Passado envelhecido ( XIX )

Essa mulher era um pouco mais velha, bruta mulher, perfumada, peitos erguidos, cintura fina, bunda larga, rosto esbelto, uma presa caçada todo dia, com longos cabelos loiros e mamilos duros, que machucariam a gengiva de qualquer um, e beijava mal pra burro.
O ambiente do bar estava insatisfatório, os poucos presentes eram alguns traficantes, putas caras, músicos conversando sobre seus ídolos do passado, “Jim Morrison foi foda, um poeta, comeu todo mundo, acho que minha mãe daria pra ele”, “Bom mesmo era o Hendrix, toco duas dele, acabou com Jimmy Page e Eric Clapton”, “Porra, eu amo vocês dois, vamos montar uma banda?”, eu soluçando um abominável salame, e essa loira, abandonada, pinta de puta, olhar de puta, pedindo cerveja com outras garrafas pela metade ainda.
Lembro-me de sentar em sua mesa após uma troca de olhares minuciosa, uma prova concreta de algo incerto. Era um sábado de 2011, por volta da meia-noite .
– Posso me sentar? Perguntei
– Fique a vontade.
Puxei a cadeira, pousei minha garrafa. Enchi meu copo e o dela.
– Percebi que você estava gostando de me olhar – continuei.
– Que coisa, percebi o mesmo de ti.
– É, eu gosto de olhar às vezes.
– Acha que eu tenho cara de puta?
– Tem
– Sério? Ainda bem. Mas não sou puta.
– Ainda bem, porque to falido.
Brindamos, demos um gole juntos, eu sequei o copo, pra ela faltou pouco. Enchi de novo.
– Você é charmoso sabia? Tem toda essa barba mal feita. Esse cabelo desajeitado. É alto e magro, mas seus olhos compensam a falta de músculos.
– O que posso dizer? Deus só economizou na coragem.
– Se te falta coragem, como sentou aqui?
– Pensei que fosse puta.
– Mas não tem grana, dá pra ver na cara.
– Iria mentir que sou um piloto de avião. Mas vamos ao que interessa. Esse bar já deu o que tinha. Que tal irmos lá em casa ouvir um som decente e beber um punhado? Se bobear, tem até sanduíches de frango na geladeira.
– Onde você mora?
– Vinte minutos a pé.
– Eu moro aqui do lado. Pode ser na minha casa?
– Tem cerveja lá?
– Tem umas três. Compramos mais umas aqui.
Ela se vestia muito bem, com um vestido verde limão, saltos altos, ficava quase da minha altura. Caminhamos por cinco minutos. Subimos uma escada estreita, que dava direto na porta.
– Por favor, não ligue pra bagunça
– Nem poderia – respondi.
Sentamos em um sofá marrom de três lugares, ela cruzou as pernas, bebia e fumava, eu abri as pernas e me escorrei no sofá, falando o mínimo.
– Então você realmente acha que tenho cara de puta? Perguntou e tragou o cigarro.
– Completamente. Todo seu jeito é de puta. Vai me dizer agora que é puta?
– Quanto você pagaria por mim hoje?
– Hoje nada. Mas se me pegasse ontem, uns R$ 18,00.
– Hahaha.
Cheguei mais perto dela, cheirei seus cabelos, seu pescoço, e subi cheirando, suas orelhas, suas bochechas, até que a beijei com certa violência. Aí não pude evitar o desapontamento inconsciente, mesmo alterado. Como uma mulher daquela idade, quase seus 30 anos não sabia movimentar os lábios o mínimo que fosse? Ela era boa demais de corpo, já devia ter beijado mais de quinhentos homens, e como não tinha adquirido qualquer habilidade? Segui na luta pra encontrar sua língua, em vão, não sei onde à escondia. Parei de beijar, encarei seus olhos e disse:
– Cadê sua língua?
– Tá aqui! Mostrou como se eu fosse o Zé gotinha
– Então porque não coloca ela dentro da minha boca?
– Eu coloco
Pensei que eu pudesse estar bêbado, e não sentisse nada. Tentei de novo, enfiando a minha língua tão fundo que temi a fazer vomitar. Um mulherão daqueles, mas com um beijo de peixe-espada. Já que o beijo não era o dos melhores, descartei qualquer preliminar e fui puxando suas roupas rapidamente. Isso ela fazia com maestria, em menos de quinze segundos estava pelada. Tirei minha roupa também, demorei uns dois minutos porque meu cinto enroscou numa almofada. Começamos no sofá mesmo, “Fode tua puta, vai”, “Vou te pagar a base de pepino no rabo”, “Fode tua puta, vai”. Depois de quatro minutos fomos até a cozinha, ela se pendurou na geladeira, coloquei-a de costas, pra evitar qualquer beijo. Acabamos gozando na cama e por lá ficamos um tempo. Ela quis trocar umas carícias, ficar abraçados.
– Eu te trouxe aqui, mas não queria dar pra ti.
– Queria o quê?
– Tomar umas, dar uns beijos apenas.
– E por que mudou de ideia?
– Nunca pensei que você beijasse tão bem, me fez querer.
– Que bom que quis.
Meu beijo não era nada daquilo que ela falava, era normal, para algumas mulheres até abaixo do esperado. O sexo poderia ter sido sofrível, eu suporto um sexo mequetrefe, até porque sou especialista em não satisfazer algumas mulheres, sem contar que o sexo pode ser melhorado com a insistência e prática das próximas vezes, já o beijo fica difícil, nunca melhora. Perdi um pouco da vontade de ficar, mas ficaria pela bunda.
– Ramon, me conte algo a mais sobre você
– Já viu o tamanho do meu amigo, o que precisa mais?
– Aaaaaa….pros homens tudo é pênis e vagina. Fique sabendo que as mulheres se interessam por tantas coisas mais, você nem imagina.
– Bem, nesse caso é conveniente que as mulheres conversem entre elas essas coisas, não?!
– Aaaa, me conte algo….
Seu telefone tocou, era perto das duas da madrugada.
– Alô…O que?….Onde está?…To indo aí, me espera!
Largou o aparelho.
– Vou ter que sair, minha prima me ligou chorando, tá desesperada em casa sozinha.
– O que houve?
– Não sei.
– Posso te esperar aqui?
– Não. Pode voltar amanhã?
Despedi-me com um selinho na testa, peguei uma garrafa na geladeira pra caminhada e agradeci a Deus por existirem mulheres que se contentam com pouca coisa. Prometi voltar no dia seguinte e foi o que fiz. Sabia que renovado nem ligaria pra beijo nenhum, desde que tivesse umas geladas e dois bicos de tetas disponíveis. Duas horas da tarde apareci lá.
– Pensei que não viria
– Tem outro aí?
– Não, não, pode entrar
Mais um beijinho na testa
– Trouxe umas cervejas, vou colocar gelar.
– Eu comprei umas e as que sobraram de ontem já estão geladas. Abre uma pra nós.
– Claro
Foi sentar no sofá.
Na noite anterior nem tinha reparado, sua casa era enorme. Não lembrava no que trabalhava, mas certamente havia me dito. Embora lembrasse de estar metendo nela apoiada no sanitário, se precisasse ir ao banheiro, teria que perguntar onde ficava.
A geladeira estava cheia de porcarias e restos de bolos, de presunto defumado e de queijo fatiado, algumas frutas, uns tomates congelados, cenouras grossas demais para salada, e uns potinhos embaçados, não dava pra distinguir o que eles escondiam. Um sanduíche até que cairia bem, mas peguei uma cerveja e fui para a sala sentar no sofá. No corredor tinha muitas portas, não entendia porque uma mulher sozinha precisava de tudo aquilo.
Ela não transparecia a idade que tinha, não naquele momento, aparentava uns 24. A maquiagem a deixava com uma cara mais velha. Enchi os copos e olhei pro seu decote prensado.
– Belas mamas – eu disse.
– Você apertou forte ontem, estão doendo.
– Não é sempre que consigo uns pra apertar, então aproveito os que aparecem.
– Eu não consigo ficar um mês sem sexo, fico maluca
– Eu sou como uma rematrícula de universidade, a cada seis meses. O que aconteceu com sua prima ontem?
– Nada não, só frescura. Vem aqui me dar um beijo
– Claro
Cheguei perto e dei-lhe um beijo murcho, pra combinar com o dela.
– Ontem você não me beijava assim Ramooon.
Ela lembrava meu nome. Eu só sabia que o dela começava com B ou D.
– Preciso ter bebido mais para beijar daquela forma. Vamos beber
– Me dá aquele beijo de ontem, que me fez pegar fogo e me dar inteira pra você
– A cerveja vai esquentar
– Me beija agora!
Larguei a cerveja e beijei com tanta força que a menstruação podia ter descido na hora.
– Ai que delicia.
Fiquei excitado com sua cara de puta. Tirei seus peitos pra fora e comecei chupar. Tirei o pau pelo zíper e mandei chupar. Abocanhou só a cabeça e ficou por ali quase imóvel, eu que tive de mexer sua cabeça pra baixo e pra cima. Sabia que da sua boca não podia esperar nada de mais. Sem língua pra mim, de qualquer forma.
Tirou a roupa, dessa vez em uns dez segundos cravados. Nem tirei nada, só abaixei as calças até os tornozelos e permaneci sentado.
– Quero sentar de costas, olhando pro espelho
– Senta então.
Seu traseiro aumentava consideravelmente de tamanho quando ela descia com as pernas afastadas.
Foi uma foda rápida, mas bem intensa. Com a bunda ela mandava bem, rebolava certinho. Nem tentei atrasar a porra, ela se contentava com pouco mesmo.
– Gostou Ramooon? Perguntou ainda comigo dentro
– É bom gozar
– Depois te faço gozar mais.
Lançou-se pelada no sofá. Ergui as calças, a cerveja havia esquentado, fui trocar por uma gelada e voltei.
– Ramon, seu beijo é o melhor que já provei
– Antes de mim beijava o que? Lâmpadas?
– É sério, você me deixa louca
– Olha só, meu beijo é normal, não tem nada de mais. Talvez seja os tamanhos de nossas bocas que combinem.
– Pode ser. Uma vez fiquei com um cara que beijava muito mal. Acabei dando pra ele, fiquei com pena. Me arrependi. Depois que ele gozou, me mandou embora da casa dele. Falei: “Nem precisa me mandar, teu pinto é mais frouxo que teu beijo”. Me chamou de vadia, na saída risquei o carro dele com minha chave, da porta até o pneu.
– Que violenta, ainda bem que deixei minha bicicleta em casa. Quer cerveja?
– Quero, mas antes um beijinho
– Preciso ir ao banheiro, já volto.
Sai andando procurando o banheiro. Era no final do corredor, última porta. Alguns chicletes chupados coloriam a pia, verdes, vermelhos e amarelos.
Voltei e ela tinha colocado a calcinha. Aquela visão me balançava.
– Cadê meu beijo?
Dei um beijo e sentei.
– E então, por que uma casa tão grande se mora sozinha?
– Eu gosto de espaço. De ter vários lugares para dormir. Às vezes eu me imagino em um castelo, como naqueles filmes, eu sou uma rainha, que só come e dorme.
Passei a garrafa em seus mamilos, ergui sua calcinha e dei uma lambida na pomba.
– Sinto lhe dizer, mas está fodendo com um bobo da corte.
– Tudo bem. Já fodi com príncipes pouco valentes. Tem vezes que sinto solidão, mas em um lugar menor também sentiria.
– Entendi.
Silêncio. Dei mais um gole.
– Faz tempo que mora aqui?
– Você fez essa pergunta três vezes ontem.
– Só confirmando.
– Aposto que nem meu nome lembra.
– Começa com B ou D.
– Você é fogo mesmo. Vou no banheiro.
Saiu rebolando, com a calcinha puxada mais para a nádega direita, coisa linda. Procurei alguma xícara com nome, ou um quadro, mas não achei.
Quando ela voltou, parecia mesmo uma rainha recém saída do trono.
– Que tal irmos pra cama? Sugeri
– Vamos
Fodemos pra valer dessa vez. Puxava seus cabelos loiros até o começo da bunda e galopava naquela égua.
– AI QUE PAU GOSTOSO, AI QUE PAU GOSTOSO.
E eu me sentindo o mais heroico dos reis, como se estivesse em um campo de batalha, duelando e ao mesmo tempo comendo minha égua guerreira. Quando gozei, pensei que tinha estourado algo por dentro do meu caralho.
– Me beija.
Dei-lhe um beijo totalmente satisfeito. Dormimos umas duas horas, só acordamos por conta do seu telefone.
– Alô – atendeu.
– Sim….Vou ficar em casa….Tá bom….Pode vir..
Desligou.
– Ramon, minha prima está vindo aqui, melhor você ir pra casa.
– Por quê?
– Não quero que ela te veja.
– Por quê?
– Porque temos assuntos sérios pra discutir.
– E a cerveja que sobrou?
– Pode levar se quiser.
Coloquei todas em uma sacola e fui saindo.
– Vem aqui se despedir.
Fui até ela, enfiei o dedo o mais fundo naquele rabo e soquei a língua num poço de nada.
Pensava: seria B de beijo ou D de desgosto?
Dois dias depois recebi uma ligação.
– Oi Ramon, tudo bem?
– Tudo e você?
– Tudo bem. Estou aqui em São Paulo, vim resolver uns problemas familiares. Vou aproveitar pra ficar com minha mãe um tempo. Voltarei daqui uns vinte dias, e a primeira coisa que quero fazer é te beijar por horas.
– Tudo bem então. Nos falamos.
– Ah. E meu nome é Bruna, seu perturbado dos infernos.
– Viu só, estava em dúvida se era com B de boneca ou D de delícia. Ainda chegaria lá.
– Hahaha. Tá bom. Beijos molhados. Me espera.
– Espero ansioso.

“Beijos humildes e um toque no reto”

Por favor Deus

Por favor Deus
Mate-a depois de mim
Carregue-a como um anjo, para dentro da sua fortaleza, onde apenas os justos caminham
Por favor Deus
Aprenda amar como ela
Castigue todos os homens do mundo como ela fez comigo
Os desacreditados necessitam reviver a eternidade
Por favor Deus, sente-se ao seu lado
Guarde sua alma
Onde as pessoas simplesmente boas não possam vê-la
E tatue nas costas seu nome
Pois a luta que lhe deu
Nem você venceria

Beijo grego

Começa um novo ano
E você pode estar deitado na areia da praia
Masturbando-se em um banheiro de pizzaria
Bêbado em uma cancha de bocha
Enfiando o dedo no rabo da modelo capa da Vogue
Sentado embaixo da ponte, chorando, rezando ou cortejando um sapo
Deitada ao lado do seu amor colegial, banal, conjugal, apoteótico
Chupando o pau do artilheiro da série C
Contando mentiras, vantagens, verdades, ou deleitando o vestido amarrotado da rainha do baile
Acenando para alguém que nunca viu
Suspensa nas costas do guarda-vidas transferido por méritos
Abraçando familiares enquanto peida loucamente
Começa um novo ano
E as promessas, e os desejos,  e a aflição, e a monotonia
E os gritos, os baratos, o sono, a realeza, a confirmação
Há algo que sempre nos relembra
Há algo que permeia todos nossos dias
Que dificilmente nos damos conta
Que nos define em passado, presente e futuro:
O gosto na boca
Ao acordar, ao dormir, ao cantar, ao silenciar
O gosto na boca que não muda
O gosto que sinto
Enquanto escrevo esse poema
Quando tiro os sapatos
Quando quebro um copo
Quando conto uma piada
Quando transo, bebo, fumo, corto as unhas
Quando por ocasião, revivo, repito, refaço
O gosto na boca é minha identidade
Preservado no gargarejo
De todo santo dia

choripán

duas estranhas
na primeira noite
normal do ano
das quais não recordo
se quer os nomes
as quais foram embora
enquanto dormia
das quais me lembro bem
os contornos
das quais ainda tenho
um pouco do cheiro
as quais não me roubaram
por honestidade ou
cortesia? não sei
no fim
o que ficou além
do desejo
de repetir a noite
foram duas calcinhas
ao lado do caderno
onde constava: choripán
e um coração muito bem
desenhado.

Passado envelhecido ( XVIII )

“Ramon?”
“Só um minuto”
Quase sempre adivinho o valor, ou é R$ 418,00 ou R$ 420,00 ou R$ 425,00
Abri a gaveta de um guarda-roupa que não é meu
Como de costume peguei a caixa da fita cassete do filme “A vida de Brian”
Retirei R$ 430,00, ainda ficaram R$ 220,00 dentro, boa parte em cigarros
Fechei a caixinha, lembrei de uma passagem do filme
Mas não consigo mais rir. Fui até a porta, que também não é minha.
– Quanto? Perguntei.
– Ramon, deu R$ 435,00 esse mês.
– Como assim?
– Como assim o que?
– Nunca paguei tanto.
– Esse mês vai pagar.
– O que aumentou?
– Ramon, o aluguel é R$ 350,00, certo?
– Certo.
– Mais R$ 20,00 da internet, certo?
– Nunca funciona.
– R$ 28,00 da água.
– Sempre falta.
– R$ 37,00 da luz. Total de R$ 435,00. Aqui está o recibo, quer ver?
– Não. Aqui tem R$ 430,00. Vou pegar mais.
Saí andando, uma pia, uma mesa, dois bancos brancos
Um fogão branco imundo – minha culpa – uma geladeira
Nada na cozinha é meu, nada parece ser meu nesse lugar, o ar anda pesado
Minhas pernas, sim, minhas, às vezes tremem, balançam ao me levantar
É a pressão alta penso, a do sangue e a do planeta
A gravidade dos homens não deixa quase ninguém voar
Logo enterrará uma parte dos nossos pés e viveremos no mesmo lugar para sempre
– Aqui está, mais cinco reais, dá uma puta das boas – falei.
– Ô se dá – respondeu e saiu.
Tranquei a porta
A geladeira pode não ser minha, mas mantém gélidos uma garrafa plástica de vinho
Dois tomates, duas maçãs, três pepinos, um pacote de mortadela de péssima qualidade
Dois ovos que não chocarão nunca
Uma farinha branca que uso pra engrossar o caldo do feijão
Um pimentão cortado pela metade, dentes de alho que largaram da dentadura faz tempo,
O pacote de arroz de cinco quilos recém aberto e três bifes congelados
O banheiro está com um limo negro nas paredes
Parece uma obra de arte daquelas que ninguém entende, pincelada com água e preguiça
Meu quarto fede cigarro e meias molhadas
Fico sentado em um colchão no chão, o colchão também não é meu
Não me adapto mais a camas
Tenho uma de solteiro aqui ao lado, está com uma coberta sobre o estribo
E por cima dela em torno de quarenta livros esparramados
Um travesseiro, algumas roupas e uma sacola plástica
O vento mexe uma cortina dura pela janela
Ouço Frank, bebo vinho
Endureço a poeira

Homem sardinha

Saiu para comprar aftas e nunca mais voltou
É procurado pela polícia
Assassinos oferecem recompensa
Sua amante exige pensão pelos cães
Que sequer lamberam seus ossos
Nos postes sua foto parece enlatada
Cruzada com fios de luz
Nos postes recebe troféus e autógrafos
Vangloria-se com as rosas apimentadas
Petrificado e platinado
Como bosta de cobra
Homem sardinha
Saiu para comprar fiapos de manga e nunca mais voltou
Na última vez que o viram estava invisível
Com um tubarão nas costas
E um riso entre as pernas
Perdeu-se por prateleiras de algodão
Sem notícias o coral canta sua volta em Dó maior
Desafinados como quedas de abacate
Sobre um vidro blindado que quebra
Fora de Si sem Mi
Sol enluarado à noite
Ré caiu de cara
Fá enganou-se, era fé e foi
Lá perdeu o ônibus
Dó teve pena
Homem abacate
Saiu para comprar sardinha e nunca mais voltou
Pendurou-se em caroços vencidos
Chocou o mundo
E um ovo
Sabor peixe