Prédios altos do outro lado da rua estavam lacrados
Tinha ar-condicionado em todos apartamentos
Seus vidros mandavam reflexos capazes de cegar um homem na lua
Onde quer que ela estivesse
Segui em frente e comecei feder, ou talvez já estivesse fedendo
Mas comecei sentir ali, um cheiro de camiseta inundada
Consegui uma sombra ao lado de uma parede e parei em pé
Larguei a mochila no chão e acendi um cigarro
O clima era diferente, estava sozinho na rua
Por uma ou duas quadras nada de gente, nada de carros, nada de nada
Simplesmente Ramon, sua mochila e seu cheiro
O que eu mais queria era morar ali, o silêncio sempre me deixa anestesiado
Queria tirar as roupas naquele momento e tocar uma bronha longa
Gozar de uma vida silenciosa, mas não fiz isso, não sóbrio
De repente ouvi alguém cantando, vinha da minha esquerda
Mas não dava pra ver ninguém, só ouvir, e eu ouvia, e a música era boa
E seu canto era melodramático e afinado
Ele devia ter criado a letra e a melodia, e decidiu que todos mereciam ouvir
Mas ninguém ouvia, somente Ramon azedo estava ali
Ramon com sua bronha interrompida, Ramon sem mulher, Ramon sem desodorante
Ramon incapaz de compor uma letra de música e sair cantando pelas ruas, não sóbrio
A letra era assim:
“Eu vou embora agora querida, eu vou embora querida, e você vai lamentar, pois ninguém te chupa como eu, aaaaaa queridaaaaa, e ninguém te chuta como euuuu, aaaa queridaaaa”
A canção vinha chegando mais perto, mas o cantor não, e logo o silêncio voltou.
Dei uns passos pra frente pra ver se via alguém, mas nada.
Talvez ele fosse o dono ideal pra minha quitinete
Escorrei-me na parede novamente e aproveitei sua sombra por dez minutos
Até que um homem saiu do beco e pegou a esquerda, vindo pra minha direção
Caminhava sonolento, ele tostava sem camiseta, estava resignado com tudo
Quando se aproximou parei-o, devia ter uns quarenta anos:
– Boa tarde, amigo – falei.
– Boa tarde.
– Por acaso o senhor não sabe onde posso achar uma quitinete pra alugar por aqui?
Ele coçou a cabeça, seus cabelos e caspas se mexiam, olhou para um lado, olhou para o outro, coçou mais a cabeça.
– Qualquer coisa – prossegui.
– Estou tentando me lembrar. Se não me engano tem uma tal de Sula que aluga quitinete por aqui, mas não lembro onde fica.
Novamente ouvia: “Eu vou embora agora querida, eu vou embora querida…”
– Já fui lá. Ela não tem mais. Sabe de outra?
– Não sei não.
– Tá bom, obrigado.
Ele foi em frente, pro mesmo lado da canção, pro mesmo lado do homem que ia embora e chupava e chutava mulheres como poucos.
Na minha frente do outro lado do asfalto, seguia uma rua achatada
Que fazia uma curva a direita bem longe, e ninguém fazia a curva
E ninguém achatava mais a rua, e ninguém chupava e chutava mulheres praquele lado
Foi então que vi uma mulher saindo de um caminho despercebido quando virei a cabeça
Um daqueles caminhos que você realmente duvida que alguém mora por lá
Fui até ela correndo, a mochila numa mão, um cigarro na boca
E com a outra mão fazendo sinal pra ela parar. Ela já ia seguindo pro sentido oposto, quando olhou pra mim e esperou.
– Que susto me deu. Quase saí correndo – ela disse.
– Do jeito que estou te alcançaria. Tudo bem com você?
– To bem.
– Escuta, você mora por aqui?
– Sim.
Coitada, ainda pensava em sair correndo, mas eu realmente a alcançaria
Ela era minha agora, e todas suas informações também
Tinha um anel de casada na mão esquerda, aparentava seus trinta e poucos anos
Um cabelo pintado de vermelho opaco, com um corpo realmente gostoso
Peitos estufados, olhos da cor da grama, uma cintura que minhas mãos abraçariam por frente, por trás, girariam, lançariam pra cima, e a colocariam delicadamente sobre o maracanã, e depois cravariam e afundariam sua pele até sangrar e gozar.
– Sabe onde tem uma quitinete pra alugar por aqui? Perguntei
– Entra por aqui de onde eu vim, vire a direita e vai até o fim da rua
– Tudo bem, obrigado
Que bunda gostosa. Passos apressados, o que deixa uma bunda boa melhor ainda. Uma bunda de mulher apressada é o que um homem precisa ver todo dia
casquinha especial
uma mulher
em cada
bola
Passado envelhecido ( XII )
Mais uns goles e estava pronto pra próxima. Sônia, uma mulher que me deu por três minutos e sumiu. Minha culpa, fiquei tão excitado que não fiz esforço algum pra segurar, deixando ela puta, com toda razão. Foi embora me chamando de precoce mestre, falei ainda pra esperar a próxima, mas ficou tão injuriada que me mandou apostar corrida com um pacote de macarrão instantâneo, gritei atrás dela que apostaria e ganharia facilmente. Eu já tinha dado algumas das piores fodas da história pra algumas mulheres, não era Sônia que iria me parar. Ainda tentei ligar alguns dias depois, mas não atendeu, e agora tentaria novamente. Disquei e nada. Disquei de novo, de novo, de novo e nada. Sequei um copo de vinho, se atendesse seria uma conversa delicada. Fiquei imaginando um pouco:
“Alô”
“Oi. Sônia?”
“Sim, quem fala?”
“Ramon, lembra?”
“Você fala muito rápido. Não entendi”
“R-a-m-o-n”
“Ah! O miojinho”
Mais um pouco:
“Oi”
“Oi Soninha, tudo bem?”
“Tudo. Eu te conheço?”
“É o Ramon”
“Ah! Não tive tempo de conhecer”
E a última vez:
“Alô”
“Sônia?”
“Sim! E você?”
“Aqui é o Ramon”
“E aí?! Batendo muitos recordes?”
Parei de imaginar e liguei de novo, dessa vez ela atendeu, o que me surpreendeu.
– Alô – ouvi.
– Oi. Sônia?!
– Isso. Quem está falando?”
Pensei seriamente em desligar. Falar meu nome traria muita decepção à conversa. Subitamente me veio a ideia de instigar ela mesma a falar, pra expulsar pelas cordas vocais o Ramon precoce mestre que existia dentro dela, talvez isso mudasse o rumo do nosso papo.
– Não lembra de mim? Perguntei.
– Não. Quem é você?
– Daquele dia do bar. Que saímos e fomos lá em casa, no São Pedro.
– Já fui na casa de muitos caras no São Pedro. Vai ter que ser mais específico.
– Naquela ruazinha escura e de morro íngreme.
– Não estou lembrada. O que você quer?
– Quero que você venha conhecer minha casa nova.
– Mas me fala seu nome. Quero saber com quem falo.
– Aquele alto e barbudo. Que não parava de tossir.
– Por que não me fala seu nome logo?
– Quero saber se fui inesquecível pra você.
– Pelo jeito não. A gente transou?
– Por horas.
– Bom, não estou lembrada. Vou desligar. Tchau.
– Espera aí!
– Diga.
– Aquela casa com um espelho na porta pelo lado de fora. Você olhou seu cabelo bastante tempo nele antes de entrar.
– Huummmm. Acho que estou lembrando. Aquela quitinete que tinha um sofá-cama no meio da sala e uma escada pro segundo andar?
– Isso, isso.
– Eu estava muito bêbada aquela noite. Não lembro seu nome. Pode me dizer?
– Começa com R.
– Pô cara! Tu é chato né. Vou desligar agora se não me disser teu nome.
– Sua besta bêbada. Meu nome é Ramon, o que quase gozou antes de endurecer o pau.
Ela desligou. Parei de ligar.
Olhei pro relógio, eram dez horas da noite, eu estava bêbado, e as páginas continuavam brancas. Escrevi uma frase em cada página pra finalizar o caderno, com muita dificuldade ainda. Lá estava Ramon, um dos piores escritores do mundo, bebendo e fumando como se fosse um dos bons.
oficina do diabo
uma mente vazia
uma tal oficina
do diabo
onde nascem poemas
onde se libertam
pecados
um homem sem sapatos
vendo seu mundo
emergir
um homem sem mãos
escrevendo para eternidade
vencida
enquanto os demais
continuam passando de sapatos
e mãos vazias
quem diria?
Passado envelhecido ( XI )
Teve aquela mulher, por dois meses. Nenhuma reclamação. Suspeita. Intransigente. Míope. Abusada. Absurda. Artística. Minimalista. Subjetiva. Aleluia. Bestial. Concreta. Cozida. Passada. Maiúscula. Adorava tirar fotos sensuais minhas após uma trepada. Exigia “Faça uma pose erótica!”. Sensualidade pra mim significa mostrar o peito peludo e mastigar os lábios. Convencional. Sou assim. Vale lembrar que essa mulher é a mesma que tirou uma foto minha com o pênis mole entre duas fatias de pão. “X-Pica sem ovos” ela nomeou. Discordei. Estava mais pra cachorro quente sem molho. O que acha de X-Mico de carne? Perguntou-me. Prefiro Misto mole, respondi. Deve ter mais de cinquenta fotos constrangedoras nossas, a não ser que se desfez. Atual namorado, coisas desse tipo. Mãe intrometida. Remorso. Engano. Nostalgia. Desgosto. Capricho. Santidade. Miragens. Por que nos separamos? Peidei no quarto e recusei raspar o peito. Profético. Poético. Efervescência.
Foi mais uma noite de guerra e consolo. Como sempre saí ferido, mas sobrevivi. Aqueles tipos de guerra sempre foram o único momento do dia em que eu sabia quem era. Nada. Tudo. Acordei crucificado no colchão, com uma dor de cabeça de fora pra dentro. Sim, venci mais uma, pensei. Mas essa tinha sido árdua. Venci sim, entretanto lutei mais do que aguentava. Trincheiras e versos. Os saldos sobrepujaram a batalha. Levantei e consegui ir até o banheiro vomitar. Líquidos secos grudados na porcelana cinzenta. Aroma blindado. Vida em jogo. Tremedeira. Pressão baixa com um riso ilusório. Santo Deus, pensei. Dei descarga. Doença encanada esvaindo relaxadamente. Talvez fosse capaz de requentar uma sopa, mas essa ideia embrulhou o azedo da garganta. Um chá, tudo bem. Sentei na cadeira e apoiei os braços na mesa aguentando todo o peso da cabeça, que calculei ser vinte e quatro anos. Emagreci alguns anos quando parei de comer sintomas vagabundos. Regime e decadência. Um chá, tudo bem. A água fervia na panela enquanto desesperadamente eu controlava as náuseas e os erros absurdos. Só mais algumas guerras Deus, depois me entrego. “Boldo do Chile” escrito na caixinha, e dentro, somente um saquinho branco cheio de erva acoplado em um rabo fino de linha. Amarelo queimado ficou a água fervida dentro da xícara. De gole em gole fui sendo engolido pela minha energia arruinada. A dor pesava de fora pra dentro, assim como uma faca que só serra pra frente. Vomitei em cima da mesa e achei lindo meu corpo ainda transparecer perseverança. Pobre coitado, sofre mais que eu. O líquido amarelo queimado foi deslizando na mesa como uma arte moribunda. Assinei com a ponta dos dedos, como um artista imortal, misturando arte, vômito e dúvidas. Fui até o banheiro buscar um pano e retaliei minha arte, assim como Rembrandt fez com sua obra “A conspiração de Claudius Civilis”. Esgotamento taciturno. Deitei-me e pus-me a suar perigosamente. Inspirando sentia um ardor de caldeira, expirando era como ser feito de neve. Fiquei de lado observando as teias de aranha nas esquinas das paredes. Me cobri com uma coberta branca cheia de detalhes azuis e vermelhos. Que calor. Me descobri. Que frio. Que inferno. Que bagunça. Não via aranhas, somente teias. Fiz minha última oração, que mais parecia um hino, conversa afiada. Arrotei alto. Mais um riso ilusório. O dia era claro e quente. O dia era cinzento e frio. Tudo dependia da minha respiração ofegante. Dormi pra não morrer acordado, simplório demais. Ao acordar novamente, tirei os pregos das mãos e dos pés e corri vomitar mais no banheiro. Que ressaca dos diabos, pensei. Trincheiras e versos, chega disso. Abri a geladeira e comi uma sopa gelada. A cura! Que nada, mais um erro absurdo. Vomitei dentro da panela. Escritores não morrem assim, simplório demais. Tentei uma maçã com um copo d’água para estabilizar o veneno adocicado que corria por mim e deitei novamente. Orei mais um hino de conversa afiada, o que me pareceu insultos dramáticos. Dormi por mais três horas, e finalmente aquilo tudo se desmanchou como um algodão doce na boca. Agradeci ter fome, mesmo não tendo nada pra comer em casa. Bebi muita água e arrotei baixo. Bom sinal. Lavei a panela, joguei o pano vomitado no lixo, vesti-me e saí porta afora. O dia realmente era frio e cinzento, com indícios de chuva. O bairro estava duro e sonolento como sempre. Receptivo e simpático como uma gargalhada de hiena. Concordei em não reclamar de nada naquele dia, afinal estava no lucro, só precisava comer bem. Fui até o ponto de ônibus, onde sentei e acendi um cigarro. Sem demora, dois caras sentaram ao meu lado pedindo dinheiro pras suas passagens.
– Não tenho grana – falei.
– Só temos quatro reais. Trabalhamos a manhã inteira no jardim de uma velha, e depois terminamos a calçada do dono daquele bar ali – apontou e disse o que estava mais próximo de mim no banco.
– E não receberam nada?
– Só semana que vem – lamentou.
– Quer comprar um baseado? Perguntou o outro.
– Não tenho grana cara – respondi.
Esse vendedor era cabeludo, com o cabelo ondulado até os ombros. Muito magro e sem camiseta, parecia um picolé de sabugo. O outro usava boné e começou reclamar por ter nascido bonito e não rico. A vida de jeito nenhum contentava alguém, bonito ou rico? Eu só queria comer. Peso e consciência. Quase iniciei uma lamentação longa, mas eles de nada entenderiam. Não por serem ignorantes ou qualquer coisa desse tipo, e sim porque não ligavam pra nada além do meu dinheiro inexistente. A única coisa que carregava na carteira era um vale transporte e duas camisinhas.
– Que sede! Continuou o bonitão.
– Ressaca? Perguntei.
– Sim – ele disse. Tem cigarro pra gente?
– Tenho.
Repassei dois cigarros e esperávamos o ônibus em silêncio. Que fome, pensei. Do outro lado da rua, trabalhadores de uma empresa contratada pela prefeitura cortavam galhos de árvores que quase enroscavam nos fios dos postes. Bebiam água, muita água, naqueles galões de cinco litros. Do outro lado da rua também tinha um ponto de ônibus onde uma morena aguardava com as pernas grossas cruzadas, bem à mostra, com um shortinho jeans desbotado menor que um palmo. Que fome, pensei.
– Era melhor ter nascido rico do que bonito.
– Que fome – falei.
– Que sede.
– Vai lá pedir água pros caras que estão cortando árvores – disse o picolé de sabugo.
Atravessou a rua e foi beber água enquanto o ônibus apontava na reta com o sinal aberto no semáforo. Sede e livre arbítrio.
– Vai perder o ônibus, caralho! Gritou o cabeludo.
Bebia água enquanto olhava para as pernas da morena.
– Ele vai perder o ônibus – falei pro sabugo.
– Vai perder o ônibus, cacete! Gritou novamente.
A morena percebeu a gritaria e descruzou as pernas. Que fome, que pernas, que sede esse animal tem. Atravessou a rua correndo enquanto o busão parava lentamente com aqueles sons de ar do freio. De alguma forma mágica, eles conseguiram pagar as passagens com os supostos quatro reais que tinham. Fiquei em pé no corredor enquanto sentaram lado a lado. Durante o percurso, vagou uma poltrona colocada ao lado do espaço reservado para deficientes físicos, uma poltrona que é preciso abaixar pra sentar. Abaixei e sentei feliz da vida. Que fome. Alguns pontos adiante e nada de importante pra ressaltar nesse intervalo, um outro cabeludo entrou no ônibus, coçando o nariz como um cão pulguento coça as costas. Estava louco. Perceptível nos olhos, nos movimentos e na fala corrida dirigida ao cobrador. Devia ter seus cinquenta anos já, fios brancos no cabelo e na barba, paranoia antiga. Inconscientemente e dedutivamente tive a certeza que esse maluco conhecia os outros dois. Instinto e realidade. Cumprimentaram-se em bom som na parte traseira do coletivo, abraçaram-se como pequenos fragmentos contundentes íntimos e arcaides. Ouvi um pouco da conversa entre eles, mas tudo se resumia a nada, somente um covil de mantras. Que fome. Um ponto a frente e os dois desceram. Desembarcaram em frente uma rua repleta de traficantes. Como eu sei? Já fui lá. Outra história nada louvável, como essa. Logo a frente decidi ceder minha poltrona à uma mulher suada que entrou no ônibus acompanhada por um homem de óculos escuro. Nem sequer um obrigado de ambos. Muito menos um pãozinho com presunto. Em pé, agarrado nos ganchos eu fazia outra reza “Deus, faça com que ela tenha comida em casa”. Uma velha caindo aos pedaços passou pela roleta com dificuldade, com seus cabelos encaracolados e pintados de amarelo travesseiro, implorava um assento mediunicamente, aguardava uma boa vontade. Eu não tinha nada pra ela, estava esgotado, revigorando aos poucos. A mulher da minha antiga poltrona, percebendo a situação, resolveu procurar um pássaro pra conversar na janela. Estava confortável, cada um que procure suas boas vontades alheias. Singelo infortúnio, pensei. Subitamente, o maluco dos cinquenta e poucos anos gritou para a velha, para todos:
– SENHORA! SENHORA! AQUI! POR FAVOR, SENTE-SE NO MEU LUGAR.
Bati na porta da casa dela instantes e momentos inodoros depois, abriu após uns três minutos.
– Surpresa – eu disse.
– Não era pra você vir aqui hoje – me respondeu secamente.
– Por isso a surpresa.
– Entre.
Fui até a geladeira, comi dez fatias de presunto e cinco tomates cereja. Delícia. Abri uma cerveja e fui até o quarto onde ela arrumava os cabelos e a maquiagem. Sentei na cama.
– Pra quem disse que não viria aqui hoje está bem confortável.
Singelo infortúnio, pensei.
– Não é um dos meus melhores dias – confessei.
– Vou aproveitar e raspar teu peito então.
– Pirou?
– Se não deixar, é bom que se suma daqui.
– Besteira.
– Falo sério.
Soltei um peido alto. Bravura desertada. Fui empurrado pra fora, pra sempre. Consenti.
na falta de oxigênio
você descobre que as carpas
e também o peixe dourado
conseguem produzir seu próprio
álcool, para não morrer.
na mesma hora em que
começa a meditar
visualizando suas escamas
visualizando o líquido sagrado
sendo liberado nas veias.
e por um momento
você se imagina Deus
e transforma todo seu sangue
em álcool.. e é o bastante
para perceber que você
também, é o Diabo
nessa brincadeira. e então
você cospe no chão
e acende o inferno
com um fósforo
qualquer..
covardia
cinco cigarros
acesos no velório
de um único
fósforo.
Romeu
O não-gostar é libido
É um caos controlável
É existir na existência, dever aos deuses
É a controvérsia do amor casual, que mal nos acostuma
Tem mais prestígio que um homem limpando a bunda na certidão de nascimento para mudar o nome
Torna-se raivoso, tão pouco contagioso e vingativo
Partiremos daqui logo, deixando sabonetes e talco nos sapatos
Partilhando mais chulé do que paixão
Combinando mais roupas que olhares
Morre-se de preto, desbota-se o corpo
Colam-se os olhos, a boca, as narinas e as pregas
O estilo fica pálido aos que olham para as flores que compraram
Nada tenho pra chorar, nem uma caixa d’agua
As pessoas boas racham lenha a vida toda e queimam
Seus pudores não são vaidosos e desrespeitosos
O não-gostar é instintivo e prematuro
E para que isso acabe, acendem-se algumas velas
Tornando as noites vagas e perfeitas
Romeu lê seu poema todas as noites antes de dormir, o único, pois não é poeta, odeia-os, principalmente Rimbaud. Gosta mesmo é de molhar bolachas doces dentro de leite quente misturado com conhaque, além de boas revistinhas de sacanagem pra acompanhar suas refeições noturnas. Trabalha como telemarketing durante os dias, de segunda a sexta, das 7:59 até 17:59, com intervalo de uma hora pra almoçar. Descobriu um restaurante há duas quadras de distância da empresa e frequenta sozinho, porque a comida é indigesta, mas o preço do buffet livre se sobressai perante os aspectos e receitas do lugar. Cada almoço é um dia a menos na terra, cada dia a menos na terra um consolo. A dicotomia do hipocondríaco. Romeu ainda guarda sonhos de infância, ter um Opala seis cilindros e amar uma mulher, nessa ordem. Quase amou uma mulher, quase roubou um Opala, nessa ordem.
Por ser um funcionário exemplar, acabou tornando-se íntimo de sua supervisora e isso agrada ambos. Sentam juntinhos das 7:50 até 7:59 e sussurram sobre qualquer coisa, ninguém sabe o que rola, sabem apenas que a supervisora Julieta tem um noivo, que por coincidência também chama-se Romeu. Mas nosso Romeu não está interessado, quer apenas uma figura de mulher para inserir nas revistinhas de sacanagem. Uma carinha safada com sussurros sacanas, Julieta é capaz disso e nada mais. O negócio de ser hipocondríaco começou aos dez anos, recorda perfeitamente o dia. Foi buscar sua bolinha de tênis sobre as hortas da mãe, onde pisoteou por todas alfaces possíveis. Sua genitora percebendo aquilo pela janela gritou com o ódio das pulgas famigeradas:
– Romeu! Da próxima vez que fizer isso terá câncer como seu avô!
Romeu desistiu das bolas de tênis. Passou a vida inteira pensando em câncer, e quando ouve que pensar em câncer atrai câncer, então pensa sem parar. Seu primeiro cancro foi na cabeça do pênis. Uma manchinha branca estava acabando com ele, quanta dor, urinar doía, usar cueca doía, coceiras insuportáveis e intermináveis. Deu-se por vencido. Trinta anos depois ainda continua investigando a tal mancha calcificada. O segundo tumor foi na bexiga, lá pelos onze anos. Foi até o banheiro tomar banho e urinou sangue pelo ralo. Não sentiu medo, apenas concordou com a cabeça várias vezes enquanto mijava. Milagrosamente foi curado a base de antibióticos e chás, porém mantem dúvidas quanto a isso, ainda carrega arrepios quando vai ao banheiro. O terceiro e pior câncer foi no ânus, aos treze. Muito sangue no papel higiênico. Foi a primeira vez que sentiu falta da merda. Mas Romeu é apenas mais um hipocondríaco suicida. Digamos que seja o David de Caravaggio segurando a própria cabeça ou os corvos de Van Gogh sem direção. Um palhaço com depressão, que gira do avesso e encontra o contrário.
Todos os dias Romeu busca um cenário dentro de suas criações imaginárias e muitas vezes sombrias. Ao suicidar as virtudes, consegue abrir a janela que separa o original do paralelo, e só dessa maneira vê a essência das almas mortas. Romeu nasceu dia 30 de fevereiro, quiçá arrepende-se disso.O exagero de tentar ser ímpar torna as coisas uma partida de xadrez complicada. Romeu sabe o que é, o tabuleiro estático vendo vidas capturadas, Rainhas e Reis ficando para trás e jogadores se divertindo com isso. Igualmente uma cruz no anzol sente-se uma isca da ingenuidade e só encontra tranquilidade embaixo dos pés quando deita. Vamos falar um pouquinho com ele:
– Boa noite, Romeu.
– Tamanha fúria resumida a dois longos dentes afiados. Reze para ser dentista ou um creme dental, pelo contrário, suas pernas não descansarão. É sempre um dia de fúria, as emoções saem do compasso e o menor detalhe causa estrago. Hoje sou apenas falsidade, a mesma que comprei, exijo verdade até das suas borboletas de estimação. Porcos!
– Relaxa aí. Estou lhe apresentando.
– Todos os dias analiso minhas atitudes como as revistinhas de sacanagem, mas ao contrário da minha cara relaxada e meus braços dormentes depois que folheio a revista, com minhas atitudes sou rude e me proíbo gozar. Os resultados são sempre os mesmos, apenas mudam as equações. Explorei os limites da minha essência e ativei meu poder de autodestruição, é complicado quando o pior se torna aceitável. Particularmente falando, prefiro ser um acomodado querendo ficar longe das burocracias do ser, do que um inconformado e precisar provar todo dia a sensação de estar perdido, esses só exercitam e sustentam aquilo que mais existe neles: Fé. Quantas vezes já presenciei a falta de fé involuntária, sempre por motivos superficiais. O que acho de vocês é o seguinte, são pessoas que saúdam quem mais mutilam suas vidas para depois ficarem remoendo a própria carcaça. Sentem-se exaustos, mas tudo bem, não quero ferir seus egos, seus orgulhos infiéis que os separam da realidade. São levados pela fantasia, carregados de insegurança e traídos pela bondade. São honestos demais para viverem suas vidas. Podem me achar um palhaço sem graça. Porcos! São ratos e reis encenando uma peça, sem ensaios, cheia de erros, propósitos, boas e más intenções. O POVO É COMO UMA PROSTITUTA QUE NOS DIAS DE FOLGA OCUPA-SE FODENDO DE GRAÇA!
– Já fui como você Romeu. Esse leite com conhaque está te estragando. Tire o leite.
– Chega de urinar sangue, chegou a hora de cuspir veneno e pisar em Golias e Gorilas. Aprendendo a chorar eu aprendi a sorrir, e hoje muito mais que isso, lutei com o tempo e fui esmagado ao ponto de não sentir mais o gosto salgado das lágrimas. Depois de cumprir meu dever, irei passear nas lembranças que me ajudam a recuperar os sentimentos de culpa, de ódio e de amor. Estou cansado de fugir das poucas coisas que me alegram. Ando rindo das mesmas piadas que um dia ainda quero ouvir, afastando a imortalidade em minha direção. Procuro não ser rigoroso, mas chega uma hora em que falar sozinho perde a graça. A evolução é uma arte que desconheço. Quando estou parado estou a mil por hora, sou quase um beija-flor jovem e rápido, mas com a carcaça de um urubu podre. Uma loucura interminável, um sentimento que foi guardado no silêncio das minhas decisões. Final de semana passado superei-me, dormi uma vida em 5 horas. Foi como uma roleta russa de palavras, onde a verdade mata, e a mentira preserva uma vida fraca como um suicídio. Suicídio vale a pena? Não sei, nunca sobrevivi a um, mas prefiro leite quente com conhaque. A vida não muda as perguntas, só mostra o quanto as respostas estavam equivocadas.
– Esqueça o leite Romeu.
– Gostaria de me virar do avesso e enxergar as cores do meu corpo misturado com os efeitos da minha alma formando um arco-íris preto e branco. Porque isso? Para apalpar o que destruo sem as mãos. Meu nome é Romeu, mas não se apaixonem por mim, suguem o máximo que puderem e eu serei grato por poder culpá-los das minhas culpas. Desisto. A palavra vale menos que um verme localizado em fezes humanas sangrentas no meio de uma calçada cheia de brita e buracos. Desisto. O dinheiro fede mais que uma caixa de gordura repleta de pelos caninos. Desisto. Vende-se a mãe, vende-se o pai, vende-se a honra, vende-se o intestino cheio. Muito bem, desisto de desistir, o limite nunca esteve mais próximo. Apoio. Venda o que tem de mais valioso, pise nas fezes humanas sangrentas que estão encima da sua cama, misture dinheiro com a gordura que se acumula no esgoto e engula. Sintam o prazer de perder e depois peçam minha ajuda. Mostrem-me o começo e eu acabarei com o infinito.
– Valeu Romeu. Até a próxima.
– Ainda não acab…..
Passado envelhecido ( X )
– Não gosto dos seus livros – ela afirma.
– Só escrevi um, e nem publicado foi. Você leu porque quis – eu afirmo.
– Já estou contando com esse que está escrevendo.
– Certo. Vai trepar ou não?
– Minha resposta vai definir o prosseguimento do conto?
– Não, direi que te comi de qualquer forma.
– Que sacanagem.
– Pois é, Fláv….
– Calado! Não quero meu nome nesse livro de bosta.
– Relaxa neném.
– Se pelo menos você soubesse me descrever, não me importo se usasse da paixão ou do ódio. Gostaria que minhas curvas e personalidade fossem expostas no papel com ardor ou coceira. Consegue me qualificar como Bukowski fazia com suas mulheres?
– Bukowski se deliciava nas pernas. E nós dois sabemos que suas pernas não são grande coisa.
– E não pode mentir como ele?
– Não. Nada que escrevo é mentira.
– Em seu primeiro livro não publicado a primeira frase é: “Essa é uma obra de ficção. Tudo nessas linhas são mentiras desorganizadas”. E há pouco não hesitou em afirmar que irá me comer nesse conto, sem comer.
– Ah, porra. Você enche o saco. É só mais um nome e tá aí pensando que vou arrancar sua peruca e fazer nascer cabelo.
– Você como escritor é um grande nada.
– E você como mulher é um grande homem.
– Seu primeiro romance é uma cópia mal feita e fajuta de Charles Bukowski com John Fante, por isso ninguém quer publicar.
– Sim e daí? Nunca ouviu a frase: Bons autores criam, gênios copiam?
– Nunca, e vindo de você soa trágico.
– De fato, tranqueira.
– Qual será mesmo o nome desse livro que está escrevendo?
– “Delírios com lágrimas e orgasmos”
– De onde tirou isso?
– De um caderno.
– Já ouvi isso em algum lugar. É cópia de quem?
– Não interessa.
– Vou pesquisar, tenho certeza que já ouvi.
– Puta merda, Bandini poderia muito bem ser o personagem do livro “Fome” de Knut Hamsun.
– Sim e daí? Você é uma farsa.
– Suas pernas são mais feias que as minhas. Pronto, já sei como começar: “As pernas dela eram mais feias que as minhas”.
– Está delirando, mas prossiga.
– “As pernas dela eram mais feias que as minhas”. Esse é o título, o começo, meio e fim.
– Fale um pouco das minhas nádegas.
– Vira essa bunda pra cá então, xarope.
– Assim?!
– Não. Fica em pé.
– Tudo bem. Minha bunda deitada não te inspira?
– Tua bunda deitada parece um repolho roxo.
– E agora? Melhorou?
– “As pernas dela eram mais feias que as minhas. Quando levantava e separava as nádegas com as mãos usando toda força possível, eu sentia vontade de jogar vinagre e sal pra comer o repolho roxo”.
– Nem separei as nádegas seu imbecil. Você é péssimo. Concordo fielmente com suas palavras em seu romance que nunca será publicado quando diz não passar de um dos piores escritores do mundo.
– Sim e daí? Vai embora. Cansei de você já.
– Não irei antes de terminar meu conto.
– Terminei já.
– Posso deitar?
– Faça o que quiser.
– Descreva meu rosto.
– “E o que dizer da sua face? Um legítimo repolho roxo”.
– Qual seu problema com repolho roxo?
– Sei lá, olho pra você e vejo vários.
– É sério! Adjetive meus olhos.
– “E o que dizer da sua face? Um legítimo repolho roxo. Seus olhos vivazes e alcalinos miravam exponencialmente o rogo das mais divinas alamedas secundárias da imaginação. Suas pupilas não me enganavam, eram sementes, sementes de repolho roxo.”
– Orelhas.
– “E o que dizer da sua face? Um legítimo repolho roxo. Seus olhos vivazes e alcalinos miravam exponencialmente o rogo das mais divinas alamedas secundárias da imaginação. Suas pupilas não me enganavam, eram sementes, sementes de repolho roxo. Nas orelhas um toque mágico, uma cartilagem tão suave que seus contornos pareciam algodão, algodão doce que desmancha ao primeiro toque de língua e adocica os dias de chuva. Os brincos se estendem envergonhados por tanta beleza, sequer humana…” Porra, preciso enfiar um repolho roxo aí no meio.
– Enfia então.
– “Nas orelhas um toque mágico, uma cartilagem tão suave que seus contornos pareciam repolhos roxos, repolhos roxos doces que desmancham ao primeiro toque de língua e adocicam os dias de chuva”.
– Nariz.
– “O nariz aquilino deixa em alerta meu pinto e meus ovos. E por falar nisso, minha glande é roxa, assim como os repolhos roxos”.
– Boca.
– “Sua boca brilha com o saltitar das palavras, como se minimizasse os trovões que expurga pelas cordas vocais paradoxais aos sentimentos internos brutos. Situada na esfera dos campos da perdição, avassala os corredores sonoros que temem o silêncio….” Me perdi.
– Não faz mal. Coloca teu repolho roxo aí.
– “Sua boca brilha com o saltitar das palavras, como se minimizasse os trovões que expurga pelas cordas vocais paradoxais aos sentimentos internos brutos. Situada na esfera dos campos da perdição, avassala os corredores sonoros que temem o silêncio dos repolhos roxos”.
– Não entendi nada, mas gostei.
– Eu entendi, mas não gostei.
– A solidão é minha parceira, sem ela me sinto sozinha.
– Essa frase é minha.
– Tua nada.
– Por que veio aqui?
– Sei lá, para uns beijos, uns toques, um pouco daquilo que chamam amor e eu chamo tempestade.
– Está roubando todas minhas frases.
– Não são suas. Olha só, ontem vi um amigo que se parece muito contigo. Estava mais louco que o Lobato.
– Se eu me parecesse comigo também estaria.
– Os traumas são tão constantes, que você esquece os antigos e passa a viver com os próximos.
– Já escrevi isso.
– Jamais.Você não é nada. É só um patife biltre.
– Obrigado.
– Por que sempre uma garrafa do lado?
– Porque escrever sem beber é como cagar sem cu. Falo por mim.
– Besteira. Você não é escritor.
– Porra mulher, pare de ser o chato do chato do piolho do cu do chato.
– No fim de tudo, tudo é descartável.
– Por isso acho que a vida é excepcional pra quem morre no parto.
– Minha autoestima foi embora com a masturbação.
– Não me admira. O que acha dessas três frases: “Um escritor de certa forma é um traficante. Nenhum obriga ninguém a comprar sua droga”, “Decidi que mataria todos que me incomodassem e me matei” e “Se em qualquer momento da minha vida eu depositar toda minha esperança em alguém, então podem ter certeza de que perdi a esperança”.
– Huuuummm. Porcaria.
– Tudo bem, concordo.
– Como ficou meu conto afinal?
– “As pernas dela eram mais feias que as minhas. Quando levantava e separava as nádegas com as mãos usando toda força possível, eu sentia vontade de jogar vinagre e sal pra comer o repolho roxo. E o que dizer da sua face? Um legítimo repolho roxo. Seus olhos vivazes e alcalinos miravam exponencialmente o rogo das mais divinas alamedas secundárias da imaginação. Suas pupilas não me enganavam, eram sementes, sementes de repolho roxo. Nas orelhas um toque mágico, uma cartilagem tão suave que seus contornos pareciam repolhos roxos, repolhos roxos doces que desmancham ao primeiro toque de língua e adocicam os dias de chuva. Os brincos se estendem envergonhados por tanta beleza, sequer humana. O nariz aquilino deixa em alerta meu pinto e meus ovos. E por falar nisso, minha glande é roxa, assim como os repolhos roxos. Sua boca brilha com o saltitar das palavras, como se minimizasse os trovões que expurga pelas cordas vocais paradoxais aos sentimentos internos brutos. Situada na esfera dos campos da perdição, avassala os corredores sonoros que temem o silêncio dos repolhos roxos. Comi”.
– Dessa forma medíocre termina o conto?
– Não. Termina o livro.
de um inferno ao outro
antes eu sempre sabia
quando o capiroto me espreitava.
agora vivo na dúvida: é ele
ou a debochada da minha vizinha
outra vez
de tamancos
novos?
