Falso prognóstico

Minha família veio me visitar ano passado
Aqui, impróprio
Meu hospício particular
Em poucas horas minha mãe lavava a louça
Chorando
Meu pai sentado do lado de fora
No piso, praticamente três dias inteiros
Quieto, estático
Respirando em marcha lenta
Vangloriando o vazio de uma visão vazia
Sem esperança alguma de que as coisas pudessem piorar
E eu, novamente personagem de uma fábula de Freud
Fui pro bar
Quando voltei já dormiam apertados no chão do quarto
Minha mãe parecia um anjo um tanto sem asas
Linda
Meu pai não parecia nada
O ventilador barulhento não vencia o calor de janeiro
Deitei sobre um cobertor no único espaço da cozinha
Senti vergonha até dormir
No sábado fomos à praia
Pouca gente, mar calmo
Dois vendedores de queijo trocando socos
Compramos um pastel cada um
O velho logo entrou na água pra não sair mais
Minha mãe aguentou cinco minutos
Saiu tremendo de frio
Convidei-a para uma caminhada sobre as rochas
A praia, uma necessidade
Quanto a de amamentar gafanhotos
As pedras fediam urina quente e dolorosa
Caminhamos por um bom tempo
Fumei alguns cigarros
Bebi umas latas de cerveja
Eu Mersault, atrás do árabe que vendia churros
Meu pai finalmente decidiu sair da água
Voltamos pra casa
Enquanto minha mãe começava a janta
Meu pai se sentava no piso
Em marcha lenta
Peguei a toalha de banho
Fechei a porta do banheiro e me masturbei

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