uma espécie de caça ao tesouro com parentes mortos envolvidos

você abre um txt aqui
outro ali
vai abrindo escrevendo salvando
e esquecendo..
aí do nada abre um premiado
que pula cantando um besouro
que te salta aos olhos
um besouro não era
um biscoito
um biscoito um infarto
no gordo um peido
na gaveta que abre
da boiada que sobe um cheiro
morto – tonto
encontro um dedo
mordido por vovô, biscoito
ainda é cedo para o chá das veias
velhas e abertas?

Peça uma peça ( XXX )

Vander após alguns segundos, entrando no quarto em uma fantasia de árvore

– Será que alguém pode me podar?

Vander não para de gargalhar.

Salete levanta o boneco jardineiro dos lençóis, como se estivesse olhando para Vander

Voz do jardineiro

– O que é isso? Que merda é essa?

Vander

– Qual é jardineiro?! Tenho uma raiz pra te enfiar no rabo.

Salete ri sem parar.

Vander faz um disparo no boneco jardineiro (barulho de tiro).

Salete faz o boneco cair.

As luzes do palco se apagam. Silêncio. Depois de alguns segundos, sons de serrote.

Voz de Salete na escuridão

– O que você acha de um taxista amanhã?

Fim do terceiro ato.

No final do terceiro ato, após alguns instantes, Salete aparece na frente do palco deslumbrante, com as cortinas fechadas, gritando e abanando “Táxi, táxi”. Uma voz diz: Deu sorte em camarada, vai levar a ruiva gostosa. Salete atravessa o palco correndo e some. Som de porta de carro abrindo e fechando, e carro arrancando. Vander surge no lado oposto do palco, espiando, em uma fantasia de piloto de fórmula 1. Ergue a viseira do capacete, observa uns segundos, fecha a viseira e sai de cena.

Peça uma peça ( XXIX )

Salete entra no palco abraçada com um boneco vestido de jardineiro, que esconde sua suposta nudez. Entra no quarto com ele, e vão para debaixo dos lençóis. Por alguns instantes sons de sexo. Vozes de ambos embaixo dos cobertores. Salete incentiva o homem, que reclama dos tapas na cara.

Narradora se aproxima da cama. Salete dá instruções para o homem no sexo oral. Mais alguns sons. Salete reclama que o serrote está machucando e completa dizendo: Já tenho o furo pronto! 

Os lençóis param de se mover.

Narradora voltando para plateia

– Salete dirigiu o homem até o quarto e trepou por uns oito minutos, foi o máximo que conseguiu dele. Vander também não esperava tamanha fragilidade do homem. Ele iria chegar na casa depois de uns vinte minutos, o que segundo Salete, saciaria suas vontades.

Voz do jardineiro fora do palco, conversando na cama

– Vamos falar de negócios agora meu amor? Vamos lá ver as árvores?

Salete

– Eu quero mais sexo! Acha que da um jeito nesse galho caído? Mister jardineiro.

Voz do jardineiro fora do palco, conversando na cama

– Vamos lá fora, eu vejo as árvores, aí estou pronto para a próxima.

Salete

– Ok

Salete caminha abraçada com o boneco jardineiro para o lado oposto de onde entrou e sai do palco.

Voz do jardineiro fora do palco

– Essa é a árvore?

Salete fora do palco

– É. Por quê?

Voz jardineiro

– Nada. Podo ela agora por vinte reais.

Salete

– Pode começar.

Barulho de serrote cortando madeira

Narradora

– Salete já pensava que esse negócio não daria muito certo. “Um homem que trepa desse jeito merece ter os bagos serrados, porque não servem nem pra adubar uma cueca”. Vander entrou pela porta da frente controladamente, sem barulho, com a arma em punho sempre. Viu que ninguém estava no quarto. Pensou no pior “A piranha gostou tanto que fugiu”. Deu uma caminhada pela casa, e notou algo pelo vidro da janela, chegou mais perto e ouviu os sons do serrote. Regozijou, ainda teria tempo. Escondeu-se e esperou ambos entrarem novamente no quarto.

Salete entra novamente no palco abraçada com o boneco jardineiro, beijando-o. Vai até a cama e entra com ele embaixo dos lençóis.

Peça uma peça ( XXVIII )

Salete e Vander saem do quarto. Vander ergue o corpo(boneco) com uma mão e ambos saem do palco. A narradora apanha as roupas e também sai do palco. Ela volta com um pano e um balde e limpa onde supostamente havia sangue no chão.  Depois leva o balde e o pano para fora do palco e volta para a posição original olhando para a plateia.

Narradora

– Todo esquartejamento era feito no banheiro, com um serrote roubado do jardineiro, a primeira vítima. Rendeu somente dez reais e o cara tinha os ossos duros como um pistão de trator. Esse jardineiro foi estudado pelos dois. O viam passar, dia sim, dia não, com sua bolsa de ferramentas, sempre olhando pra baixo ou para as placas de trânsito. Escolheram uma quarta-feira, um tempo nublado e mal cheiroso. Salete vestia um vestido justíssimo, saiu pela porta da frente e chamou:

Narradora olha para fora do palco onde supostamente está Salete.

Voz de Salete fora do palco

– Ei jardineiro!

Narradora ainda olhando para fora do palco

O homem meteu os olhos nela, já pensou na sua ferramenta, na sua mulher feia e gorda, nos seus filhos que ele abandonaria no primeiro furacão, em toda sua vida cortando árvores e jogando merda em flores. 

Voz do jardineiro fora do palco e mais baixa, dando impressão de estar longe de Salete, ainda não entrou pelo portão da casa

– Diga moça.

Salete

– Tô precisando podar umas árvores aqui atrás da minha casa. A gente pode marcar um horário?

Jardineiro (ainda voz mais baixa)

– Deu sorte senhorita, posso fazer isso agora!

Salete

– Ai que bom! Pode entrar, o portão está aberto.

Barulho de portão abrindo e fechando. Passos.

Narradora

Ao entrar pela porta da cozinha, já viu Salete nuazinha, com uma rosa nas mãos. E como a cabeça de um homem para de funcionar num momento desses, ele achou perfeitamente normal aquela situação, afinal, ele era um jardineiro forte, desejado por no mínimo dez mulheres, que tinham timidez demais para se entregarem a ele, mas um dia, uma iria se render ao seu cheiro de adubo nas mãos, e se jogar de corpo e tudo sobre ele.

Peça uma peça ( XXVII )

Voz de narradora fora do palco

– Sim?!

Voz do cadeirante mais baixa, como se estivesse longe da porta

– Olá senhorita, comprar uma trimania hoje?

Voz da narradora

– Quanto tá pagando?

Voz do cadeirante mais baixa
– Um corolla mais 70 mil no quarto prêmio. 10, 11 e 13 mil nos primeiros sorteios.

Voz de narradora
– Qual valor?

Voz do cadeirante mais baixa
– 10 pila

Voz de narradora
– Já vou aí

Narradora entra no palco e vai até Valter pegar o dinheiro. Nesse intervalo, surge a voz do bêbado, também mais baixa, falando com o cadeirante: “Ôôô, da cadeira”. Cadeirante responde meio ríspido: “10 pila”. Bêbado pergunta: “Não tinha uma praça por aqui?”. Cadeirante ainda ríspido: “Segue três quadras pra lá, vira à direita, mais duas quadras e vira à esquerda”. Bêbado: “Obrigado”. Som de porta fechando. Narradora volta pro palco olhando para a loteria que comprou e guarda no bolso da calça.

Narradora faz gesto de figa (sorte) para a plateia e segue com a cena

Ela largou a arma e espichou suas lindas pernas lisas e congruentes na cama, sentiu-se traída por aquele homem bom de piça. Toda a cena que fez, a insinuação de uma fêmea num cio ávido, o rebolado astucioso, o perfume nos seios, tudo um erro, ninguém podia mentir para ela. Não assim, Paulo Henrique por Romildo era trágico demais para sua cabeça. Vander separava as notas com grunhidos.

Vander erguendo uma das pernas    

– Escuta esse Salete!

Barulho de peido.

Narradora

Um peido afinado e estável. Melodia capaz de ser inserida em uma sinfonia de Mozart ou atravessar Óperas inteiras e arrancar aplausos.

Narradora puxa palmas insinuando para a plateia também aplaudir.  

Salete

– Bonitinho esse Vander.

Vander

– Sou um artista de intestino. Devo isso às pontes de safena que carrego nas tripas.

Salete

– Eu sei, eu sei. Vamos cortar logo esse!

Peça uma peça ( XXVI )

Vander  

– Quem era esse maninha? 

Salete

– Um dos grandes do banco.

Vander

– Opa. Deve estar recheado.

Salete

– Tomara.

Narradora para a plateia

Vander deu uns passos para tentar chegar à carteira do defunto sem se sujar, pisando aos poucos. Salete olhava, brilho nos olhos, abertos como um sinal verde. Outra formiga transitava freneticamente, já tinha visto uns cinco mortos por ali naquela semana, com glicoses altas e baixas, sentia vontade de nadar e nadar, morrer afogada num oceano doce e diabético.   

Narradora acompanha a cena curiosa.

Salete

– Que sujeira dos infernos, creio que acertou o coração desse cara.

Vander

– Existe algum livro afirmando que os negros têm mais sangue que os outros?

Salete

– Não, só pau.

Vander

– Ainda bem que morreu de costas. Achei a carteira!

Narradora

Vander pega a carteira e depois, curioso, levanta o morto para tentar conferir o tamanho do pênis.

Vander olha para a narradora desaprovando a sugestão de mexer no corpo (boneco). Narradora confirma positivamente com a cabeça. Vander olha para Salete que não sabe o que dizer. Vander pega a carteira e a contragosto ergue o corpo (boneco) com uma mão até acima de sua cabeça, conferindo o instrumento do boneco e mostrando para a narradora. Vander recoloca o boneco no chão.

Os dois voltam para a cama e sentam. Vander abre o zíper, tira as notas e começa contar, enquanto Salete tira um documento do homem da carteira. Narradora só observa.

Vander

– Estamos ricos Salete! Tem mais de mil reais aqui!

Salete em choque

– O filho da puta mentiu o nome! Olha só, me disse que era Paulo Henrique e se chamava Romildo. O desgraçado acabou com minha fantasia!

Vander

– Relaxa mana. Olha só quanto dinheiro!

Salete atordoada fora de si

– Pro inferno.

Salete levanta com a arma e vai até perto do morto. Dispara mais três tiros no corpo parado (barulho de disparos). E vagarosamente vai apontando a arma para a narradora. Salete atira muitas vezes contra a narradora (sons de gatilho apertado sem munição). O revólver não tem mais balas.

Vander

– Sua psicótica de araque.

Salete um pouco conformada, depois de abaixar a arma

– Vamos cortar ele em pedaços logo. Não gosto mais dele.

Vander

– Mil e trezentos reais! Aleluia! Aquele frentista de ontem tinha só cinqüenta.

Salete

– Pelo menos o frentista não mentiu pra mim.

Som de campainha, os três olham surpreendidos para o mesmo lado. Narradora gesticula com os braços pedindo alguma informação, mas nenhum dos dois faz idéia de quem seja. Narradora ainda com gestos, manda Salete pra cama e avisa que vai dar uma olhada quem é.

Som de campainha. Narradora sai do palco.

Som de porta abrindo.