tenho voltado sempre para o mesmo bar.
a cadeira não é das melhores
mas posso fumar onde quer que eu pare
e o garçom já me reconhece
e traz a mais barata e mais gelada
sem eu precisar pedir.
o que mais eu poderia desejar
de um bar? de uma noite?
de um dia inteiro? de alguém?
de alguém que não sabe quem sou?
palmas? não preciso disso
além do que, não gosto de barulho
embora peide alto e cada dia mais
mas é a vida.. você bebe, você dorme
você acorda, você arrota
e você peida.. tão sagrado
quanto Darwin na Cruz
suspensa.. além disso
e talvez o principal, aqui
embora eu venha todos os dias
já tem anos, ninguém me conhece.
aqui ninguém me vê
aqui não preciso ouvir ou falar
eu apenas sento e bebo e fumo até
me perder.. e quando consigo
ignorar o que não importa
eu acabo conseguindo
me entregar ao fogo
e ao menos queimar em paz
por algumas horas.. e por um momento
é como se tudo mais virasse cinzas
e eu pudesse simplesmente
soprar tudo para longe
feito à fumaça que exala
do meu corpo,
agora.
enquanto ela mija
eu ligo o aquecedor
e acendo o salvador
e tranco as portas
e janelas, e só ficamos
eu e ela, e essa coisa
transcendental que existe
entre nós, e que ainda não sei
como explicar, ao menos
não agora, por ora
preciso ir porque
ela já está voltando
do banheiro, e vem
pelada e quente
como sempre.
Falso prognóstico
Minha família veio me visitar ano passado
Aqui, impróprio
Meu hospício particular
Em poucas horas minha mãe lavava a louça
Chorando
Meu pai sentado do lado de fora
No piso, praticamente três dias inteiros
Quieto, estático
Respirando em marcha lenta
Vangloriando o vazio de uma visão vazia
Sem esperança alguma de que as coisas pudessem piorar
E eu, novamente personagem de uma fábula de Freud
Fui pro bar
Quando voltei já dormiam apertados no chão do quarto
Minha mãe parecia um anjo um tanto sem asas
Linda
Meu pai não parecia nada
O ventilador barulhento não vencia o calor de janeiro
Deitei sobre um cobertor no único espaço da cozinha
Senti vergonha até dormir
No sábado fomos à praia
Pouca gente, mar calmo
Dois vendedores de queijo trocando socos
Compramos um pastel cada um
O velho logo entrou na água pra não sair mais
Minha mãe aguentou cinco minutos
Saiu tremendo de frio
Convidei-a para uma caminhada sobre as rochas
A praia, uma necessidade
Quanto a de amamentar gafanhotos
As pedras fediam urina quente e dolorosa
Caminhamos por um bom tempo
Fumei alguns cigarros
Bebi umas latas de cerveja
Eu Mersault, atrás do árabe que vendia churros
Meu pai finalmente decidiu sair da água
Voltamos pra casa
Enquanto minha mãe começava a janta
Meu pai se sentava no piso
Em marcha lenta
Peguei a toalha de banho
Fechei a porta do banheiro e me masturbei
roedores
“ratos passam por mim
sem nenhum sinal de medo
alguns vermelhos outros
negros, alguns assoviando
outros cagando
pra mim.. um rato,
talvez o mais gordo
entre todos os outros
espia o vento correr
as suas costas e o inveja
assim, tão magrinho
e veloz, e ainda
assoviando
alto..”
é o que percebo
agora, roendo
meu queijo.
♣
Um dia, quem sabe
Sento ao seu lado no coletivo
Tinha outras poltronas livres
Mas escolho essa
Quero o cheiro do banho matutino
E seu desagrado e desconforto
Baunilha e chocolate
O céu em choque
Quem sabe nunca será dia
Ela resgatará o ex do crack
E engravidará do chefe de polícia
Que colocou seu namorado no seguro
Na cadeia de outra cidade
Desço antes que todos na parada
O jardineiro, boa pessoa
Contorna as fezes duras
Com o cortador de grama
Fazendo uma bela escultura
De um autor sem espécie
Mais tarde irá tentar sacar a grana
Bloqueará o cartão
Pensando que sua senha, era o dia de seu casamento
E na verdade é, mas a data outra
Passo em frente a biblioteca
Fechada
Inúmeras cabeças coloridas aguardam
O ranger da fechadura
A funcionária não sabe ler
Mas decorou o desenho das 48 chaves
Teve uma noite péssima
O personagem favorito morreu na novela
O pianista, que no capítulo anterior
Dedicou sua música
Para o deficiente paraolímpico
A noite não foi péssima por isso
Não dormiu direito
Porque a marmita do outro dia
Aumentaria R$ 0,50
Um dia, quem sabe
Quem sabe um dia
Eu descreva realmente
Como são minhas manhãs
Das 7:53
Até 8:14
grato, Srta. D.
você conseguiu.
me mostrou que por baixo
desta crosta de cigarros e garrafas
vazias, ainda existe algo.
algo que vale a pena
ser mantido longe do lixo
algo que ainda segura
algumas das marcas humanas
algo vivo, em meio aos destroços
deste acidente
que sou.
0:00
O ranger do telhado
Tudo está escuro
Ruidos de uma tempestade medieval
O menino está dando voltas
A menina tenta dar a luz
Assoviam os pregos
Flores despedaçadas
Sem bem me quer
Mal me quer
Mal queremos
Mal querem-nos
Mal sei do que estou falando
Goteiras ácidas queimando lâmpadas
Tremores, odores
Passos e vozes
Mais um dia calcificado
Em raízes amargas
Na boca uma simples gota
Arrancada pelo vento
O que assusta é o barulho da sujeira
Criando seu próprio caminho
O menino canta
A menina encanta
Tudo está escuro
Zelo ao encher o copo
O estrondo do portão sem fechadura continua alto
Resmungos e fungos
Fundos
Sincronizados pela emoção
Amanhã será melhor
Amanhã será o que for
Amanhã será o que há
Amanha será um dia
Que mal espero roer
tesão
eu respiro buceta
principalmente
quando fico
sem,
arrr
Vinho
Três garrafas de campo largo seco
E minha língua geométrica parece um tratado
Já fui melhor quando bebia cinco
Sem um mapa do tesouro
Permaneço como a água da chuva
Sempre pra baixo ou escorrendo
Pra baixo
A peneira de corpos sempre vazia
O funil de corpos largo demais
Insetos estranhos sob goteiras
Tortos como a sombra de um porco
Estarão mortos amanhã
Cadáveres entre as cinzas
De uma noite chuvosa
Que nunca acaba
Não-gostar
O não-gostar é libido
É um caos controlável
É existir na existência, dever aos deuses
É a controvérsia do amor casual, que mal nos acostuma
Tem mais prestígio que um homem limpando a bunda na certidão de nascimento para mudar o nome
Torna-se raivoso, tão pouco contagioso e vingativo
Partiremos daqui logo, deixando sabonetes e talco nos sapatos
Partilhando mais chulé do que paixão
Combinando mais roupas que olhares
Morre-se de preto, desbota-se o corpo
Colam-se os olhos, a boca, as narinas e as pregas
O estilo fica pálido aos que olham para as flores que compraram
Nada tenho pra chorar, nem uma caixa d’agua
As pessoas boas racham lenha a vida toda e queimam
Seus pudores não são vaidosos e desrespeitosos
O não-gostar é instintivo e prematuro
E para que isso acabe, apagam-se algumas velas
Tornando as noites vagas e perfeitas
