curta duas aranhas na ducha

tô lá tomando banho e a anêmica aranha pendurada na parede toda trouxa torta tonta toda atravessada de toda maneira possível pela teia invisível me encara assim nos olhos perguntando o que lhe deve tal olhar tão curioso e eu nada consigo responder além de uns sopros e uns pingos d’água que a balança e tremelica suas ideias já raquíticas enquanto a vejo assim descendo descendo caindo aos poucos ainda toda cheia de si toda orgulhosa toda dengosa pra morte que chega ou não eu não sei ela simplesmente desce até o chão e se vai com o mijo que solto sobre ela em total estado de gozo e vitória porque naquele momento eu sou eu e ela não é mais nada até que me viro do nada sua mãe as minhas costas do tamanho de um chinelo quarenta e quatro me engole em um grito seco embaixo do chuveiro

molhado

Retalhos, atalhos, cascalhos

Hoje vim celebrar
O covarde fantasma coalhado
Que em traje engomado
Atraiu o ex-pirito
Traiu o espírito
E em riste triste, obelisco
Rosto desfigurado sem placa
O belisco
Nos sonhos de dândis
Hoje vim sortear
A pele vermelha da boca
Rasgo sem direção
Na avenida que era poesia
Mas tornou-se prosa
Poetas coraram
Ao ver o laço negro
Que a envolvia
Devolvia
Um pouquinho do que era vida
Na não vida
Perdeu-se
O louco pediu dose dupla
Unidade
Poesia silenciosa
Prosa barulhenta
“as estrelas gemem como numa contorção fatal
o calor de mil agulhas quentes transpassa corpos esguios
os homens sozinhos afiam suas facas em meio às florestas de coágulos de
luz”

“O dia de hoje é um dia atrasado de amanhã
O tempo me persegue três voltas à frente
Horas mentem
Minutos complicam
Segundos bastam
Meses atrás estarei lá
Ano que vem perdi sabe-se lá quando
Séculos vendidos como macarrão instantâneo
Julho não viu o verão
Júlio bronzeou-se no inverno
Judite quer um calendário A.C
Judas prefere feriados D.C
Francisco deseja um Chevette
E o ponteiro do porteiro quebrou
Onde estarão eu’s a partir de nunca?”

Sobre nada

Mesmo que o grão disseminado
Conteste a singularidade do plantio
E a terra em desuso
Combata o florescer obscuro
Delírios ácidos acentuarão
Debalde, a irrigação nos poros
Latentes em cada movimento
Mesmo que imortalizar os vícios
Signifique simpatizar a paranoia
Ramas plácidas infinitas
Ainda codificarão o instinto
E os pressupostos doutrinarão a culpa
Se os sapos tivessem asas
Não bateriam com o traseiro no chão
Sempre que pulam
Mesmo que as pupilas dilacerem o razoável
E as bigornas sirvam de peso para papel
Alguma coerência ainda restará
E vibrará como uma víbora
No forno aceso
Jogar fora a própria vida
Significa usá-la da melhor forma
Mesmo que confrontar medo com medo
Seja um blefe da consciência
A confusão enrijece o apetite
Por tudo que se ganha sem razão
Admita que sempre foi hipócrita!
Sendo hipócrita, como posso admitir?
Ousar ou usar
Se em qualquer momento da minha vida
Eu depositar toda minha esperança em alguém
Então podem ter certeza
De que perdi a esperança
Mesmo que nada seja atributo de tudo
Tudo que se escreve sobre nada
Sobretudo
Sobre nada, esse poema
Não quer dizer tudo
Um peixe de sobretudo
Nada nada
Em seu aquário

Nepente

perfeição, excelência
oito letras?
me pergunta uma direta
média
enquanto bem alterado
eu a escuto
entre uma nota e outra
de Beethoven
“é assim. depois inicia
novamente”
então ela para
por um momento
“tá errado”
e então coloca
a música
antes de virar pra mim
e perguntar:
“tá ouvindo? deveria
soar assim”
no que respondo que sim
soa divinamente
parecido
quando na verdade
eu mal consigo
escutar sua voz
estou absorto no mar
dos seus olhos
“aí, aqui ó”
perplexo com sua natureza
“atenção, agora presta bem
atenção, por favor”
envolto em sua áurea
eu permaneço mesmo
quando o cigarro
queima meus dedos
e o caminhão do gás
silencia
vossa melodia

vivendo em vórtex

um muro
pula
se pendura com as pontas dos dedos
ergue-se com dificuldade
espia
sacode as pernas até subir
olha o horizonte
com pose de estátua
salta
corre segurando a chave no bolso
tilim tilim tilim
tem moedas na carteira
outro muro
acende um cigarro
repete o feito do muro anterior
outra estátua cinco minutos mais velha
olha embaixo dos pés
tem um curativo ortopédico grudado no sapato
retira, gruda as moedas e a chave
para cessar o barulho
salta
corre piscando um olho só
outro muro
outra estátua
outro cisco
outro oponente de mesmo nome
pergunta
por acaso não nos vimos já no décimo primeiro muro?
que muro?
ultrapassa
sabe onde quer chegar
corre, corre, corre…e espia
pensa
se Deus existe é problema dele