fonte mostrou-se infrutífero
E de repente percebeu
Que não ter motivos para morrer
Era o maior para matar-se
Finalmente
Saiu de casa e jogou-se de um sétimo andar
Acabou em uma cadeira de rodas
Deu-se um tiro e ficou cego
Bebeu ácido e perdeu todos os dentes
Descobriram seus crimes
Morreu na cadeia
Ninguém sabe como

Trapaça

O tempo perdido, uma prostituta de fundo falso
Lowell, como um gambá, traçou minha garota
Mordeu minhas costas, roubou meus poemas
Fugiu acenando e confessou-se
Numa tribo que comia minhocas
Essa vizinha nova insiste em desligar meu ventilador
Enquanto durmo ao lado das latas de tinta
Ela diz que se quisesse ouvir um vento artificial
Teria sopro no coração ou uma buzina nos mamilos
Com um tiro de sinalizador dentro da boca
Reivindico o direito de ficar calado
Até que a sorte nos separe
O rabo do lagarto
Contorce-se mais solto
Do que unido
A sobrevivência preserva a toca
O rabo do lagarto
É um batom vermelho  na ponta do alfinete
O rabo do lagarto
É a segunda descarga no banheiro público
Poeira e carvão no marfim inalado
Eu estive longe nessa semana longa
Absorvi o mínimo do ópio
Que as vozes viciam
Minhas cinzas grudaram nos dejetos
O  tomate pela metade
Atirei nas costas do gato
Que cagava na sacada
Agora me faz falta

Zoometarquia

Chinelos vermelhos
Tramas na geladeira
Quinta da carne
Terça das verduras
Papai e mamãe perderam a posição
Há sangue nas gavetas
Quarta do frango
Sexta da cerveja
Há umbigos roçando desonestos
Cristina chora no quarto escuro
Ao lado da goteira, afirmando:
“O mundo perdeu-se por andar em círculos”
Domingo teatro
Segunda folga
Feriados, sacolas cheias de água
Chico empresta dinheiro para a esposa
Com juros abusivos
Há um frasco de remédio vazio
Pendurado como um guarda-chuva
Na hélice do helicóptero
Urubus são anjos que deram certo
Sábado
A colheita, a colheita, a colheita
Dias, sabores
Quinta da carne
Terça das verduras
Kama sutra além do livro de receitas para colorir
Ingredientes sem giz de cera
Carnes, verduras
Tramas na geladeira
Chinelos vermelhos
O palhaço do semáforo
Após deixar seu nariz de plástico cair
Embute:
“Contudo,
Com nada
Se perde tudo”
Eu deixei as moedas em casa hoje

Quinhão

Quietos
Recebo uma baforada de cigarro na cara
E logo após, uma risada branca, iluminada
“Hahahaha, vi Oz!”
Não reajo
Não tiro os olhos da sombra
Na parede
Os botões secos dos lírios mortos
Criam essa face
Soprando um apito
“Vi Oz! Tenho um pedido!”
O vento balança o pote cheio de terra
Os lírios estão mortos mas dançam
O apito cai da boca
Volta pro nariz
A sombra jorra um líquido
O homem é banguela
E careca
Mesmo assim canta
Sem encostar a língua no céu da boca
“Tem o que?!” Pergunto
“Tenho um pedido Oz”
Quietos
As roupas estáticas no varal
Trégua
O apito na boca
“Que pedido?”
“Quero que mate uma barata”
No outro dia
Enquanto meus cabelos caíam
No chão do banheiro
E uma barata era velada
Dentro do lixo
Enrolada num papel higiênico
Eu lembrava daquela face
Apitando conforme o vento
E cantando sem tocar a língua no céu da boca:
“Os navios partiram deixando as âncoras
Somente quando quiserem atracar
Saberemos o peso delas”

Guizo

Trato
          Pacto
                     Ato
Eles mentem quando dizem que é o próximo da fila
Eles sucumbem perante uma cortina de ferro
Eles são ondas no aquário
As onças desconfiadas e desbotadas pela velhice
Suspeitam que valham menos que 50
Pagam pelo valor do troco
Dividir a dúvida pela dívida é uma dádiva duvidosa
Quantos já tentaram pisar na sombra da Lua
E caíram num buraco do espaço
Pombais, sótãos, quartos de vidro, coberturas amanteigadas
Asilos, monumentos, faixas pretas no cemitério das borboletas
Parto
          Parto
                    Parto
Resiliência como a arte de tornar-se impróprio
Eu sei, eu sei
Amanhã uma idosa de 80 anos falará com sua mãe
Uma coisa qualquer
E todos ao redor nem se darão conta
Que a vida pode ser realmente longa
Cheia de ninhos criados entre espaços de tempo livres e discretos
Raízes  que o Templo não apagará
Parto, trato
                     Parto, pacto
                                            Parto, ato
Assim parto
Devorando dentro de mim
A beleza do esquecimento

Ritmo Sincronizado

Continuo sendo essa equação de solidão
Que soterra paladinos
Em puro ostracismo vulgar
Para além das manias pueris
O preço dos meus dentes está caindo
Correspondências sem meu nome entopem a caixa
Tem Teresa, Rogério, Camilo e Adriano
Com intimidades bancárias
Paulo Roberto assinou TV a cabo
Regina lembrou-se de Alceu
Impossível esquecê-lo
É o imbecil que emprestou-me a chave de fenda
Alceu recebe cartas de Regina e tem uma chave de fenda minúscula
Já daria um ótimo marido de aluguel
Orgulharia o presidente
Não a mãe
Nem minha namorada, Gilmar é seu marido às vezes
Ele sim tem uma bela chave de fenda
Aliás, tem um jogo inteiro delas
A carne e o detergente estão em promoção nos panfletos
Retiro somente um da caixa do correio
Não tem meu nome, mas também não tem nenhum outro
Por Deus, a única coisa realmente útil que tenho na pia do banheiro
É uma loção para hemorroidas, e nem ao menos posso usar
Porque não incharam ainda
Nem caíram para fora de mim
Penduradas, sabe
Talvez eu devesse doar para o carteiro
Já que nem um cachorro tenho pra ele
O fogo que era azul agora derrete minhas panelas
Insisto em observá-las pingando
Só assim me interesso por química
Parece besteira, mas decorei a tabuada
Quem sabia podia sair da escola antes
Capitais nunca soube
Sempre um dos últimos a sair da aula de geografia
Minha professora de ciências tinha um belo rabo
Como não consigo lembrar seu nome?
E por que não esqueço o nome da professora do pré?
Alice, meu primeiro corpo impossível
Bobagem, não era carnal, era amor
Afinal, toda criança de seis anos era capaz de amá-la
Obrigada a amar aqueles cabelos lisos e sua pele lívida
Que sorriso, que voz, que cheiro absurdo
Será que ela me amou tanto como eu a amei?
Possivelmente, meus seis anos foram meu auge
Tolerância
Tolerar
Ser tolo
Arder em areia fina
Marchar na poeira molhada
Dormir em um copo
Acordar em um corpo
Singelamente possível