O enredo da porta ao lado

A tampa da panela que cai
Dando voltas sobre a mancha
No azulejo frio e úmido do dia vinte
O forno do fogão inutilizado
Pela válvula protetora de gás para crianças
Mas nunca houve criança, nem costela assada
O prato quebra
Como inimigo público número um
John, João, o rato suplica um martelo na ratoeira
O vestido foi tingido pela empregada
Que misturou uma camiseta laranja nas roupas brancas
John, João, o rato ainda se debate com os dentes cravados no queijo
E eu ainda estou acordado
Porque minha toalha de banho 100% algodão
Esteve molhada desde ontem
Por que separar o garfo da faca?
Era sopa
O guardanapo terminou
Por limpar marcas de sangue nas frutas
Tem uma batata podre embaixo da pia
Eu ouvi, mas não falei
Os banhos são maravilhosos
Até gosto daquela música
Mas nunca cantaram até o final
Ou será que fui interrompido pelo carteiro sem botas?
John, João, Joana, Jô, Jó
Eu recolhi a batata
Terminei com o sofrimento do rato
E imaginei vocês
Em um transatlântico
Durante a manhã
Falando sobre o vizinho
Que nunca estava

reduzido ao silêncio

quando nas noites
frias hoje
o silêncio ecoa
me pego recordando
quando nas noites
quentes você cantava
imitando o famoso
bem-te-vi
transformando
toda noite em cena
antes de irmos
dormir..

bons cantares
aqueles ausentes
hoje.

Revista Escambau

Revista EscambauNova participação dos estrábicos na Revista Escambau. Desta vez, Ramon Carlos colabora com o poema Miríade, e Eduard Traste com receita de bomba caseira.