Passado envelhecido ( V )

Fazia uma semana que não a via, tinha sido essa minha decisão, nunca mais vê-la, tornaria Dóris um hematoma, que desaparece aos poucos, doendo cada vez menos, voltaria a escrever, só isso. Mas naquela tarde de domingo, enquanto tentava rabiscar algumas coisas no caderno, o telefone tocou, só podia ser ela:
– Alô – atendi.
– Por que não veio mais aqui em casa? E por que diabos não me ligou mais?
– Não sei.
– Não sabe? Você está sendo igualzinho meu ex-namorado que sumiu. Aliás, está sendo pior que ele, porque mora aqui, na mesma cidade, enquanto ele voou pra Portugal pelo menos.
– Olha Dóris, não sei nada do seu ex-namorado.
– Será que pode tirar essa bunda do sofá e me encontrar na gruta?
– Não quero te ver mais.
– Por que?
– Não sei.
– Preciso te dar algo. Vai lá as 18:00.
– Me dar o que?
– Vai lá.
– Ok. As 18:00 to lá.
Tirei a bunda do sofá, um grande sofá-cama, um companheiro, era nele que eu dormia, bebia, comia, escrevia. A quitinete tinha dois andares, embaixo ficava o dito sofá, a TV, um forno, uma geladeira, uma pia e o banheiro. Em cima ficava uma cama de casal, um guarda-roupas e o Eduard, que nesse dia estava com uma mulher lá, discutindo alguma coisa.
– Hei! Gritei – Tô saindo.
– Vai aonde meu querido?
– Me encontrar com Dóris.
– Precisa de ajuda?
Desci um morro íngreme de calçamento, freando os pés. O céu me olhava e ria, pela segunda vez eu repetia o caminho por Dóris, mas seria a última vez, independente das suas pernas sacanas sempre pra fora cortejando minha alma fraca. Parei no posto de gasolina e comprei seis cervejas. Olhei pro relógio da velha que me atendeu, faltavam cinco minutos pras seis.
– Me vê um maço de cigarros também – falei.
– Qual deles?
– Qualquer um.
Ela ficou pensativa, olhando pra bancada logo acima de nossas cabeças, com a mão no queixo, correndo os olhos, escolhendo o cigarro que me mataria mais rápido. Enfim retirou um e me mostrou:
– Pode ser esse?!
– Esse não – respondi.
– Então escolha um meu jovem, não sei nada dos teus vícios.
– Pode ser aquele Malboro ali – apontei com o dedo.
– Quase que escolhi esse. Errei por pouco.
– Acredito. Escolhas e mortes cada um tem as suas. Quanto deu?
– R$ 18,75
– Que horas são?
– 18:00 horas.
– Em ponto?
Ela olhou pro seu relógio, arregalou os olhos.
– Acho que falta um ou dois minutos.
– Certo.
Estendi uma nota de vinte reais, aguardei o troco e saí do posto, fazendo uma retrospectiva dos meus cinco meses com Dóris, e se resumia à discussões, injustiças, abstrações e basicamente nutrido de sexo, bebida e fragmentos gentis, um treco estranho, lindo por vezes, mas que devia chegar ao fim, antes que eu ou ela morresse de fome, ou sufocados, um pelo outro, matutando nós mesmos, os esquisitos da praça de alimentação, que não sabem o que comer, mas sabem o que cagar. Conheci-a por acaso, tinha ido até aquela festa pra encontrar outra mulher, mais feia, mas não encontrei. Dóris tinha um sorriso fácil, provocante, seus cabelos loiros estavam presos numa espécie de laço artesanal. Seus olhos verdes se sobressaiam diante de qualquer outro, eram magníficos, colossais. Usava uma blusinha azul simples, com uma calça jeans grande pras suas medidas e um tênis pobre. Me encantou pelos movimentos sutis, sabem, aquele charme que poderia hipnotizar um rato cego.
Caminhei mais um pouco, vi policiais jogando futebol, gritando como bandidos espertos, vi velhos bêbados jogando dominó, pigarreando sonhos velhos, reduzidos a um pó alegre, contagiando-se com pedrinhas numeradas, senti um pouco de inveja, vi também casais abraçados, consumindo o domingo em membros, em calor humano, na felicidade da carne compartilhada pra todo mundo ver. Eu não era feliz, nem queria ser, não daquela forma, sei lá o que queria, mas não era aquilo, e ainda não é.
Ao chegar na gruta, passei pela entrada e caminhei uns vinte metros até me sentar num banquinho de concreto. Ela iria chegar triunfante pensei, com seus cabelos soltos, espalhando reflexos amarelos, com um rebolado garboso, com toda nossa intimidade caindo dos bolsos, com a magia que toda fêmea despeja na sombra. Abri uma cerveja, o sol estava indo embora junto com ela, e junto com Dóris. Era o ponto final, e quando seu corpo minucioso atravessou o portão, senti uma pontada de tristeza, mas eu não queria fraquejar, ela tinha algo pra me dar. Caminhava em minha direção, parecia que nunca chegaria, deslizava no chão, no infinito de nossa distância. Acendi um cigarro e traguei cinquenta vezes. Suas pernas estavam cobertas com a mesma calça do dia que nos conhecemos. Uma blusinha preta segurava os peitos. Sentou-se ao meu lado, não falou nada. Cruzou as pernas, tirou seu cigarro da bolsa, acendeu, e fumava como se eu não estivesse ali. Olhou-me um pouco nos olhos, e voltou a fumar. Eu não queria estar ali. O circo é mais atraente por fora.
– Então é assim? Finalmente falou após uma baforada de fumaça.
– É assim o que? Perguntei
– Assim que acaba?
– O que você tem pra me dar?
Ergueu o tom de voz.
– Eu não entendo como você pode ser tão volátil! Há quinze dias disse que me amava, e agora some por uma semana e não quer mais me ver?
– É simples. Meu amor é volátil e a bebida já não dá conta da nossa esquisitice.
– Do que você está falando?
– Me dá logo o que tem aí que vou embora.
– Me dá uma cerveja!
Alcancei. Novamente nosso silêncio. Os carros passando, pessoas atravessando passarelas calculando o preço de suas vidas. Acendi mais um cigarro e fui mijar ao lado de um poste, que devagar iluminava nossa insensatez.
Voltei pro lado dela.
– O irmão de um ex-namorado meu se jogou dessa passarela e morreu.
– Eu sei. Já me disse.
– Você não tem colhão.
– Não.
– Seu pateta.
– Estúpida.
– Colhão de plástico.
Foi aí que começamos rir na sincronia do vento. Fui pra cima dela e dei-lhe um beijo de três minutos. Até sentir o empurrão.
– Não, não, não. Não quero mais isso. Amanhã será a mesma coisa. Você e sua inconstância. Você é complicado Ramon, muito. Você chorou dizendo que me amava pela primeira vez e uma semana depois sumiu. Chega!
– Vai à merda então.
– Vai você ridículo.
– Piranha dos infernos.
– Corno parasita.
Levantou-se do banquinho com a garrafa na mão, preparou o lançamento, fechei os olhos. Quando abri, ela tinha colocado a garrafa no chão e enfiava a mão dentro da bolsa, retirando o que queria com um olhar predador, furioso, das leoas atiçadas.
– QUER SABER O QUE TENHO AQUI PRA TI? SEU EUNUCO! VOCÊ NÃO TEM COLHÃO, NUNCA VAI TER!
Deslacrei outra cerveja e senti uma sacola batendo na minha orelha. Era preta e continha algo macio dentro. Caiu na minha frente rolando.
– O que é isso? Perguntei – São meus colhões?
– NÃO. SÃO SUAS CUECAS SUJAS QUE ESTAVAM LÁ EM CASA.
– É isso que tem pra me dar? Minhas cuecas? Não teve tempo pra lavar?
Disparou bufando em direção a saída da gruta, para sua nova vida, sem mim e minhas bebidas. Sem meu cheiro que ela tanto gostava, sem minhas cuecas. Recolhi a sacola e pude vê-la me dando a última olhada enquanto caminhava pro seu mundo sem Ramon. Juntei as cervejas, resolvi fazer um caminho mais longo pra casa. Pensava comigo “Quenga enrustida, seu sorriso fede traição manjada. Limitada como uma serpente sem língua. Tenha filhos, gatos, mortes, cães, amantes, eu não ligo pra você mais. E se disse que te amava, devia estar maluco ou bêbado, como todo mundo!”.
Agora tinha cervejas e cuecas, torcia que realmente fossem as minhas, e que eu tivesse sido o último a usar. Entrei em uma rua que não sabia o nome, mas que me levaria pra casa juntamente com outras curvas e outras ruas, pro sofá recheado de incertezas, de qualquer forma eu teria que começar escrever pra valer. Senti um certo aperto por dentro, vontade de chorar os cinco meses anteriores naqueles segundos que meus passos contavam. Dóris uma grande mulher, Dóris uma piranha, Dóris minha mulher, Dóris apenas, adeus Dóris. No relógio digital plantado como grama, com uns três metros de altura pude ver 18:33 e 20 graus. Horário e temperatura de duas mortes e dois nascimentos. Segui caminhando, contando as lixeiras, as lajotas pra cegos, pisando conforme o movimento do cavalo no xadrez. Em frente uma casa de portões fechados, um homem sentado na calçada, com os braços apoiados nos joelhos e com a cara enfiada neles. 18:36 pensei, os mesmos 20 graus e mais um homem na merda. Quando ouviu meus passos ergueu a cabeça e me olhou como se eu fosse o Messias, surgindo de uma gruta, multiplicando cervejas e cuecas.
– Hei amigão! Ele disse quando eu já tinha dado uns passos a mais de onde estava.
Virei-me e voltei três passos.
– Diga – respondi.
– Não tem um realzinho pra mim?
Busquei R$ 1,25 do troco do posto. Larguei em suas mãos.
– Obrigado – ele agradeceu – Deus te abençoe!
– Bebe? Perguntei.
– Quando tem né?!
Dei a sacola com o resto das cervejas.
– Ah! Obrigado – ele disse – Deus te abençoe!
– Usa cueca? Continuei.
– Uso, uso.
Estendi a sacolinha preta.
– Pega aqui então.
– Deus te abençoe irmão!
– Agradeça à Santa Dóris companheiro!
– Obrigado Santa Dóris, obrigado. Dóris te abençoe irmão!
– Amém.
Continuei contando lixeiras, lajotas pra cegos, andando conforme o movimento do cavalo no xadrez e cheguei em uma nova rótula, com outro relógio digital plantado, 18:42 e 19 graus, peguei a direita e prossegui. Tinha me livrado de muita coisa nesse dia. Já tinha ideias pra desenvolver um texto, alguma poesia quem sabe. Meu caderno me aguardava, fechado em cima do sofá, despreparado pra minha caneta flamejante. Passei por uma pracinha iluminada suavemente, com brinquedos abandonados. Onde estariam as crianças ou os bêbados? Atravessei a rua e voltei à praça. Sentei num balanço, me movimentei todo sem graça. A vida era isso, um vai e vem sem graça. Desejei minhas cervejas de volta, Dóris de volta em meus braços. “Foda-se rameira!”, fui pra gangorra, mas minhas pernas eram muito grandes. 1,87 de altura, uma criança barbuda sem amigos pra brincar, sem mulher pra trepar, sem álcool pra tomar. Pousei num balanço que roda parado, dei umas dez giradas e parei com aquilo. Voltei pro meu caminho, precisava de um trago.
Cheguei em casa, peguei uma garrafa de vinho e sentei no sofá, com as pernas relaxadas. Bebia no bico enquanto tentava escrever. No andar de cima começaram concordar e discordar, algo sobre músicas, filmes e fodas prediletas. O telefone tocou.
– Alô – falei.
– Oi Ramon.
– Oi Dóris.
– Tá aliviado?
– Aliviado do que?
– Por não me ter mais.
– Não sei.
– Você nunca sabe de nada. Você me ama e não sabe, você me odeia e não sabe.Vai se tornar um alcoólatra e não sabe. Um pamonha sem colhão e não sabe. O que você sabe? Me diz logo!
– Não sei de nada. Vou dormir.
– Tá com mulher aí?
– Não.
– Não são nem 20:00 horas. Você não vai dormir. Tem mulher aí né?!
– Tem.
– Quantas?
– Uma.
– Ah!! Eu sabia!! Seu veado! Me esquece!!
Desligou.

Passado envelhecido ( IV )

A noite chegou em seu compasso, sem pressa, e somente eu e o Jaimir permanecíamos afundados nas cadeiras, os outros foram aos poucos se dissipando e levando na memória uma tarde ambígua. Devia ser umas 22:00. Cedemos uma mesa para outro grupo de pessoas e mandamos vir mais duas geladas. O Jaimir estava cada vez mais engraçado, e eu cada vez mais bêbado. O barulho no bar era intenso. As mulheres eram belas, tinham um produto cada uma pra mostrar e enlouquecer. O cheiro delas atravessava a noite como as estrelas cadentes, deixando uma calda para serem seguidas e penetradas conforme desejavam. Em nosso caso, seria mais fácil um astronauta cair na mesa e pagar mais duas cervejas. Pedi pro Jaimir contar mais uma vez a história de como quebrou o dente da frente. Era impagável sua atuação, eu ria e desabava na mesa, pra que ser escritor se em algum momento do trabalho todos corrompem seus prazeres? Era bem mais fácil beber e ver a dramatização daquela história.
Foi então que ela apareceu, era loira, cabelos curtos envoltos em uma touca preta, com um shorts jeans, blusinha branca apertada, com peitos procurando uma forma de se sentirem livres, usava chinelos de dedo, pés pequenos. Suas pernas eram compridas e contornadas pela luxúria, uma calda bem ao nosso lado, alterada, seu olhar era vago e atravessava as outras mesas colocadas na calçada, a rua, um prédio, a escuridão e o barulho. Parada ao nosso lado com as mãos na cintura parecia tentar compreender alguma coisa. Uns minutos antes, ao ir até banheiro, percebi ela cheirando cocaína em uma mesa no fundo do bar, bem escondida.
Tentei chamá-la quando a vi ali, mas nem ouviu. Foi Jaimir que chamou sua atenção com um movimento de braço. Que olhar insano, rompeu a velocidade do som como se dissesse “Eu acabo com você desdentado”. Ele recuou.
– Hei gata, sente-se aqui conosco – falei.
Arrastei uma cadeira e fiz sinal com a mão. Por alguma razão tinha certeza que ela sentaria, eu não era feio, só tinha um pau três milímetros abaixo da média nacional e vestia um uniforme de trabalho honesto, e felizmente, a informação sobre o pau podia guardar pra uma surpresinha doravante. Ela ficou um pouco aturdida com a situação, olhou pra cadeira, olhou pra mim, pro Jaimir e pra cadeira. Não falou nada, apenas sentou.
– Tudo bem? Continuei.
As palavras simplesmente não saíam por ela, pareciam presas. A boca insistia em não abrir. Ela me olhava somente nos olhos, eu alternava entre seus peitos e seus olhos. Finalmente sussurrou:
– Quem é você?
– Sou Ramon e ele se chama Jaimir. E você?
– Glória.
– Oi Glória, que tal irmos pra um motel nós três? Disse ele, querendo terceirizar um sexo.
Não era de meu feitio largar uma dessas logo de cara pra uma mulher que aparentava loucura internada e enclausurada. É bom conversar com elas, vê-las perdendo-se totalmente nas linhas de raciocínio, mas nunca perdendo a energia que resta. Embora eu também logo estaria embalando frases perdidas e sem nexo. Novamente ela lançou um olhar que o colocou no lugar.
– Você é muito bonito Ramon – ela disse.
– Bom Glória, já que começou uma conversa sincera, meu pau é três milímetros abaixo da média nacional.
– O meu é maior que a média.
– Mas eu tenho todos os dentes Glória, todos amarelados, veja.
Mostrei-lhe os dentes e depois olhei pro Jaimir e disparei:
– Dá um sorriso aí africano.
– Vai-te a merda – me respondeu.
– Então Glória – falei – você tem um pouco de pó no nariz. Andou fazendo bolo?
Esfregou sua mão inúmeras vezes nas narinas, um pouco assustada.
– Não, não, estava cheirando cocaína lá perto do banheiro. Saiu o pó?
– Deixe-me ver mais de perto.
Encostei meu nariz em seu pescoço, ela tremeu um pouco com o choque de temperaturas corporais, ela gelada, eu fervendo. Dei-lhe um beijo de leve no pescoço, queria poder ver sua cara nessa hora, queria poder ver sua buceta reagindo aos meus impulsos disparados com o toque, aquela buceta viciada sentindo meu corpo alcóolico transmitindo uma mensagem de sustentação. Não tinha pó, não tinha cheiro, era pele somente, pele e descontrole. Me afastei aos poucos.
– Saiu sim Glória – falei.
– Vou pegar uma cerveja pra gente – ela disse e levantou-se.
O Jaimir firmou um olhar em mim enquanto acendia um cigarro.
– O que foi? Perguntei.
– Quer ver se tenho pó no nariz também?
– Tu tem pó nesse buraco do dente.
– Filho da puta. Por que falou isso? De onde ela sentou nem daria pra ver. Três milímetros abaixo da média? Brasileira ou japonesa?
– Três milímetros pra te enfiar no rabo. Agora vê se cala a boca e esconde esse buraco.
– Acredita que ela vai voltar? Tu espantou a mulher com esse bafo cozido e esse cheiro de asa que dá pra sentir daqui.
– Essas mulheres se alimentam disso. Por Deus Jaimir, ela sentou ao lado de dois uniformizados. Acha que ela esperava um cheirinho de hortelã? Ela sabe que queremos fodê-la, nós dois, então pare de falar coisas óbvias ou vai pra casa.
– Ela disse que ia trazer cerveja, ficarei aqui.
Passou-se uns quinze minutos até ela voltar com uma cerveja. Seu olhar tinha mudado, estava alegre. Pela primeira vez a vimos sorrindo, e nem sabíamos o porquê, até ela falar.
– Voltei rapazes. Consegui essa cerveja e uma buchinha de pó tocando uma punhetinha no banheiro.
– Que maravilha – falei – pode deixar que me sirvo.
– Me serve também – disse o Jaimir.
– Eu lavei as mãos seus bobos. E o cara nem conseguiu gozar.
– Tu tá valorizada no mercado Glória. Ofereci R$ 3,00 por uma punheta tempinho atrás.
– Haha – ela riu.
– Glória –disse o Jaimir – o que você faz da vida?
– Nada demais e você?
– Trabalho com esse infeliz.
– Um infeliz com trinta e dois dentes na boca – falei.
Alguns outros caras começaram a passear ao redor da nossa mesa, a maioria com mais de quarenta anos e sedentos por um encontrinho no banheiro. Mas ela nem ligava, tinha gostado de nossa companhia e aparentemente uma bucha e uma cerveja já estava bom.
Arranquei sua touca pra ver como ficava sem. Uma touca quente com cabelos curtos grudados. Ela pirou com minha atitude, e eu ria das suas investidas sem sucesso de recuperá-la e colocá-la na cabeça novamente.
– Me dá aqui Ramon!
Lancei pro Jaimir, que logo me devolveu. Ficou furiosa e se atracou em cima de mim pra finalmente recuperar e alçá-la sobre seus outros cabelos curtos e amarelos.
– Escutem aqui, mais uma dessas e eu sumo dessa mesa.
– Relaxa Glória, você fica bonita sem ela – falei.
– Não quero ficar bonita.
– É. Eu e o Jaimir também não. Até acho que ele ficaria mais bonito com essa toca na boca.
– E tu ficaria mais bonito com essa toca no cu – ele me disse.
– Por que não colocamos ela no meu cu e depois na tua boca? Dois homens ligeiramente bonitos!
– Hahaha – ela ria – vocês me matam de rir.
Pegamos mais duas cervejas. A noite estava boa de vivê-la, aquela mulher tinha impedido nossa ida embora. Teria que surrupiar cigarros nos próximos dias pra compensar os gastos no bar, mas Glória não deixava Ramon e nem Jaimir voltar para o consolo de seus colchões e dormir como coadjuvantes de mais uma sexta-feira. Os homens sedentos por punheta também não iriam embora antes que nós. O bar flamejava crendices, como um barulho oco de vozes atracadas na solidão.
Coloquei minha mão em sua coxa esquerda enquanto a ouvia falar da sua tentativa de reabilitação, há dois meses. Havia raspado o cabelo uns dias após sair da clínica.
– Vou ao banheiro, já volto – disse ela sorrindo.
Foi. Nem olhei pra ver se era seguida.
– Hei Jaimir – falei – vai pra casa.
– Vou sim, pra casa dela. Se ela sentou aqui foi por minha causa. Então tira esse rabo loiro da cadeira e se suma.
– Então vamos nós três pra tua casa que é mais perto.
– Não dá. Minha mãe e meu padrasto estão lá, e só Deus sabe o que fariam se me vissem chegando com vocês.
– Então vamos pra minha.
– Muito longe.
– Então vai pra casa.
– Vamos pra casa dela então.
– Pode ser.
Ela voltou com mais uma cerveja e sorrindo.
– Posso servi-los?
– Pode – falei – acho que ninguém goza por aqui. Escuta Glória, por que não vamos beber em outro lugar?
– Não sairei daqui tão cedo hoje – ela respondeu.
– Nem eu – disse o Jaimir.
– Vai ficar fazendo o que aqui Jaimir? Batendo punheta por cerveja? Pode até conseguir um dente fazendo isso – falei.
– Ou posso arrancar um teu com um soco.
– Vocês dois, se acalmem. Jaimir, deixe-me ver esse dente que o Ramon não para de falar.
Ele ergueu uma parte do lábio superior com ela chegando perto pra ver.
– Aaaahh! Que bonitinho! Ficou um charme isso aí.
– Pois é, o charme está na ausência – completou ele.
– Me digam, quantos anos vocês têm rapazes?
– Vinte e nove.
– Vinte e seis Glória, e você?
– Trinta e um.
Permanecemos nessa, bebendo, fumando e trocando de assuntos na maior parte do tempo.
Depois de umas duas horas e não sei mais quantas punhetas o Jaimir decidiu abandonar o barco e me deixar sozinho com ela. Deu-me uma piscadinha, seu aval de que tínhamos lutado juntos, mas não aguentava mais beber e ouvir tanta maluquice. Também estava no meu limite, mais uns dez minutos e eu que daria uma piscadinha pra ele, a piscadinha da derrota e consolo do colchão vazio. O bar ainda continuava movimentado, e praticamente nenhum quarentão rondava nossa mesa mais. Ela sofria por questões que só mais tarde fui entender.
– Hei Glória, por que não atravessamos essa rua e vamos sentar lá naquele gramado?
– Por quê?
– Quero pegar nesses peitos e chupá-los.
– Tem dinheiro pra uma bucha de pó e uma cerveja?
– Não.
– Então vai lá que vou conseguir isso pra gente, já vou lá.
Apesar de tudo ela tentava aparentar normalidade, tinha gostado de mim. Talvez pensasse que um homem vestindo uniforme de trabalho não seria capaz de interessar-se por ela.

Passado envelhecido ( III )

Comecei a ler o livro enquanto andava sob as luzes dos postes, já tinha me habituado ao caminho, pisava sem olhar, atravessava ruas sem olhar. Estava relendo a primeira página pela décima ou mais vezes, quando ouvi uma mulher no orelhão ao lado do mercado esbravejando coisas: “Você me fez vir até aqui e não quer mais? Você com certeza é o maior idiota do bairro! O maior idiota da cidade! O maior idiota do Brasil! O maior idiota do seu cu! Filho da puta!”.
Só conseguia ver suas pernas se balançando enquanto xingava um possível clone meu. As ruas estavam infestadas de Ramon’s e todos eles eram iguais, sabiam exatamente como deixar uma mulher furiosa. Parei um pouco na luz de um poste e fingi ler enquanto continuava ouvindo, ela cada vez mais doida: “O quê? Sua mulher vai chegar daqui a pouco? Por que me ligou então? Vou aí foder ela na tua frente!…Chamar a polícia? Eu fodo eles também! Na tua frente!…E como fica o ônibus que peguei para chegar até aqui?…Você não sabe?…”
Tentei ler de verdade, mas sem sair dali, suas pernas eram curtas. Volta e meia olhava-a dando pulinhos, endiabrada. Sua voz rebatia naquele orelhão e se expandia mundo afora. Era engraçado. Todos mereciam estar ali no meu lugar. Eu somente ria dos seus pulinhos. O mercado já estava fechado. Pegar um ônibus pra vir foder deixaria qualquer mulher maluca mesmo, principalmente se não tivesse dinheiro pra voltar. Por fim ela desligou e eu finalmente consegui engatar a segunda frase mais uma vez.
A princípio ela não me viu e ficou olhando pro céu, parecia procurar uma corda. Parei de ler e analisei o que o Ramon 2 havia refugado em cima da hora. Ela realmente era curta. Seu vestuário beirava o colapso. A parte de cima era toda preta, e salientavam umas tetas curtas também. Usava botas até perto do joelho, o que a encurtava mais ainda. Era um pôneizinho prostituto. Foi então que me viu investigando o que Ramon 2 outrora queria, e falou de onde estava mesmo:
– Hei leitor, quer transar por R$ 50,00?
– Prefiro ler. E não tenho R$ 50,00 – respondi.
– Quanto você tem?
Atravessei a rua e fui ao seu encontro. Ela ia diminuindo a cada passo meu. Ramon 2 era a melhor cópia do original. Não sabia o que fazia mesmo.
– Tenho R$ 20,00 reais aqui – falei – mas se eu gastar tudo amanhã não tenho dinheiro pra fumar.
– Quantos cigarros você fuma por dia?
– Depende. Durante a semana em torno de trinta por dia. Final de semana que é dureza.
Ela abriu uma bolsinha curta também, que eu mal tinha percebido. Arrancou um maço de cigarros, fez uma contagem breve e disse que tinha sete cigarros.
– Pois é – eu disse – é pouco.
– Qual seu nome?
– Ramon e o seu?
– Gabriela.
– Onde você mora Gabriela?
– Nem queira saber. Por favor cara, vamos dar uma por R$ 20,00. Olha pra mim, “valo” muito mais que isso.
Virou sua bunda curta, deu uma mexida para me animar. Não me convenceu.
– O que você acha do seguinte Gabriela. Te dou R$ 14,00 pela foda e você me dá os sete cigarros.
– Não. R$ 20,00 é meu preço mínimo.
– Humm…Beleza, vamos trepar. Mas antes me dá esses sete cigarros.
– Posso fumar um?
– Ah Deus. Fica com esses cigarros aí. Vamos lá pra casa.
Fomos conversando pelo beco, me disse sobre o “bolo” que havia tomado e mais alguma coisa sobre amor próprio, nem liguei.
– O que você está lendo Ramon?
– As mesmas frases há meia hora.
– Posso ler um pouco?
– Claro.
Entreguei-lhe o livro. Deu uma olhada na capa. Olhos curtos, boca curta, nariz curto, cabelos longos. Um cheiro formidável diga-se de passagem.
– Nunca li esse Ramon. É sobre o que?
– Me disseram que esse livro é incrível. E pelo que li até agora, parece que alguém morreu e cava valetas.
– Você me parece um pouco bêbado.
– Verdade. Você literalmente é meia puta.
– Como assim meia puta? Sou puta por completo. Desde os meus vinte anos.
– A é?! Também fico um pouco bêbado desde os vinte.
– Quantos anos você tem?
– Vinte e seis, e você?
– Vinte e oito.
– Ainda é uma carreira curta não acha?
– Oito anos já. Quando chegar aos trinta vou parar, quero entrar na universidade. Você mora muito longe?
Entramos pelo portão, passamos por algumas janelas com as luzes acesas, mas acho que ninguém viu ninguém. Abri a porta, fui direto pro quarto. Ela foi ao banheiro. Tinha tudo pra ser uma foda curta, mas pensava comigo que qualquer buceta do mundo valia pelo menos R$ 20,00. Ela saiu do banheiro me perguntando há quanto tempo morava por aqui.
– Quase um mês – respondi.
– O banheiro tá triste – entrando no quarto. O que é aquele limo negro nas paredes? E por que tanto cabelo e fiapos de barba espalhados por lá?
– O limo já estava aí quando cheguei. O resto é meu.
Sentou-se na outra extremidade do colchão, bem longe de mim.
– Não posso trepar por R$ 20,00 Ramon. Me desculpe. É aquela coisa de amor próprio que te falei sabe?! Não é por você. É comigo, não me sinto bem assim.
– Quer R$ 20,00 pra limpar o banheiro? Perguntei.
– Nem pensar.
– Tudo bem Gabriela. Aceita uma bebida?
– Não bebo Ramon.
– Ok. Quer dormir por aqui hoje?
– Algum problema pra você?
– Não. Você é bem pequena. Cabemos os dois facilmente nesse colchão.
– Pode ser. Você tem muitos livros. Já leu todos?
– Nem a metade.
– Posso ler algum?
– Pode. Vou tentar escrever algo aqui enquanto lê.
– Você escreve também?
– Não muito bem. Mas é o que tenho pra fazer agora.
– Qual livro me sugere pra começar?
Passei um de histórias curtas. O que mais poderia combinar com ela? Pela primeira vez minha nova moradia recebia uma prostituta, e ela não fodia por amor próprio. Nem limpava banheiros. Ramon 2 era mais esperto que o original. Se qualquer buceta do mundo valeria pelo menos R$ 20,00, meu pau não valia nem isso. Nem Ramon inteiro valia R$ 20,00, muito menos o banheiro dele. Passou uns dez minutos até voltarmos a conversar. Eu fingia que escrevia, ela fingia que lia.
– Posso te dar uma chupada por R$ 20,00 – ela disse.
Simples assim, todo o amor próprio era negociável.
– Te dou três por uma punheta – retruquei.
– Três não paga um ônibus pra voltar pra casa.
– Deixa pra lá.
– R$ 10,00 por uma boa punheta então.
– Uma boa punheta eu posso tocar de graça. Quero uma ruim mesmo por R$ 3,00.
– Última proposta. Te chupo por R$ 10,00.
– Chupa aqui então.
Veio com sua língua curta e engatou meu pau curto. Chupava muito bem. Eu afundava sua cabeça curta pegando em seus cabelos longos. Qualquer boquete valeria R$ 10,00. Pra não gozar logo e fazer valer todos os trocados, comecei pensar que Gabriela preferia chupar um pau a limpar meio banheiro, e que se eu tivesse só meio pau, talvez economizasse R$ 5,00. E se eu tivesse meio pau e ela só pagasse meio boquete, então seria de graça. Estava bêbado e seriamente transtornado pra ter essas conclusões. Subitamente percebi que ela estava realmente gostando de chupar. Lambia por toda circunferência. Oito anos naquilo haviam lhe feito muito bem. Então pra finalizar a linha de raciocínio mágica, pensei que se eu tivesse meio pau, ela pagasse meio boquete e só usasse metade da língua, então ela ficaria me devendo R$ 5,00. A melhor mente do bairro sem sombra de dúvidas. Levantei sua cabeça, babava toda excitada.
– Vamos foder de graça – falei.
– Não fodo de graça – ela retrucou.
– Então por R$ 20,00 e foda-se seu amor próprio.
Tirou todas suas curtas roupas, deu uma guinada no traseiro e sentou pra valer. Que mamilos curtos! Pentelhos curtos! Nunca tinha visto uma mulher tão curta. Fodia muito bem, mas eu também, até melhor que ela, era a bebida, quando não te derruba e luta ao seu lado é possível ser incrível. Seu gemido? Adivinhem, curtinho. Ela estava adorando tudo aquilo. Eu estava lhe dando uma foda de R$ 100,00 mais encargos. Estreando o colchão, o quarto e a casa com uma bela performance. Isso soava maravilhosamente bem. Pulinhos curtos e firmes, a cada sentada uma moeda.
– Me fode Ramon, fode essa buceta de vinte pila.
– To contigo mulher, to contigo.
Acabou gozando primeiro, uns cinco minutos depois foi minha vez. Acendi um cigarro e valeu cada centavo.
– Ainda posso dormir aqui? Ela perguntou pelada.
– Claro.
– Pode me pagar agora?
– Tem troco pra R$ 50,00?
Ela riu. Dei-lhe R$ 20,00, terminei de fumar e me virei pra dormir. Ela? Um Hilton curto antes de deitar-se.

Passado envelhecido ( II )

Por baixo da porta dava pra ver a luz acesa
Escutei algum barulho e passos
Destrancou e abriu
Voou em meu pescoço, dando um abraço sufocante
– Que bom que você veio – sussurrou em meu ouvido
– Te avisei que vinha
– Eu sei. Mas que bom que você veio
Puxou-me para dentro e trancou a porta novamente
– O que aconteceu? Perguntei
– Nada
– Tava chorando por quê?
– Por nada
– Ok. Também bebo por nada
Sentamos no sofá da sala, então pude ver um inicio de arranhão na coxa esquerda
– O que é isso? Indaguei
– Nada
– Porra! Vai parar de charadas?
– Não foi nada! Só surtei e me arranhei
Ergui a saia que vestia. As duas coxas marcadas, como uma briga de gatos
– Ei Dóris, você tem que ir devagar com isso
– Por que só não me come com força e cala boca?
– Porque vou abrir uma cerveja
Sentou em meu colo
– Que bom que você veio aqui – repetiu
– E que bom que você veio aqui
Brincou um pouco com meus pelos do peito.
– Ta pensando em que? Perguntou.
– Em nada.
– Me fala.
– Em nada, e você?
– Te amo tanto.
– Claro que ama.
Em outra noite, Dóris se largou a chorar na cama enquanto eu bebia vinho ao seu lado. Deixei chorar e soluçar. Botou a cara no travesseiro, soltando sons abafados de um choro cada vez mais assustador.
– O que deu com o tomate agora? Perguntei sem querer resposta.
– Você não presta! Cala a boca!
– Não presto e me calarei.
Fitou-me com os olhos verdes e vermelhos, o que significava que era linda e louca.
– Eu lembro Ramon, você não lembra mas eu lembro. No bar de sinuca na segunda semana depois que nos conhecemos vi você olhando pra duas mulheres lá dentro, como se fosse um adolescente tarado. Me deixou de lado por elas. Você não presta e nunca vai prestar.
– Olha só Dóris, não lembro disso.
Virou pro lado, chorou mais e dormiu. Aguardei pra ter a certeza que não era fingimento, deixei um restinho de vinho ao lado da cama, peguei meu calçado que pegava um ar fora da janela da sala e me mandei.
Passado mais um mês, decidi sumir de Dóris sem falar nada, fugir e voltar a escrever.
A vida é tão cheia de contrariedades. É como terminar um relacionamento dizendo: “Eu não sei se consigo viver sem você, mas tenho certeza que não vivo com”

definições de última hora

“você foi uma das piores coisas
que já me aconteceu
você é horrível
demoníaco
espero que você morra
quero te ver em um caixão
espero que não demore
você é a primeira pessoa
que eu realmente tenho vontade
de matar
foi um erro ter te conhecido
seu maluco de merda
foda-se
foda-se
filho da puta
você é a porra de um louco
doentio
sociopata de merda
nunca mais quero te ver
nunca mais quero saber
de você
boa sorte na sua solidão
foda-se também
morra nela
vai se ferrar do fundo
da minha alma
você é realmente
horrível..”

depois de estimada carta
pensei em escrever algo
a respeito, mas acabei desistindo
assim, contentem-se
com mais uma opinião alheia
mesmo que não queira
dizer porra nenhuma
ou tudo – o diabo
que o seja.