Quinhão

Quietos
Recebo uma baforada de cigarro na cara
E logo após, uma risada branca, iluminada
“Hahahaha, vi Oz!”
Não reajo
Não tiro os olhos da sombra
Na parede
Os botões secos dos lírios mortos
Criam essa face
Soprando um apito
“Vi Oz! Tenho um pedido!”
O vento balança o pote cheio de terra
Os lírios estão mortos mas dançam
O apito cai da boca
Volta pro nariz
A sombra jorra um líquido
O homem é banguela
E careca
Mesmo assim canta
Sem encostar a língua no céu da boca
“Tem o que?!” Pergunto
“Tenho um pedido Oz”
Quietos
As roupas estáticas no varal
Trégua
O apito na boca
“Que pedido?”
“Quero que mate uma barata”
No outro dia
Enquanto meus cabelos caíam
No chão do banheiro
E uma barata era velada
Dentro do lixo
Enrolada num papel higiênico
Eu lembrava daquela face
Apitando conforme o vento
E cantando sem tocar a língua no céu da boca:
“Os navios partiram deixando as âncoras
Somente quando quiserem atracar
Saberemos o peso delas”

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