realidade

sonhei que estava sendo preso;
suspeita de assassinato.
uma grande e desorganizada trama
desenrolava-se, devorando-me
contudo
sentia que dela
eu me livraria
mas não tão cedo
quando percebi que
o que mais importava
acima dos vivos e dos mortos
dos suspeitos ou culpados
era o exame toxicológico.
aquilo me pegou pelas bolas
e me deixou sem ar
antes mesmo de,
horas depois,
o policial me revistar e encontrar
dois simples baques
em meu bolso.

eu sabia que seria marcado
sabia que todas as drogas freneticamente
circulavam em minhas veias
sabia que elas
e não os assassinos
ou mesmo os assassinatos
resolveriam tudo – e isso porque
antes de dormir
novamente
conversei com Jung.

Cada

Conheci um cadáver
Que tentava grudar carne podre com fita crepe
Nos dias mais quentes do ano
Era possível vê-lo com todos aqueles pedaços de fita úmidos e sujos
Semi ou quase totalmente rasgados, amarelados, esverdeados, azuis também
Segurando uma porção de pele, falanges, lóbulos, etc
Como fedia o pobre diabo a partir dos 50 graus
Na segunda semana de agosto encontrei-o dando comida aos pombos elétricos
Pensei em seguir adiante, pois o relógio digital marcava 67 graus
Pelo que diziam os meteorologistas, era um fenômeno raro aquela temperatura
Tinha ouvido isso no rádio, no intervalo entre as músicas:
“Barbarella” e “Deshacer el mundo”
Inclusive, fazia oito anos que não ligava o rádio
Tinha perdido o T
A voz do locutor me fez lembrar o primeiro arroto que ouvi de mamãe
Assustadora no começo, mas confortável e confortante com o tempo
Vesti minhas duas blusas de lã para garantir, estava saindo de um resfriado
Comi um figo e fui passear
Baixei a cabeça quando percebi o “Cada” jogando pilhas ao redor das margaridas
“Ei Bili!” ele gritou ao me ver
Bili sempre foi meu apelido por conta da semelhança física com “Billy Cativo”
O último jogador de Damas ainda vivo
A cidade inteira me conhecia por Bili, menos papai
Para papai era ainda, somente e para sempre Jonas Bello
“Cada! Alguma novidade?”
“Estou com três fitas novas!” Ele disse erguendo uma mão e as duas sobrancelhas
“Está melhor que um fantoche” respondi.
“O que é um fantoche?”
“É um boneco leproso”
“Bili, venha aqui perto”
“Para?”
“Quero desabafar”
“Desabafe daí”
“ESTOU PREOCUPADO COM MINHAS BOLAS!”
“Não se preocupe e não grite”
“Acha que a fita crepe é capaz de suspender minhas bolas?”
“Se não pesarem meio quilo cada uma acredito que sim”
“Estou pensando em por uma na ponta do nariz e a outra na testa”
“Boa ideia. Por que não tenta a fita dupla face?”
“Sou alérgico”
“E a fita dupla face orgânica, sem glúten e sem conservantes?”
“Diabetes”
“Venda as bolas, oras”
“Quer comprar?”
“Quanto cada uma?”
“Cem cruzeiros”
“Jogue-as aqui, quero ver”
“Mas não soltaram ainda Bili. Estou me precavendo”
“Não deve ser tão difícil arrancar uma. Falando nisso, lembrei que preciso de um tornozelo”
“Meus tornozelos estão ótimos, não quero vendê-los”
“Parei aqui por sua causa, vamos negociar!”
“Tenho esse cotovelo que a fita crepe não segura mais”
“Cotovelos são difíceis de revender. Em que ano acha que estamos? Qualquer um nasce com um cotovelo extra hoje”
“Um rim?”
“Um rim? Tá brincando comigo??”
“Porra Bili, me ajuda”
“Teu umbigo é pra dentro ou pra fora?”
“Era pra dentro, agora já caiu, mas a fita ainda segura”
“E quer que eu te ajude? Como estão os mamilos?”
“Pendurados”
“Me venda um câncer então!!!!”
“Uooooooooooouuuuu Bili, jamais. Quem tem não vende, sabe disso.”
“Monopolizaram o negócio seu fedido”
“Ninguém mandou vender os seus antes da crise”
“Eu precisava comer, e os meus não tinham proteínas mesmo”
“Como está sua  mãe Bili?”
“Quase nova, saiu da oficina ontem”
“E seu pai ainda caçando corvos albinos de bicos quadrados?”
“Não é época ainda, só aparecem por aqui no mês 23”
“Quero ven….”
A língua dele caiu
“COMPRO ELA” Gritei
Mostrou-me o dedo do meio da mão direita
Empacotado de fita crepe suja
“O que significa isso?”
Ele grunhiu algo e logo o dedo caiu também
Ajuntou ambos, pôs no bolso
Saiu devagar, caminhando
Precisava de mais fitas

O estrago

Por favor, leia sem rir
Pense em minha seriedade ao descrever os fatos
Esqueça que sou um desabrigado com teto
Caindo com calma e alma
Não leve em conta meus vícios
Principalmente os de linguagem
Acredite que qualquer um reagiria da mesma forma
Lembre-se que a fogueira termina onde começa
E que o fogo só aquece os próximos
Após cagar na universidade
Pra ser mais exato, no prédio da enfermagem
Segundo andar, porta verde, “Masculino”
Meio rolo, cagada inteira, suficiente
Senti uma incandescente coceira ao me mover
Para lavar as mãos
Não ria
Estou tão sério quanto um funeral de mãe
Caso sério
Descia as escadas, desconfortável
Sentindo o batimento do coração nas pregas
A cada passo calculado, sempre pra baixo
Uma agonia aumentada com o roçar das nádegas
Era como se eu tivesse organizado um sapateado dentro do formigueiro
Todos dançarinos embutidos
Uma semana inteira aguentando isso
Mas hoje não dava mais
Liguei para minha mulher farmacêutica que está de férias
Era onze horas da manhã
“Me ajude, não consigo caminhar”
“O que aconteceu?”
“Coceira no rabo! Porra! Sempre depois de cagar! Qual a cura?”
“Coçar?!”
“Não consigo, preciso de mais dedos”
“Onde está?”
“Na universidade. Diga-me o nome de um remédio!”
“Acordei agora, preciso pensar um pouco”
“Tá brincando comigo?”
“Pode ser várias coisas! Assadura, vermes, fungos, bactérias, hemorróidas, tesão, sei lá, estou de porre!”
“E eu estou entre a vida e a morte! Por Deus, parece que sentei no Sol! Um nome de pomada, rápido!”
“Cristo! Vou saber o que tem?!”
“COCEIRA NO CU!!!!!!! ESTUDOU PRA QUE? AI, AI,  AI”
“Estou de férias, vai à farmácia e se explique”
“Nem pensar! Não sou o tipo de pessoa que sai espalhando as coisas. Me diga um nome!”
“Deixe-me ver…”
“Ai, ai, ai”
Silêncio de ambos os lados
Finalmente
“Ok…Compra dois comprimidos de Albendazol e a pomada Hemovirtus”
“Lembra o preço?”
“Claro que não!”
“Tu não serve pra nada! Obrigado, tchau”
Fui à farmácia e entrei de mansinho
Poucos clientes lá dentro, uma funcionária me esperava no balcão
“Bom dia” ela disse
“Boa tarde” respondi todo atrapalhado
“Pois não, boa tarde”
“Quero dois comprimidos de Albendazol”
“Só temos Albendazol líquido hoje”
“Ai, ai, ai” pensei
Mantive as nádegas imóveis e perguntei o preço e a diferença para os comprimidos
“Nenhuma diferença, e o preço é R$ 4,76 cada dose”
“Qual o preço da pomada hemovirtus?”
“Um momento…R$ 19,79”
Pensei rapidamente e respondi
“Moça, a pessoa que precisa dessa medicação julgava os preços mais baixos. Vou falar com ela antes de comprar, sabe como é, situação nada fácil”
“Entendo” ela disse
Fui pra rua, liguei:
“Mulher, acha que meu rego vale quanto?”
“Nada”
“Pois então me indique um remédio equivalente! Vinte paus uma pomada?! Ai, ai, ai”
“Hahaha….Sempre que mando secar essa bunda direito após o banho você me xinga. Caga três vezes por dia, é virado em pelo, sua como atleta no trabalho, usa três dias a mesma cueca, só compra papel higiênico de dois pila e fermenta vivo por dentro! Se fez a caverna, agora aceite os turistas ”.
Desliguei e voltei pra farmácia
“Vou levar uma dose de Albendazol e a pomada”
Saí de lá angustiado e entrei no primeiro prédio da universidade que vi
Engenharia civil, primeiro andar, porta do banheiro cor salmão
Sentei em um sanitário e resvalei o dedo médio com a pomada escura no boga
Uma magia quente e dolorida
Mais pomada
Um alívio desconfiado
Caminhei até o departamento onde trabalho
Derramei o Albendazol líquido em um copo plástico
Cheiro estranho e consistência duvidosa
Enquanto bebia ouvi a pergunta
“Que porra está bebendo?”
“Remédio” respondi após engolir
“Ainda com a garganta podre?”
“Negativo. Esse remédio é pro cu”
“Não está tomando pelo lugar errado?”
“Capaz! O que vai lá está na sacolinha”
Não ria
Pois sabe o que é pior? Isso tudo foi agora a pouco e não sei se vai funcionar
Enquanto continuo peidando com cheiro de pomada
Ai, ai, ai

dito perdedor

quando você acaba um ano com 39 poemas escritos
você inevitavelmente se pega pensando em Bukowski
e outros poetas dignos
de lembrança.
então por alto você calcula:
Bukowski teria escrito,
FACILMENTE,
uns 1460 POEMAS.
mas você não o viu escrevendo
por isso prefere acreditar que elevaram o sofrimento
e na sua cabeça constam apenas 720 poemas.
nada de 730!
– que PORRA você acha que sabe?
no final das contas o resultado é tão óbvio
que você acaba se masturbando com as fotos da sua mulher
enquanto ela dorme ao seu lado
sem
calcinha.

O capcioso eu derrotado

Foi Churchill quem disse:
“Agora que fizeram o que queriam
Vocês têm uma tarefa mais difícil
Gostar do que fizeram”
Ao som dos ruídos gástricos da cidade
O poder nunca foi tão metafísico
Partindo de um ponto ignóbil e viril
O desvio insular coberto por um lençol com dois furos
Homens e mulheres como adesivos num campo de golfe
Foi por isso que Prometeu prometeu não prometer mais nada
Sempre ouço dela: “Não existe doença, existe doentes”
Há muito pouco para mastigar ultimamente
Tudo parece trivial e sem gosto
Comboio marginal
Animais gargalhando, pois voltaram no tempo
E abortaram suas mães
E as tartarugas vivem muito
E as corujas também
Enquanto um besouro castrado na gaiola
Queima num berço vicioso
Colando fumaça no quadro branco
Escritor tarde demais
Escritor cedo demais
Desaprendendo
A caçar na escuridão
Um feixe de luz ilusório
Que me cega
No primeiro feixe de luz
Na escuridão
Era 22:00 quando faltou luz no bairro
E o primeiro grito que ouvi foi esse:
“Filha da puta! E agora como saberei a hora de parar de limpar o rabo?”
O maldito cano sanfonado
Os intrusos, a goteira, as rachaduras da parede, o barulho da caixa d’água
Uma aranha sem pernas tecendo sua teia para afastar-se de mim

Nas vibrações das mazelas

Nas vibrações das mazelas
Ruídos místicos das docas
Congestionaram a viela
E os ecos foram de carona
Para rua sem saída
O soturno gritou por silêncio
Enquanto fazia a barba deitado
Pediu-me opinião sobre seu cavanhaque
“É um formidável retentor de buceta”
Peguei na mão dela e atravessamos a rua
Caminhamos até um vendedor de garapa
“Dois com limão”
Aguardamos toda a engenharia
Seu vestido bronze com relevos pitorescos esvoaçava
Como as asas de um filhote recém chocado
Seu olhar que podia parecer periclitante
Mirava com louvor as sombras das árvores
Vitrines embaçadas pelo vapor íntimo
Paguei R$ 10,00, um copo maior que o outro
Ela sugeriu sentar para beber, concordei
Do outro lado via-se um museu fechado
Uma balança de farmácia, um vendedor de toalhas
O outro lado é uma miragem em construção
Falei em comboios atenuantes
Expliquei o retentor do soturno
Disse-me dos ladrilhos suportando pesos
E afundando em partes
Também dos rins equalizando os termos
As luzes aos poucos contestavam o pôr do sol
Ao passo em que as cigarras afinavam os acordes
Para um blues de rejeição
Petulante, afirmou que daria fim aos meus cravos do nariz
“Meu nariz não tem cravos, o que vê são medalhas”
Nos beijamos como uma batida de porta
Afirmativa, barulhenta e significativa
Jogamos os copos no lixeiro azul
Nos ladrilhos homens sem querer voltar pra casa
Em casa mulheres sem querer que os homens voltem
Arsênio injetado por um farmacêutico grego
Pelo meio da Hercílio até o mercado
Adiante
Um lugar nos espera
Com um gato que parece Carlitos
Derrubando prendedores de varal
Para ficar acomodado
Com uma melancia pela metade
Com os sons de uma cidade que previu o dia
Todo esplendor de uma lâmpada queimada
Sob estrelas vermelhas
O soturno barbear da catarse
Retentores em tanques de guerra
As mazelas, os deleites, os ecos e ruídos
Ainda dormiremos juntos
E acordaremos nus, com a janela semiaberta
Ouvindo o sempre pontual vendedor de ovos caipiras

Feliz Natal

Osvaldo foi comer a ex-mulher de um amigo
Passar o Natal com ela, finalizar todas aquelas sequências de bronhas dos tantos outros feriados
“Oi Osvaldo, pode entrar, a comida já está pronta”
Já tinha imaginado ela mais de dez mil vezes nua e prostrada
“Que bela mesa você preparou Anita, o que é aquilo ao lado do frango?”
“Prove, eu inventei hoje”
Tinha um gosto forte, da vingança contida de um amor acabado
Comeram muito, enchendo seus vácuos mútuos regulares
Beijaram-se com o mesmo gosto labial, um beijo de frango morto
Assistiram televisão juntos, abraçadinhos, ela com a mão no pau, ele com a mão na xota
“Quanta sorte”, Osvaldo regozijou, viu no pau duro a esperança de gozar no mundo
“Vou pegar duas cervejas”
“Opa, manda ver”
Certamente alguém nascia naquele dia, mais uma vez
Lambuzaram-se propositalmente com o sabor do álcool doce da vida amarga
Ela nas tetas, ele nas orelhas
Riram e foram pra cama, saudar o desconhecido antigo
Enquanto metia fundo na fenda, um grito desamparado vinha da rua
“VOU TE MATAR OSVALDO!!”
Na cama
“Me come Osvaldoooooooooo”
“Eu sou o Osvaldo, o Papai Noel dos fodedores!”
“EU SEI ONDE SE ESCONDE DESGRAÇADO!”
“Óóóóó…Me chupa Papai Noel”
Desceu com a língua em ziguezague, contornando todo o presente do Senhor
Os reis bagos ovacionavam o grande momento, os dois com presentes pubianos
Abençoou aquelas coxas, multiplicou o líquido
Afastou as pernas da virgem fodida
E meteu a língua na manjedoura
Um animal degustando seu cocho
“Chupar uma buceta é sugar uma alma e devolve-la nova”
Um Feliz Natal